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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MARQUÊS

Uma espécie de colégio eleitoral escolhia três nomes para que o imperador do Brasil escolhesse um deles, e o escolhido seria senador vitalício, até morrer, ou enquanto o sujeito quisesse. Ao Piauí cabia um senador. O primeiro da escolha imperial se chamou Luís José de Oliveira Mendes, baiano, que ocupou a vaga até a morte, em 1851. O segundo foi Joaquim Francisco Viana, do Estado do Rio. Morreu em 1864.

Em terceiro lugar, escolha de Pedro II, assumiu João Lustosa da Cunha Paranaguá, piauiense, que seria depois marquês. Era íntimo do imperador.

Nascido em Parnaguá, 1821, faleceu no Rio de Janeiro, 1912. Formado em Direito pela Academia de Olinda (PE). Exerceu cargos na magistratura, aposentando-se com as honras de desembargador (1878). Governou as províncias do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia. Representou o Piauí na Câmara dos Deputados (1850-1865) e no Senado (1865-1889). Foi ministro da justiça (1859) e da Guerra (1866), novamente da Guerra (1879), conselheiro de Estado (1979), e presidente do Conselho de Ministros (1882-83). Gozava da estima do imperador Pedro II, que o cumulou de distinções. Era vedor da Casa Imperial. Proclamada a República, retirou-se da política, presidindo, nos seus últimos anos de vida, o Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Brasileiro e a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Também foi presidente da Comissão Diretora do 3º Congresso Científico Americano. Dignitário da Ordem da Rosa e comendador de Ordem Romana de São Gregório Magno. Visconde com grandeza por decreto de 18 de janeiro de 1882 e marquês por decreto de 13 de junho de 1888.

Quando estudante colaborou no "Filedeimon", de Olinda (PE), em que publicou "A Fonte e Causa da Riqueza" e "A Esperança" (1846). Deixou "Maranhão", relatório ao ministro do Império sobre eleição para senador naquela província (1859); "Reforma Hipotecária" (projetos e pareceres), 1860; "Reorganização do Exército", discurso, 1867; "Reforma da Lei de Execuções", 1884, além de vários discursos parlamentares.

João Pinheiro considerou-o notável político, jurisconsulto e orador. Afonso Celso escreveu sobre sua personalidade: "Despido das qualidades brilhantes que geram fanatismos e, igualmente, ódios ardentes, revelava um conjunto de dotes assaz apreciável e raro. Não ofuscava a ninguém, e ninguém, com justiça, tacharia de escandalosas as suas boas fortunas políticas. General, não despertaria o entusiasmo das tropas, nem as guiaria a feitos estrondosos, dos que dimana a glória, mas as levaria por estradas seguras, cordato e circunspeto, preferindo armistícios e negociações conciliadoras a arriscadas batalhas campais. Prudência, jeito, discernimento das ocasiões, savoir-faire, savoir-vivre, tomadas estas expressões no sentido favorável - eis os elementos dos seus triunfos" (Oito Anos de Parlamento).


A. Tito Filho, 24/07/1988, Jornal O Dia

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

FÉLIX - I

Nasceu em Teresina (PI), 2-8-1879. Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), 6-12-1935, aos 56 anos de idade, após rápida e cruel enfermidade, que suportou com resignação cristã. Pais: Gabriel Luís Ferreira (admirável magistrado) e Maria Benedita Cândida da Conceição Pacheco. Para o Rio, em 1890, levou-o o tio, senador Teodoro Alves Pacheco.

Estudou no célebre Instituto de Karnak, de Teresina. Os estudos secundários foram realizados no Colégio Militar (Rio). Muito jovem ainda, na antiga capital da República, ingressou no jornalismo, iniciando-se em "O Debate". Logo passou à redação do "Jornal do Comércio", em que percorreu todos os postos, de repórter a diretor e a proprietário.

O jornalista. Ingressou no "Jornal do Comércio" em 1889. Viveu do jornal e para o jornal. Fez passar pelo grande órgão sopro de notáveis campanhas. Agitava idéias e projetava extraordinárias figuras cívicas. Escreveu ensaios nas colunas do jornal. Panfletário, combatente, corajoso, nada temia. Mas sereno, de períodos rítmicos, curtos, diretos.

O poeta. Começou impregnado de Verlaine, Rimbaud, Baudelaire. Mergulhou na experiência humana para descobrir o inconsciente, o mar, o amor e a morte. Simbolista, aprendeu o segredo das cousas antigas e profundas. Conhecia o mistério das palavras. Poesia de gosto novo, de preocupação com os problemas interiores. Gostava de modificar os seus poemas. Morreu cantando.

