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segunda-feira, 14 de março de 2011

NAPOLEÃO

Nasceu em União (PI) a 17-3-1903, na Casa Grande do "Sítio", pertencente a seu bisavô Antônio Martins Viana, sede do patriarca rural em decadência. De família pobre.  Aos dez anos seguiu para Belém (PA), onde cursou o antigo Ginásio Pais de Carvalho e iniciou vida literária, colaborando em jornais e revistas. Auxiliar de telegrafista em Salvador (BA). De 1919 a 1924 residiu no Rio de Janeiro. Passou dificuldades. Operário no antigo Museu Nacional da Quinta da Boavista. Trabalhou no Serviço de Seleção de Sementes do Ministério da Agricultura. Regressando ao Piauí, exerceu os seguintes cargos: Oficial de Gabinete e Secretário do Governador do Estado, Redator do jornal "O Piauí", catedrático do antigo Liceu Piauiense (hoje Colégio Zacarias de Góis), lecionando gramática histórica e filosofia; professor do ginásio São Francisco de Sales, Colégio Coração de Jesus, Escola Normal (línguas); Diretor do Liceu Piauiense, Diretor Geral da Instrução Pública, correspondente a Secretário de Educação e Cultura (duas vezes); Professor de Direito Constitucional da antiga Faculdade de Direito do Piauí; Consultor Jurídico do Departamento das Municipalidades; Secretário Geral do Estado e Interventor Federal. Elaborou a reforma orgânica do ensino estadual em moldes de alto nível pedagógico. Pioneiro da instituição de plano de escolas de iniciação agrícola. Membro do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Educação, do Pen Clube, da Academia de Ciências Políticas da Universidade de Colúmbia e da Associação Piauiense de Imprensa. Voltou ao Rio em 1946, como advogado. Integrou o Serviço Jurídico da antiga Superintendência da Moeda e do Crédito. Pertenceu à Consultoria Jurídica do Banco do Brasil, como Chefe-Adjunto do Departamento Jurídico da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial. Consultor Jurídico do Banco do Brasil. Labor intelectual extraordinário: professor, ensaísta, conferencista, jornalista, tradutor, advogado, prosador e dos maiores poetas da literatura nacional.

OBRA:

- "Do Latim Castrense ao Romance"

- "Influência Dantesca na Obra de Camões"

- "O Sentimento Brasileiro na Poesia de Bilac"

- "A Criança Problema Básico"

- "O Nordeste e as Grandes diretrizes da Educação Popular"

- "Caderno de Ação Católica"

- "O Piauí e o Nordeste"

- "Aceite Condicional da Duplicata"

- "Dívida dos Pecuaristas"

- "Copa de Ébano" (poesia)

- "Poemas da Terra Selvagem"

- "Caminhos da Vida e da Morte" (poesia)

- "Poemas Humanos e Divinos"

- "O Prisioneiro do Mundo" (poesia)

- "Opus 7" (poesia)

- "O Oleiro Cego" (poesia)

- "Três Cantos do Paraíso"

- "Pequena Antologia de Poemas Alheios"

- "Tema, Coral e Fuga" (poesia)

- "Três Cantos do Purgatório" e

- "Epopéia Camoniana" (conferência).

Martins Napoleão participou do movimento de renovação da poesia brasileira. Alguns dos seus poemas foram vertidos para o espanhol por Gastón Figuera (Uruguai) e Juan Felipe Toruno (El Salvador). É glória das letras piauienses.

Toda a sua obra poética foi reunida por ele em dois volumes, intitulados "Cancioneiro Geral". A prosa literária está num só volume, "Folhas Soltas ao Vento".

Benedito Martins Napoleão do Rego faleceu no Rio de Janeiro, a 30-4-1981, e sepultou-se em Teresina, no dia seguinte.


A. Tito Filho, 28/07/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 10 de março de 2011

FERNANDO

Nasceu na cidade de União (PI) a 26-8-1896. Pais: Augusto Everton e Silva (magistrado) e Eva Gaspar Tobler e Silva, filha de João Gaspar Tobler, de nacionalidade suíça, residente em Amarante (PI).

Estudos primários com o pai, em Colônia, hoje Floriano (PI), que alí mantinha uma escola noturna - a escola São Vicente de Paula. Depois, aluno do Colégio Diocesano e do Liceu Piauiense, em Teresina. Em 1920, prestou concurso para telegrafista. Classificado em 2º lugar e nomeado, passou a exercer as funções em Fortaleza e aí se matriculou na Faculdade de Direito, formando-se a 11-8-1927 - Turma do Centenário da Fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil (11-8-1827). Já casado com Maria do Carmo Ribeiro e Silva, de ilustre e tradicional família cearense, deixou a carreira telegráfica, passando ao exercício da promotoria pública de Cascavel, depois de Russas, ambas do Ceará. Em 1929, juiz municipal na comarca de Massapê (CE). Juiz de Limoeiro (hoje Limoeiro do Norte), onde fundou colégio com aulas matutinas (para o sexo feminino), vespertinas (rapazes) e noturnas (comerciantes e lavradores).

Ano de 1931, atendendo a apelo do pai desembargador Augusto Everton e Silva, voltou ao Piauí. Nomeado juiz de direito de Jaicós, aí fundou o colégio Padre Marcos. Foi juiz também nas seguintes comarcas piauienses: Piripiri, Uruçuí, Castelo (hoje Castelo do Piauí), Jaicós (segunda vez) e Floriano - e nesta última exerceu o magistério no Colégio Santa Teresinha. Princípio de 1954, aceitou o juizado da 1ª vara cível de Teresina. Em 1956, subia ao mais alto posto da magistratura estadual, como desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí, cargo em que se aposentou, em 1966, ao atingir a idade-limite de 70 anos.

Na capital do Piauí foi acatado mestre, nos seguintes educandários: Ginásio Leão XIII, Colégio Sagrado Coração de Jesus, Escola Normal, Colégio Estadual do Piauí, Ginásio Demóstenes Avelino e, de 1959 a 1966, da Faculdade de Direito do Piauí, como catedrático de Introdução a Ciência do Direito.

Atividades jornalísticas: fundador e redator-chefe do "O Município", na cidade de Cascavel (CE), ano de 1928. Em Fortaleza, ainda acadêmico, colaborou na Revista da Faculdade de Direito do Ceará e nos jornais "Gazeta de Notícias" e "O Nordeste"; em Floriano, quando juiz, no órgão "Cidade de Floriano"; em Teresina, em "Jornal do Piauí". Durante 13 anos presta colaboração ao "Estado do Piauí", da capital piauiense.

Logo depois de aposentado, transferiu residência para Fortaleza - e na capital cearense, entre 1968 e 1971, com artigos de crítica literária, colaborou nos jornais "O Povo", "Unitário" e "Correio do Ceará".

As revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí agasalham brilhantes produções de Fernando Lopes Sobrinho.

Obras publicadas: "Padre Marcos, um Missionário do Bem" e "O Direito e a Equidade" (Tese).

Jurista, jornalista, poeta, ingressou na Academia Piauiense de Letras em 1967; deu ao jornalismo uma fórmula nova, jovial de criticar e de julgar, e mostrou que o jornalismo é, antes de tudo, arte essencial, que reclama dons divinatórios do espírito. No seu jornalismo, há um permanente clima de humor - o humor dos ingleses - assim à moda de um Conteline. É que o sal do humor tem um substrato fisiológico, o sal das lágrimas, como acentuou Afrânio Peixoto.

Ao jornalismo uniu a atividade do professor. E educou os moços com fulgurante e acreditada cultura, baseando o ensinamento, sobretudo na compreensão da alma dos jovens, sempre sequiosos de ternura, de alegria, de liberdade. Sentiu que o amor é a base da educação - e destruiu todos os diques que separam mestres e discípulos.

Praticou a justiça que nasceu da cultura e da meditação, talvez do estudo e do sofrimento. A justiça de que todos os direitos vivem em função da sociedade.

Publicou "Enquanto as Trevas não chegam", [de] crônicas e crítica.

Chamou-se Fernando Lopes e Silva Sobrinho. Faleceu em Fortaleza, 1981.


A. Tito Filho, 30/06/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 3 de março de 2011

PIAUÍ

Ingressou o Piauí no século XIX de modo precário; tardio povoamento dificuldades de comunicação com o Brasil e o mundo, exclusivo comércio do boi, ausência de agricultura, falta de escolas - fracas perspectivas, pois, na centúria que se inicia.

A primeira metade dos novos cem anos constitui objeto de estudo que expõe, apoiada sobre sérias fontes de conhecimento, a Professora Miridan Britto Knox, bem documentada - uma documentação que ela confere, examina e, de que retira a verdade, para a narrativa segura e análise esclarecedora.

O período que ora se registra e interpreta tem características esmorecedoras: economia de subsistência, riquezas estagnadas, comércio e lavoura em imensas dificuldades, pecuária decadente, tristes condições educacionais. Não se pode ignorar, porém, que o Piauí se envolveu em movimentos revolucionários - dois, sobretudo a Independência e a Balaiada.

No alvorecer do século XIX, o ouro, o diamante e o açúcar declinavam no Brasil. O norte valia dois terços de atividade útil no território nacional. Se o comandante português Fidié mantivesse o Piauí fiel aos lusitanos, como queria D. João VI. Portugal dominaria a nossa fartura em gado e evitaria a vitória dos baianos, na luta pela emancipação política, cortando-lhes o fornecimento de carne. Maranhão, Pará e terras piauienses formariam o Brasil Português, subordinado a Lisboa. Tal não se deu.

Fidié abandonou a sede do governo e seguiu com a tropa para Parnaíba, município em cuja sede se fez manifesto em favor da independência. Ausentes os soldados e respectivas armas, Manuel de Sousa Martins, futuro visconde da Parnaíba, instituiu em Oeiras, então capital administração por ele chefiada. Depois, em março, deu-se a sangrenta Batalha do Jenipapo no Piauí, que selou a unidade brasileira. A definitiva derrota dos exércitos portugueses se verificaria poucos meses depois, em Caxias do Maranhão.

A guerra violenta dos balaios, no Maranhão e no Piauí, tem causas num choque de culturas. As origens próximas da luta estavam na prática perniciosa do recrutamento feito pelo Exército, obrigando-se que pobres caboclos entrassem para o serviço das armas, longe da terra e da família. As origens mais graves, entretanto, eram outras: as condições de ordem econômica geradoras de permanente angústia coletiva; a terra confiada a poucos, aos que representavam o regime político e que viviam de explorar o homem do interior, bem assim a fome e a estrutura social, o brasileiro esquecido e abandonado.

Nestes primeiros cinqüenta anos do século XIX, no Piauí, mais de duas vintenas pertencem ao ciclo do visconde da Parnaíba, a quem coube defender e manter a ordem enquanto teve prestigiado o seu mando e autoridade.

Mestra universitária estudiosa, pesquisadora de aplaudida probidade, Miridan Britto Knox reúne palpitantes e aplaudidos estudos de natureza social e política, fiel aos ensinamentos históricos, e assim contribui de modo louvável para relembrar o passado piauiense, que ela busca em fontes primárias de irrecusável valor.


A. Tito Filho, 27/07/1988, Jornal O Dia

MESTRE HIGINO

Nasceu a 11-1-1858, no sítio Bacuri, município de São José das Cajazeiras, hoje Timon, Maranhão. Pais: Luis José da Cunha e Ludgera Maria da Conceição. Com os irmãos mais velhos estudou primeiras letras. Com 12 anos veio para Teresina, empregando-se no comércio. Estudou escrituração mercantil. Guarda-livros. Rumou aos 20 anos para são Luís, onde estudou preparatórios. Já demonstrava acentuada vocação literária. Bacharel em 1885 pela Faculdade de Direito do Recife, discípulo dos mais inteligentes de Tobias Barreto. Regressou a Teresina. Aderiu à política. Redator de "A Imprensa". Em 1887 juiz municipal de Picos (Maranhão). Proclamada a República, fixou residência na capital do Piauí. Grande lutador. Propagandista dos momentos sociais da abolição e da República. Orador na praça pública, conferencista, estudioso da filosofia, jornalista de pulso, polemista desassombrado, professor e advogado.

Escrevendo sobre Higino Cunha, o acadêmico Moura Rego lembra a sua formação na Faculdade de Direito do Recife, na qual pontificava sobretudo Tobias Barreto, chefe de uma verdadeira revolução espiritual no domínio das idéias. E acentua: "Assim predisposto, e alistado nas fileiras que viriam emancipar a mentalidade nacional, sua ação é decisiva. Passa em revista, maravilhado pela novidade, todo o vasto contingente de idéias que invade então os círculos acadêmicos; atira-se aos largos caminhos abertos na fúria do desbravamento, ansioso de atingir as elevações do último extremo; examina métodos e compara sistemas, aprofunda-se em indagações sobre a vida, sobre a matéria; percorre os domínios da ciência, da religião e da filosofia; faz cultura, armazena conhecimentos; abraça Kant e Haeckel. Encontra, afinal, água nova para sua sede, luz brilhante para sua treva".

Notável jornalista. As suas polêmicas, quase sempre em defesa de princípios, abrangeram quase todos os setores da cultura. Quando estudante escreveu em "Folha do Norte" (Recife). Teve colaboração valiosa na imprensa de Teresina: "A Imprensa", "A República", "Correio de Teresina", "O Habeas-Corpus". Defendia vigorosamente as suas convicções religiosas, políticas e filosóficas. Em Manaus, onde esteve entre 1895 e 1896, trabalhou em "A Federação" e em "O Estado do Amazonas", travando lutas memoráveis.

Sucedendo-o na Academia Piauiense de Letras, sustentou Moura Rego: "Do meio do seu ateísmo intransigente, do meio da sua heresia, surgia sempre, num contraste interessante, o homem bom. Atacava os padres e fazia caridade; atirava nos santos da igreja as pedras da sua irreverência e levantava do pó os necessitados e os desprotegidos da sorte; negava o céu e acreditava no amor; desconhecias as leis de Deus e obedecia aos seus mandamentos. Como juiz, jamais cometera uma injustiça, e como advogado as suas causas eram as dos oprimidos, dos explorados, das vítimas do ódio ou da tirania".

Mestre de várias gerações. Professor acatado e brilhante da Faculdade de Direito do Piauí. Amigo dos moços, os quais recebiam do deslevo incentivo constante.

Na política e na imprensa, foi "um grande explorado", como acentuou Cristino Castelo Branco.

Higino cultivou também a poesia e a história.

Aposentou-se como procurador dos Feitos da Fazenda Estadual (Piauí). Publicou as seguintes obras:

● "Pro Veritato" (crítica literária - 1883);
● "O Idealismo Filosófico e o Ideal Artístico", 1912;
● "O Teatro em Teresina" (conferência - 1923);
● "História das Religiões no Piauí" (1924);
● "Os Revolucionários do Sul" (1936);
● "A Igreja e a Constituição de 1924";
● "Memórias Autobiográficas";
● "Anísio de Abreu - sua vida, sua obra, sua morte";
● "Matias Olímpio de Melo";
● "A Defesa do Professor Leopoldo Cunha".

Higino Cunha fez parte da Junta que governou o Piauí, no período de 21-12-1891 a 11-2-1892, integrada também por João Domingos Ramos, Clodoaldo Freitas, José Eusébio de Carvalho Oliveira, Elias Firmino de Sousa Martins e José Pereira Lopes.

Faleceu em Teresina a 16-11-1943.


A. Tito Filho, 27/03/1988, Jornal O Dia

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

DESPEDIDA

Anízio Cavalcanti, talentoso piauiense, enviou as considerações abaixo ao ilustrado e culto mestre Francisco Barreto Soares Cordeiro sobre o livro DESPEDIDA, do saudoso poeta Oliveira Neto:

"A VIZINHANÇA da morte e a proximidade do aniquilamento são temas constantes em literatura de expressão poética. O ser humano, eterno em sua alma, mas contingente e transitório em sua textura de barro, em várias fases da vida é acometido por toda uma gama de sentimentos, que vão desde o leve pressentimento da fragilidade da existência biológica até as agruras da angustia existencial em conflito com a carne fraca. O infante se aninha instintivamente nos braços da mãe, em busca inconsciente de uma proteção; o homem de setenta anos abre conscientemente sua alma, em busca de um diálogo com o Cosmos: mergulha na claridade das manhãs banhada de sol - símbolo da esperança - e dos crepúsculos que se dissolvem na noite - símbolo do que morre... O homem morre a cada dia e renasce com o novo sol, enquanto o teimoso coração lhe bater no peito - primum vivens, ultimum morriens.

O mergulho no Cosmos, ao mesmo tempo físico e metafísico, dilata o coração a transbordar de indagações ansiosas sobre o destino. E eis-que, lá no alto, o mundo das estrelas, distante e mudas, se desdobra em abóbada desmesurada, e lhe diz, no silencio das galáxias, que aquele brilho é vida, e que essa vida é a vida total, regida pelo Criador. Por trás desse teatro fantástico se situa o nosso antideus, que transformou o barro em ser pensante. E o barro, agora feito homem, e o homem, agora feito poeta, dobra-se sobre si mesmo e angustiado indaga às estrelas o seu rumo definitivo.

OLIVEIRA NETO, poeta de sensibilidade, meu contemporâneo (1907), dobrou os setenta anos, através de fecunda produção de poesia na literatura piauiense. Neste mais recente volume (1983) põe no pórtico o soneto Despedida, com que anuncia cessar escrever poesia:

"É o poeta deixando a poesia parar
Sem causar prejuízo ou pesar a ninguém!"

Acrescenta, à página seguinte, que tem achado a vida tão bela, e se agradou tanto dela, que deseja voltar de novo.

Do ponto de vista literário, o poeta de bom quilate não morre: fica, nos livros que escreveu. E os eu corpo de barro, ao morrer, passa de novo pelas mãos do nosso Deus-Pai, para banhá-lo no sangue do Cristo-Redentor, e transfigurá-lo à luz das estrelas. E a alma do poeta, transfigurada, rebrilhará entre os milhões de seres que integram as galáxias humanas".


A. Tito Filho, 24/11/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TERESINA, CIDADE DA PERDIÇÃO

Esta é a primeira de uma longa série de reportagens, que iniciamos hoje, para denunciar à Nação e as autoridades da IIIª Republica Democrática do Brasil, instituída aos albores de 29 de outubro de 1945, trama sinistra de que se valem aventureiros despudorados, para sugar do aflito povo piauiense, o último centavo, e última gota de sangue de suas parcas economias, nesta hora sem precedentes na história social, economica e política do Piauí.

Campeia, livremente, nas ruas da Capital piauiense, o jogo de azar, num acinte à Nação inteira e às leis que nos governam, como que desafiando as autoridades e induzindo-nos a acreditar que, por traz dos bastidores políticos, há pressões interessadas e convivêntes na sua continuação criminosa.

Dentre os maiores cancros sociais que já nos afligem, como o da prostituição desenfreada; do alcoolismo, sem repressão; da mentalidade sem auxilio pratico e resoluto do Governo; da infancia abandonada e delinquente; o jogo se enfileira e se sobrepõe a qualquer outro, porque, como disse Rui Barbosa, solapa instituições, degrada consciencias e é um caminho aberto para o crime.

Quando em uma nação ou estado, os seus indivíduos procuram no vicio do jogo um motivo para a sua degradação moral, o que existe de mais puro entre êles estará perdido, e, cêdo, desmoronará a estrutura básica da sociedade que os formou. Êste é o conceito em que é tido o cancro social, que hoje, infelizmente, chega á nossas plagas, trazidos pelos vendaveis que já açoitam outros Estados irmãos.

NO COVIL DO JOGO

Terça-feira última esteve nossa reportagem em contacto com o povo das ruas de nossa Capital, auscultando os seus sofrimentos, lendo nas suas faces os dissabores por que tem passado durante o crepitar da fogueira política, que, agora, já amortecida, deixa prevê, claramente, que as suas chamas ainda não partiram da estaca zero.

A cada passo tínhamos a impressão de que a fome e a miséria invadiram tudo e atingira a todos. Uma legião de famintos pedia esmolas ás portas dos estabelecimentos comerciais. Mendigos, por toda parte: nos bares, nas praças, na vida pública. uma onda de dessassossêgo a inquietação pareceu nos invadir a cidade.

O teresinense, outrora alegre e sobranceiro, hoje, já não sabe rir. Acostumou-se a esperar pelo dia de amanhã, do amanhã melhor que não vem ...

Descobrimos, em grupo, várias pêssoas nas proximidades da “Botica do Povo”, a entrar e sair, diversas casas suspeitas, pequenos botequins onde se vendem bebidas à farta, verdadeiras espeluncas de degradação moral, ajuntamentos constantes de meretrizes e cambistas da pior espécie.

Ali se joga, bebe-se e arranjam-se mulheres. E, parece incrível que se afirme – a dez pessoas da Praça Rio Branco no coração da cidade.

O nosso objetivo era atingir o covil do jogo. Ve-lo de perto. Sentir as sensações que ele nos oferece para podermos pintar o quadro real para os nossos leitores.

Dez ou mais cambistas alí estavam localizados. De momento a momento, as poules eram arrancadas dos talões e os centavos e os cruzeiros dos incautos caiam em seus bolsos como o maná do Céu no Sermão da Montanha. Mas, não era ali o Quartel General do jogo do bicho. Não seriam, tambem, o “Bar Carvalho” e o “Restaurante Cairú”, os pontos de reuniões dos transgressores da lei! Precisávamos chegar ao nosso destino e bem informados prosseguimos na nossa marcha e atravessamos a artéria vital do Piauí – o Rio Parnaíba, em demanda da pequenina cidade de Timon, ex-Fiores, onde os pantagruelicos insaciáveis banqueiros dirigem a maquina infernal que consome o dinheiro do povo teresinense e ordenam a miséria e a orfandade de centenas e milheres de famílias nos dois Estados.

Timon, ás 17,30 horas oferece um aspecto diferente. Habitualmente calma, a cidadezinha maranhense fronteiriça á nossa Capital toma banho no nosso velho Parnaíba, muda de roupa e de cara ...

Homens, mulheres e crianças, desconhecidas na cidade, caminham a passos rápidos. Na grande avenida que nos conduz ás proximidades da Igreja Matriz, ali, está localizado

O QUARTEL GENERAL DO JOGO

Pessoas bem informadas nos disseram que Manoel Cabeleira dirige em pessoa, a maquina infernal de fazer dinheiro a seu bel prazer.

De quarenta a cincoenta individuos trabalham na Casa Maldita, como empregados.

Três tesoureiros recolhem o suor e as lagrimas do povo de Teresina. Caixões de querozene, debaixo das gavetas do recolhimento, estão abarrotados de moedas divisionárias. 140 cambistas, aproximadamente, estão chegando para prestarem contas das suas falcatruas contra o povo, são indivíduos já conhecidos da nossa Policia Civil e fichados em nosso Gabinete de Identificação Criminal.

É uma verdadeira legião de criminosos que se aproximam para render graças aos seus patrões. Ali existem todos os jogos. Desde a roleta proibida, aos das apostas nos dados. O quadro é tétrico. As urnas se movimentam. Faltam poucos minutos para correr a sorte. A multidão se comprime e se avoluma. Um grita daqui:

- “Cr$ 0,20 na milhar 3151 e cinco cruzeiros no galo”.

Outro, acolá, blasfema. Uma mulher procura refúgio entre as casa e pergunta pelo palpite, a outro jogador:

- “Qual será, ein, ‘seu’ moço, o bicho de hoje?

- “Cavalo, na 43!”

Naquela tempestade de ilusões, entre um pavoreu sedento por encontrar a felicidade entre quatro números, o Repórter vai abrindo alas, para mais perto ver e ouvir. Ouviu e viu com seus olhos que o povo está sendo miseravelmente roubado por forasteiros desconhecidos, importados da capital maranhense. Viu e ouviu bem o que aquelas urnas representam de mal para os nossos costumes e para as nossas vidas.

Viu, finalmente, que as autoridades policiais do Piauí não estão dando ouvidos aos clamores de uma população sobressaltada, que espera em cada esquina de sua Capital a morte e a deshonra, isto, porque, o jogo na sua fúria está encaminhando milhares e milhares de individuos a cometerem desatinos, a roubar e a matar, saciando o vicio maldito.

A COMPLACÊNCIA DA POLÍCIA

Não se pode afirmar, com segurança, que a nossa desorganizada Policia Civil esteja agindo em conivência com os transgressores da lei federal, que proíbe, terminantemente, a pratica de jogos de azar, classificando, entre eles, o do bicho. Mas, pelo menos, a sua complacência criminosa, deixando que se pratique, em escala aberrante, como a que aí está, constitui um atentado passado à incapacidade repressora da nossa incipiente maquina policial.

A Delegacia de Transito e Costumes está afeta a ação punitiva dos jogos de azar. Se já tomou providências e localizou os pontos de apoio dos cambistas não sabe, talvez, ou talvez não queira saber, que até policiais, investigadores, guardas civis e comissários, são cambistas, sócios de banqueiros e vivem a receber propinas para não “aborrecerem” o Quartel General.

ATENTADO AS LEIS FEDERAIS

Isto constitui, não há dúvida, um atentado e uma desmoralização às leis federais. No Piauí, o jogo é franco. Só não jogam os que habitam o cemitério “S. José”, e, assim mesmo, quem sabe se nas caladas da noite ...

A IGREJA VAI DIRIGIR FORTE CAMPANHA

Segundo colheu a nossa reportagem em fontes dignas de crédito, a Igreja Católica de Teresina vai iniciar forte campanha contra o jogo, do púlpito, apelando para as autoridades e concitando os homens de bem de nosso Estado a cerrarem as fileiras na batalha contra o terrível cancro social.   


Autor: PERTINAX, Jornal A Resitência, 07/08/1949

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SONETOS (ALTEVIR ALENCAR)

Altevir Alencar nasceu nesta terra piauiense pelos idos de 1930 ou 1932, que esse negócio de idade só aborrece as mulheres. Andou por muitos lugares do Brasil sem que nunca esquecesse as origens. Ingressou no Exército, morou em Fortaleza. Tocou-se para o oeste, no Mato Grosso, e elegeu-se prefeito de Nioaque, município que depois se integraria no Mato Grosso do Sul, em cuja capital, Campo Grande, se fixou, depois de competentemente desfardado do verde-oliva. Quase bacharel agora. Amigo de governadores. Professor. Continua danado por rabo-de-saia, o que não quer dizer homem pecador mas virtuoso. Ano por ano visita Teresina, o seu xodó, para abraçar amigos e declamar poemas que ele sabe fazer. Oito livros de poesias já publicou, cada qual mais apurado de inspiração e técnica. Agora saiu o nono, numa cuidada edição da Academia Piauiense de Letras, sobre o qual eu escrevi uns comentários que não são ruins, e aqui reproduzo.

Altevir faz questão de dizer aos outros que foi meu aluno de português, e o professor atesta que se alegra e rejubila da circunstância, porque o discípulo nunca decepcionou o antiga lente. Estudioso, creu nas virtudes da leitura e do aperfeiçoamento da inteligência, e ei-lo bem dotado para a vida literária. A humanidade do nascimento e a pobreza financeira não lhe abateram ânimo e fé. Buscou vitórias valido da capacidade, simples, de correto companheirismo, alegre com os triunfos dos amigos e semelhantes. Sempre guardou profunda afeição aos pais, ao sítio natal e à gente do Piauí. Alma para o bem-querer e a doação aos outros. Esclareci que ele viajou os brasis por todos os pedaços do território imenso ora em farda militar, ora de roupa civil. Andou pelas selvas mato-grossenses. Fez-se líder de povos municipais. Sempre esteve fiel ao conhecimento, ao amor, à liberdade, às alegrias e aos tormentos do ser humano.

Nele convivem ainda o ator aplaudido pelos desafios e o prosador elegante, linguagem asseada, estilo de muita graça e louçania. Mas a poesia tem sido o cunho de sua vida de inteligência, uns dizem que de concepção clássica, nos limites bem fixados entre o parnasianismo e o simbolismo. Nele vejo, num momento de verdade, a noite, a sombra, pressentimento de amarguras infinitas, raios de lua, agonias de morte, frio do nada, névoas, rendas virginais, visões e lendas, vozes veladas, enfermidade e melancolias, a paisagem e o homem, a crença e a descrença, Deus e a maldade das criaturas, a vida, enfim resumida num clima estético de lirismo permanente, num ritmo musical próprio da tradição artística.

O trabalho agora editado tem o titulo de LIVRO DE SONETOS, composições em que o poeta se revela mestre aplaudido.

No fim de 1988, segundo me escreveu, voltará aos pagos natais. O filho vitorioso volta, advogado brilhante, a terrinha já desromântica, em tempo de violência.


A. Tito Filho, 23/06/1988, Jornal O Dia

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ARIMATHÉIA

Nasceu em Barras (PI), 1887, e faleceu em Teresina, 1963. Pais: Silvestre Tito Castelo Branco e Rosa Amélia de Castro Tito. Estudou no Liceu Piauiense. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife (1908). Juiz Distrital de Piripiri (PI), onde fundou colégio. Promotor e juiz de sua terra natal. Afastou-se do juizado para trabalhar em Teresina junto ao governador Miguel Rosa, época em que dirigiu o jornal "O Piauí". Em Barras, foi fundador, diretor e professor do Ateneu São José.

Transferido do juizado de Barras para Floriano, não chegou a assumir a comarca, pois logo outro decreto o removeu para Teresina. Juiz de Menores.

Fundada a Faculdade de Direito do Piauí foi escolhido como professor de Direito Civil, passando depois a catedrático. De rara dedicação ao ensino.

Pertenceu ao Tribunal Regional Eleitoral. E em 1938 passou a desempenhar o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Antes, 1935, recebeu honrosa designação do Presidente da República para Juiz Comissionado do Estado de Sitio no Piauí, cargo em que ouviu os acusados de atividades comunistas. Seu espírito retilíneo evitou que se praticassem injustiças contra inocentes.

Publicou o livro de estudos jurídicos "Justiça Nacional" e uma memória sobre Esmaragdo de Freitas com título "Um Cidadão Digno".

Pertenceu à antiga Associação Piauiense de Imprensa. Era estudioso constante do Direito e da Sociologia.

De caráter adamantino, de rara austeridade na judicatura, consciência de autêntico julgador, nunca teve, como juiz, sentença reformada por qualquer tribunal.

Jornalista e professor, duas atividades que tanto o encantavam, abraçou-se a outra, a de orador, visando à conquista de outra tribuna, da qual pudesse espargir lições, com o domínio da palavra fácil e atraente.

Cultuou o direito, a lei, a justiça, a serviço da sociedade.

Nele ainda o poeta do sentimento, do amor, da natureza dos namorados, da realidade dos amuos conjugais, da saudade, da despedida, das paixões que chegam, das emoções que tumultuam.

A seu respeito escreveram:

- Martins Vieira: "Jurista de escol, professor convicto e poeta espontâneo, era a oratória o seu campo de luta preferido, parecendo possuir o fôlego de Mirabeau, o olhar cinzento do saxão e o facies beethoveniano".

- Fontes Ibiapina: "Cultura sólida. Nas letras jurídicas, um baluarte intransponível; nas letras profanas, uma estrela da primeira magnitude".

- Fabrício de Arêa Leão: "As poesias que ele legou à posteridade são belas, escorreitas e límpidas, com acentos místicos e musicalidade envolventes".

- Edison Cunha: "Bela voz, ora calma, ora inflamada, gesticulação comedida e adequada, apresentando elegância no porte, assim é o professor na cátedra da Faculdade de Direito, o magistrado culto, doutrinando no tribunal, ao sustentar o voto com o brilho que lhe empresta a abundancia de conhecimentos jurídicos; o intelectual, o homem de letras, no discurso ou na conferência afinada aos mais rigorosos torneios da frase tersa e burilada com estesia, para delicia e encantamento dos que o ouvem".

Chamou-se José de Arimathéia Filho.


A. Tito Filho, 23/08/1988, Jornal O Dia

domingo, 23 de janeiro de 2011

COMUNISMO

A Academia Piauiense de Letras editorou COPA E COZINHA, em que mestre Cunha e Silva escreve memórias políticas e sociais de Teresina, e o faz com rara fidelidade aos fatos e aos homens que neles tomaram parte. Jornalista, historiador e estudioso de temas filosóficos, o autor também leciona, com autoridade, sobre a vida e os problemas das coletividades universais. Em determinado trecho, com franqueza, narra: "Em 1935, fui apontado graciosamente como implicado em movimento subversivo que dizia a Polícia, estava se preparando no Piauí. Meteram-no no xadrez mais infecto do Quartel de Polícia".

Era o tempo da mais extraordinária imbecilidade nacional. Getúlio Vargas necessitava de pretextos para mais períodos de poder discricionário e ilegítimo, que se implantaram em 1937. A melhor maneira de permanecer dono dos destinos do país estava em propagar o perigo comunista, e o comunista, nesses anos de ignomínia, eram tidos como inimigos de Deus e da família. Feras humanas, gostavam de comer menino novo, de tenra idade.

O professor Cunha e Silva recorda essa fase de covardias permanentes da Polícia: "Naquele tempo, como hoje, prisioneiros políticos misturavam-se com sentenciados, com criminosos de toda espécie, com facínoras os mais perigosos, com ladrões e punguistas".

Acusado de chefe da conspiração em Teresina, o ilustre jornalista e educador, nascido nas terras piauienses de Amarante, enfrentou corajosamente as acusações injustas e o processo respectivo, sem provas corretas e irrefutáveis.

Esclarece o escritor noutro local: "Logo que fui preso em Teresina, o coronel Delfino Vaz já esteve em Amarante, onde procurou o meu irmão Enoch Cícero e Silva e dele recebeu a chave de minha casa, entrando nela e retirando da estante dez livros da literatura marxista-leninista".

Anos de terror. Ao menos livros que se vendiam nas livrarias de Paris e de outros centros europeus não podiam fazer parte da cultura de ninguém.

Convivi anos a fio com Cunha e Silva no magistério e nunca ouvi dele idéias de solidariedade ao comunismo. Sempre liberal, o mestre defendia, no jornalismo e na oratória, o direito de o homem pensar conforme quisesse, sem que fosse sujeito a censura ou castigo.

Era, porém, o tempo da caça às bruxas. Em alguns pontos do país havia sido derrotado o movimento subversivo de Luís Carlos Prestes, a 27 de novembro de 1935. Prendiam-se pessoas inocentes, em conseqüência de denuncias anônimas, feitas para o exercício de vinganças mesquinhas contra adversários.

No Piauí não houve comunistas. Houve idealistas. Homens simples, pobres e humildes que pretendiam uma pátria tranqüila e feliz, em que todos obtivessem os frutos da justiça social.

Voltarei ao assunto.


A. Tito Filho, 18/09/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

INTELIGÊNCIAS

Raimundo de Areia Leão nasceu no município de Alto Longá (PI),1846. Faleceu no Rio, 1904. Médico pela Bahia. Na profissão teve enorme popularidade na capital piauiense. Simples e de extremos a bondade aos humildes. Conselheiro municipal de Teresina. Deputado provincial. Governou o Piauí interinamente no tempo do Império. Jornalista. Fez poesias satíricas, mas principalmente líricas, de feitio romântico, em que, segundo João Pinheiro, transpareceram certos rebuscamentos estéticos. Melodioso. Inspirou-se no amor da mulher e da liberdade. Possuía bela formação moral.

Fabrício de Areia Leão Carvalho nasceu e morreu em Teresina (1917-1982). Curso de mecânica. Curso de filosofia e teosofia no Rio de Janeiro. Jornalista de fama. Participou de muitos congressos jornalísticos nacionais. Trabalhou no Ministério da Agricultura e na Estrada de Ferro São Luís-Teresina. Colaborador de diversos jornais em Teresina e na capital maranhense, bem assim em revistas literárias. Redator-chefe da antiga Imprensa Oficial do Piauí. Publicou "Pequena Resenha Histórica da Agricultura", "Remembrança Sentimental", "Um Jornalista Montanhês". Cronista. Talentoso crítico literário. Conhecia profundamente os clássicos. Dominava o russo e o alemão.

Antonio Coelho Rodrigues nasceu em 1846, na fazenda Boqueirão, na época pertencente à Oeiras (PI), depois a Jaicós e Picos. Batizou-se como Antônio de Sousa Martins, mas questões íntimas de família fizeram-no adotar os sobrenomes do seu bisavô Valério Coelho Rodrigues, bandeirante paulista que se instalara no Piauí no meado do século XVIII. Bacharel em direito pela Faculdade do Recife, na qual lecionou direito romano, direito internacional, direito civil. Profundo conhecedor do latim clássico e das civilizações antigas. Pensador, jurista e filosofo. Jornalista em Teresina. Deputado-geral (federal) e senador por sua terra natal. Prefeito do antigo Distrito Federal (Rio). Comendador da Ordem de Cristo. De regresso da Europa, faleceu quando o vapor ancorava na ilha de São Vicente, em 1912, sepultando-se na Cidade Maravilhosa. Deixou vários trabalhos sobre história e direito. Autor de projeto de Código Civil recusado por Floriano Peixoto. De sua autoria a primeira lei instituindo no Brasil o casamento civil.

Antônio Borges Leal Castelo Branco nasceu no município de Campo Maior (PI). Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. Chefe de Policia do Piauí, deputado provincial, deputado-geral (federal). Presidente da província de Pernambuco. Publicou trabalhos jurídicos. Magistrado, parlamentar e jornalista. Pertence ao século XIX.

Odilo de Moura Costa nasce e faleceu em Teresina (1873-1957). Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. Magistrado no Maranhão, onde foi secretário da Fazenda, desembargador e deputado estadual. Orador de fama. Publicou vários trabalhos jurídicos. Jornalista em Teresina.


A. Tito Filho, 30/07/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CONTOS

Outro dia escrevi neste canto esquerdo, pois a esquerda está na moda, que o conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da literatura piauiense. Parece que o primeiro em ingressar nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, com o livro CONTOS A ESMO. Outros se dedicaram ao mister de escrever esse tipo de ficção, a exemplo de João da Cruz Monteiro, João Alfredo de Freitas, João Licínio de Miranda Barbosa, Arquelau de Sousa Mendes, Júlio Emilio de Paiva Rosa, Amélia Bevilaqua, Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, João Pinheiro, o fabuloso Fontes Ibiapina. Arrolei apenas os defuntos. Os vivos somam um bocado de gente boa, inteligente e laboriosa, e entre tantos está essa contista de fôlego chamada Alvina Fernandes Gameiro, que já deu ao público QUINZE CONTOS QUE O DESTINO ESCREVEU e agora, brevemente, a Academia Piauiense de Letras dela publicará CONTOS PIAUIENSES, um conjunto de estórias decorridas neste Piauí, todas de valor literário e artístico. A escritora de Oeiras, antiga capital, de homens e mulheres cultos, concebe como quem mais sabe. O fato, porém, não provoca a admiração. Tem ela para quem puxar, e puxou ao pai, um portugues de muita preocupação com as cousas do espírito e que viveu em Teresina cercado dos melhores e mais respeitáveis intelectuais da época, para o cafezinho na sala da frente do seu estabelecimento comercial e agradável prosa ilustrativa. Ainda mais, Alvina se casou com um sujeito de nome Argemiro, que andou por estes territórios do Piauí teresinando, engenheiro ilustre, professor, em missão educativa.

Quando Alvina publicou CURRAL DE SERRAS, um dos melhores livros da literatura nacional, escrevi que o ponto alto do romance se situava na linguagem dos trechos humanos sem contatos com o progresso e com as transformações do viver dos povos. Existe uma maneira especial de comunicação, de causas profundas, um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas, um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conversado inconscientemente durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distancia. Alvina fotografou essa linguagem que se mantém no caipira e no matuto.

Nos contos que dentro em poucos dias se confiarão ao exame dos doutores e da critica literária, a escritora serve-se de material de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos e reproduz os cenários como eles são, os da natureza dadivosa como os da intimidade familiar. Tudo nela, na extraordinária prosa do trabalho, parece copiado ao vivo pela acuidade de pintor genial.

As páginas de Alvina entusiasmam por virtude de um estilo educativo e do modo de reproduzir cenas que já viu com certeza nos hábitos dos irmãos das vilas e cidadezinhas dos longes piauienses.

A realidade fia mais fino do que a fantasia. Parece que assim se pronunciou Machado de Assis. Perverso no bom sentido de revelar as mulheres por dentro, não das roupas, mas da cabeça vazia, salvante as obrigatórias exceções.


A. Tito Filho, 18/07/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

GENTE

Licurgo José Henrique de Paiva nasceu em Oeiras (PI), 1844. Estudou humanidades na capital pernambucana, em cuja Faculdade de Direito deveria matricular-se. Abandonou os estudos, dedicando-se a vida literária e à boêmia (assim, BOÊMIA) descuidada e permanente. Voltou ao Piauí e teve morte prematura, pelo abuso do álcool, no município de Jerumenha, em 1887. Publicou FLORES DA NOITE (poemas). Deixou dois dramas inéditos. Exerceu também o jornalismo.

Antônio Ribeiro Gonçalves nasceu em Amarante (PI), 1877. Faleceu no Rio de Janeiro, 1928. Médico, com prêmio de viagem à Europa. Clinicou em várias cidades brasileiras. Fez estudos em hospitais de Lisboa, Paris, Viena e Berlim. Em Teresina, dirigiu a antiga Santa Casa de Misericórdia e lecionou no Liceu Piauiense. Foi deputado estadual e federal. Orador, poeta e jornalista. Publicou "Menores Delinqüentes", trabalho muito elogiado.

Pedro Alcântara de Sousa Britto nasceu em Oeiras (PI), 1882. Faleceu em Teresina, 1955. Na capital piauiense desenvolveu intensa atividade intelectual, como poeta lírico, irônico, sarcástico, panteísta. Jornalista. Polemista impulsivo. Mordaz e cético. De memória prodigiosa. Famoso repentista. Advogado. Vergastou com impiedade os políticos. Publicou "A Morte de Jesus" (poesias).

Carlos Eugênio Porto nasceu na Paraíba. Médico. Participou de diversos cursos sobre higiene, endemias rurais, vacinas, hematologia e poluição. Chefiou o Serviço Nacional de Malária do Piauí, prestando valiosos trabalhos ao Estado, na capital e no interior. No Rio de Janeiro e em Brasília desempenhou elevados cargos públicos no setor da medicina. Membro de diversas instituições nacionais e estrangeiras. Esteve presente a cerca de cinqüenta congressos no Brasil e no exterior. Publicou quase quarenta estudos científicos e manteve continua colaboração literária em jornais e revistas do país. À sua obra fundamental deu o nome de ROTEIRO DO PIAUÍ, livro que revolucionou as origens do nosso descobrimento, bem assim mostrou a fauna e a flora piauiense e revelou epidemias e suas causas principais. Carlos Porto integrou-se de corpo e alma na realidade piauiense e sobre o Piauí escreveu obra de leitura imprescindível para o conhecimento das nossas origens históricas. As páginas sobre pecuária são das melhores no assunto. Faleceu no Rio de Janeiro.


A. Tito Filho, 30/08/1988, Jornal O Dia.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

EDIÇÕES

Pedro José da Silva, o popularíssimo Pedro Silva dos velhos, nasceu em Teresina, 1892. Morreu em 1974, no Rio de Janeiro. Músico, maestro, organizador, harmonizador e regente da Banda de Música do 25º Batalhão de Caçadores da capital piauiense, deu muita vida à praça Rio Branco que antigamente nas retretas do coretinho central. Muito novo, no começo do século, criou, com Jônatas Batista, o Clube Recreio Teresinense, que levou a cena, no respeitável Teatro 4 de Setembro, as peças NATAL DE JESUS e JOVITA. Esses dois piauienses tornaram-se as duas principais figuras da vida teatral de Teatral de Teresina durante anos. Entre 1917 e 1925, essa tradicional casa de espetáculos viveu grandes e ruidosas temporadas com as revistas de Jônatas por Pedro musicadas, como O BICHO, sátira ao popular jogo criado pelo Barão de Drummond, no Rio; FRUTOS E FRUTAS, O CORONEL GALANTE, entre outros. O ativo maestro ainda fundou o PALACE, na praça Rio Branco, animada casa de diversões de muita posteriormente arrendou o Teatro de 4 de Setembro, quando trouxe a Teresina célebres companhias teatrais. Passando a residir no Rio, trabalhou em estações de rádio, época em que difundiu demais o folclore piauiense. Dedicou grande parte da velhice a descrever os tipos, as cenas, os costumes, a religiosidade, as festas de São João, o ciclo do natal, as danças típicas e os gêneros musicais do Piauí - e confiou o trabalho à Academia Piauiense de Letras e esta o entregou a Secretaria de Cultura. Em 1987, localizou-se a obra de Pedro Silva. Confiei-a à Fundação Cultura Monsenhor Chaves, na pessoa de sua ilustre presidenta, o livro foi editado com o titulo de O PIAUI NO FOLCLORE, trabalho assaz oportuno e necessário.

O conto foi pouco cultivado na literatura piauiense do passado. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco. Seguiram-se outros contistas como João da Cruz Monteiro, João Alfredo de Freitas, João Licinio de Miranda Barbosa, Arquelau Mendes, Julio Emílio de Paiva Rosa, surgiram depois Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. Perto do nosso tempo se encontra Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Fontes Ibiapina, para que se registrem somente os mortos, no meio dos quais cumpre colocar João Pinheiro, que se serviu de acontecimentos reais e retratou caracteres físicos sertanejos. Agora surgiu Alvina Gameiro, com CONTOS DO SERTÃO DO PIAUÍ, narrativas de episódios e acontecimentos. Talentosa e de superior engenho, a escritora localiza os seus panoramas no chão desta terra piauiense.

Raul Furtado Bacellar publicou PALAVRAS A AMIGOS, que reúne escritos e concepções de quarenta ou mais anos passados, num retrato social e histórico de Parnaíba no Piauí. Estilo seguro, firme, visão ampla de pessoas e acontecimentos, fiel à memória dos fatos e das personagens que os viveram. O capitulo VIAGEM A MANGABEIRA possui aspectos descritivos e narrativos de mestre. Uma excursão deliciosa e contada com superior inteligência.


A. Tito Filho, 10/09/1988, Jornal O Dia.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ALVINA DE NOVO

E conheceu um sujeito de nome Argemiro Gameiro, carioca de nascimento. Ele andava teresinando, em missão educativa. Engenheiro e arquiteto ilustre e de muitos títulos. Armazenador de abundantes lições culturais. Nascido para o amor do próximo.

Casaram-se Alvina e Argemiro. Ela encontrou o segundo exemplo para quem puxar, dentro de casa, no talento e no bom gosto do marido. Sensível, amorosa, esposa dedicada, mãe amantíssima, bondade excessiva com os outros, amiga sem defeito, paciente, meiga, sempre realizou o ideal de bem servir, ao lado do cultivo da literatura e da pintura. Na prosa e na poesia concebeu uma obra animada do toque de artista verdadeira, e a escreveu com muito bem-querer, para fixar a terra, os tipos humanos, os costumes, os hábitos, os caracteres da gente perdida nos pequenos núcleos, do mundo nordestino. Isabela, magistral tipo interiorano, se incorporará às mais notáveis figuras femininas da criação literária brasileira.

O ponto alto deste "Curral de Serras" é a fixação da linguagem desses trechos humanos sem contatos com o progresso e com as transformações dos modos de viver dos povos.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literatura, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais; existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é veiculo de entendimento geral. Adiante, a linguagem dos gestos - dos dedos, da cabeça, do piscar dos olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelecem relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e o do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas - um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas - um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado, inconscientemente, durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distancia.

Alvina fotografou essa linguagem que se mantém no caipira, no matuto - e a grande escritora oferece mais ao leitor um correto glossário, de natureza explicativa, tão integro quanto a ciência que a autora tem do material lingüístico estudado.

Raras vezes a vida literária nacional recebe obra de lavor e de encanto, a modo deste "Curral de Serras", romance ímpar, obra-prima de criatividade e documento da expressão sincera do caboclo nordestino.

A última obra de Alvina Gameiro tem o nome de "Contos Regionais Brasileiros", lançada em 1988. Profundo telurismo.

A. Tito Filho, 10/11/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

PROSA BONITA

Menino do Bandolim, de Tobias Pinheiro. Livro que revela o poema da infância e da mocidade. Bandolim é o nome do engenho de moer cana, no Brejo dos Anapurus, Maranhão, sítio de peraltices e de inspiração desse eterno enamorado das coisas simples e bonitas, que é Tobias.

Os cenários se vão transformando, página por página. Agora, São Luís, as primeiras letras, a palmatória, as visitas ao Piauí, pois o autor é piauizeiro - gente que nasce noutro lugar e se encanta pelos rios em que se banha Teresina.

E os episódios surgem, tirados de uma memória de guardar coisas ternas, espiritualmente ternas: o Natal e a Semana Santa. Personagem de encantamento: a vaca Baié. Gente de fazenda de gado sempre há de contar estórias de uma vaquinha paciente, de leite gostoso, espumante, manhã cedo. E aparece o saudoso poeta, nosso Mário Bento, guardador de pássaros e jumentos em gaiola, dono de uma poesia de humildade e plenitude.

Nada se esquece no livrinho danado de emoções: a praça Rio Branco, tão tranqüila e maledicente, o folclore piauiense, a economia do Maranhão, a viagem ao estrangeiro para ver Dacar, no Senegal, quente como diabo, mas onde pontifica um poeta divino, o presidente Senghor. E Lisboa, a do fado, da bacalhoada e do vinho generoso como o coração de sua gente.

Tobias me roubou uma madrugada de sono, mas lucrei. Lucrei lembranças, lucrei estilo, lucrei prosa que sabe a gestos de eternidade.


A. Tito Filho, 18/12/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

FIGURAS

JOSÉ BURLAMAQUI AUTO DE ABREU. Nasceu e morreu em Teresina. Bacharel em Direito. Filho do grande orador parlamentar, político, poeta, governador do Piauí Anísio de Abreu. Deputado federal muito novo representante do seu Estado. Duas vezes deputado estadual. Secretário do Governo na Administração Matias Olimpio. Tribuno, jornalista, jurista, memoralista, contista. Publicou "Terra Mater", de variados assuntos.

MATIAS OLÍMPIO DE MELO. Nasceu em Barras (PI), em 1882. Faleceu em Teresina, 1967. Bacharel em Direito. Secretário de três administrações no Piauí. Juiz federal no seu Estado e na Bahia. Duas vezes senador da República. Governador do Piauí, combateu tenazmente a