Félix foi, no Brasil, o magnífico revelador do gênio de Baudelaire, iniciando ensaios de análise e interpretação de vários aspectos da estética do poeta. A sua bravura intelectual explica o ardor com que estudava a obra do francês. Precedeu até aos críticos de França, no exame das concepções baudelaireanas. Com erudição, mostrou o artificialismo do autor de "Flores do Mal", de quem afirmou ainda o sentido poético religioso. Neste ponto Félix poderia ser chamado de o interprete.

O historiador. Interessantes os seus estudos da história pátria. Estreou com a biografia e a analise de Evaristo da Veiga. Mais tarde viria o estudo sobre o Marques de Paranaguá, perfil político magistral. Pesquisou as origens do "Jornal do Comércio". Escreveu ainda "Duas Charadas Bibliográficas", monumento de erudição.

O político. Um dos políticos que mais se impuseram pelos méritos e nobreza de atitudes. Deputado federal doze anos, sempre convocado e apoiado pelos conterrâneos. Brilhante a sua ação na Câmara: operoso nos pareceres, vigilante na tarefa orçamentária. Líder de sua bancada, legou aos anais idéias e princípios. Eleito (1921) senador por nove anos, ainda pelo Piauí. Antes do término do mandato, o presidente Artur Bernardes nomeou-o para a pasta das Relações Exteriores. Relutou em aceitar o cargo. O próprio Bernardes lhe escreveu, textualmente: "Sua modéstia o faz mau juiz em causas próprias". Aconselhou-se com Rui Barbosa e Epitácio Pessoa. Ambos prometeram ajudá-lo na grande tarefa.

Novamente escolhido senador, em 1927, o seu diploma foi impugnado e contestado por ridícula campanha política. O Senado rasgou-lhe o diploma e ele se afastou, desde então, completamente, de qualquer atividade política.


A. Tito Filho, 13/10/1988, Jornal O Dia. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

INTERPRETAÇÃO

A partir de 1930, o Piauí, com os demais estados federativos, ingressou, até 1947, na era dos interventores federais, de modo geral escolhidos nas fileiras das Forças Armadas. Até músicas carnavalescas cantaram esses representantes do governo central, cujo chefe provisório se chamou Getúlio Vargas. Houve, entre as interventorias, ligeiro intervalo, de 1935 a 1937, quando se implantou a violenta ditadura getuliana.

Ainda não se escreveu a história do Piauí no período referido, senão em artigos jornalísticos ou de revistas e ainda em cronologias registradoras de fatos políticos, administrativos e sociais, se analise de cousas e consequências, salvo raríssimas exceções.

Quantos movimentos rebeldes depois da fase imperial? Vários, desde os tempos de Deodoro da Fonseca até o regime militar de 1964, de longa duração.

Seria exaustivo relacionar as lutas que se tem verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuraram pesquisar e interpretar. A grande Revolução Industrial do principio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. A máquina tornou-se responsável pela desorganização da família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto e derribou estruturas seculares, transformações que chegaram ao Brasil lentamente, em virtude da economia nacional como base exclusiva na agropecuária.

A abolição da escravatura promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, substituídos por outros de interesses idênticos, como o domínio das elites políticas e de clãs familiares. Não houve revoluções no Brasil, uma vez que persistem os desequilíbrios sociais, a fome, a miséria. Quantas falsas revoluções nacionais. Apenas rebeldias militares, como as de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945, 1964, sem que se procurasse anular a angustia do homem, ainda agora inconsciente de deveres e direitos.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo e das oligarquias no Piauí, a história dos donos da gadaria e dos latifundiários da monocultura, dos chefes políticos fazedores de governos e de representações nas casas legislativas, proprietários dos cargos públicos e das benesses oficiais.

Na presente obra oportuna e valiosa, fixam-se de memória fatos e se procura analisá-los com justeza e seriedade, sobremaneira nos aspectos políticos e sociológicos. A interpretação torna-se fiel ao mesmo tempo sério documento histórico de lutas partidárias para manutenção do poder pessoal e oligárquico.

Professor, educador e político, estudioso de assuntos sociais, Raimundo Wall Ferraz analisa governos a partir de 1931, interventoria Landri Sales, que procurou destronar as oligarquias no Estado - e conseguiu. Em seguida, lembra o restabelecimento do poder oligárquico promovido por Leônidas Melo, em cuja administração se praticavam violências contra magistrados e se promoveram incêndios criminosos. Recorda os spolls system do governo Rocha Furtado, de perseguição incontroláveis contra adversários políticos, desorganizando a administração pública - e novamente as oligarquias vitoriosas aos governos Pedro Freitas Gayoso e Almendra. E prossegue com Chagas Rodrigues, progressista e lutador. Faz os retratos políticos de Petrônio Portela, Helvídio Nunes, Clímaco d'Almeida, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde e anota-lhes as vitórias administrativas.

Coube-me a tarefa agradável de escrever estas linhas sobre o livro de Wall Ferraz, ex-vereador e ex-vice prefeito de Teresina, e prefeito da capital piauiense duas vezes. Político de irrecusável prestígio, não me compete realçar-lhe ou negar-lhe qualidades administrativas. Seria injusto, porém, esconder a notável reforma educacional do primeiro governo Alberto Silva, trabalho do autor como secretário da Educação, mas cujo nome ele não cita por imposição de modéstia e virtude pessoal.

Inteligência cultivada, Raimundo Wall Ferraz não demonstra nas páginas do livro odiosidades ou malquerenças. Leciona trechos da história do Piauí com a verdade. Testemunhou fatos e os interpretou em toda a plenitude. Conciso e preciso. Despreza pormenores enjoativos. Estilo simples. Linguagem asseada. Livro honesto, com a fixação dos caracteres humanos que participaram de longo período das lutas piauienses - cenário de paixões, de personalismos, de prestígio de clãs, com honrosas e raras exceções.


A. Tito Filho, 01-2/05/1992, Jornal O Dia. 

terça-feira, 25 de maio de 2010

PETRÔNIO PORTELLA

Piauiense de Valença, nascido em 1925. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou na política, filiando-se aos quadros da antiga União Democrática Nacional. Deputado da Assembléia Legislativa do Piauí, logo se revelou temperamento combativo, mas sempre disposto ao diálogo de que resultassem benefícios coletivos. Em renhido pleito popular conquistou a prefeitura de Teresina, realizando administração sóbria, honesta e segura. Encerrado o mandato a 31 de janeiro de 1963, já estava eleito Governador do Piauí, em cujo cargo deu especial atenção aos problemas e assuntos educacionais, além de realizações da mais alta importância. Expandiu a rede de ensino primário e médio. Criou e instalou o Conselho de Educação. Encampou a Faculdade de Odontologia e criou a Faculdade de Medicina - institutos que, com as faculdades de Direito e Filosofia, se tornaram o ponto inicial da futura Universidade.

Os conterrâneos mais uma vez depositaram confiança no jovem líder e ei-lo, 1967, Senador da República, reeleito oito anos depois para o segundo mandato. Revelar-se-ia, então, o homem de Estado, sensível aos acontecimentos políticos e sociais da nacionalidade. Logo foi investido da vice-liderança do Governo, numa época de conturbações partidárias. Em seguida, líder. Começavam a pesar-lhe sobre os ombros importantíssimas responsabilidades nacionais. Presidente do Senado e consequentemente do Congresso Nacional, duas vezes. Presidente da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Praticou, em todas as funções, seriedade, e nunca fugiu da verdade. Deu-lhe o Governo a incumbência de ouvir setores da vida brasileira - e aí surgiu a Missão Portella e a derrubada dos diplomas totalitários da República. Coordenador político do Presidente João Batista Figueiredo, de quem aceitou, o cargo de Ministro da Justiça, levando o Ministério a reconquistar o seu prestígio e grandeza no quadro político republicano. Enfrentou problemas graves: a censura, a violência urbana, a extinção e a criação de grêmios partidários. De tudo se saiu com aprumo, equilíbrio e dignidade, acatado e respeitado por correligionários e adversários. Traço eloqüente do seu caráter: não enganava. Era veementemente sincero. Não dava publicidade a preocupações que o afligiam, mas não deixava de confessá-las aos companheiros de vida pública, do Governo e da Oposição, para que pudessem, com as advertências, ser preservadas as instituições.

No Senado, praticou gesto sem precedentes, concretizando o plano editorial com a publicação de obras e debates das mais extraordinárias figuras do Parlamento brasileiro.

E ao Piauí ofereceu a luta e o esforço permanente, conseguindo, nos idos de 1968, que o presidente Costa e Silva criasse a Fundação Universidade Federal do Piauí, com o objetivo de manter a Universidade Federal do Piauí - entidade que era sonho e hoje é orgulho dos piauienses.

Inteligente, culto, devotado à terra que o viu nascer e à sua gente, Petrônio Portella, nestes últimos anos, se dedicava sobretudo ao culto da bondade e da virtude. Exonerara-se de quaisquer ressentimentos para com os outros. Amava a concórdia. Queria bem a todos.

E foi esta imagem que ele deixou, no dia 06 de janeiro de 1980, data da viagem sem regresso: um coração e um cérebro a serviço do próximo.


 
A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia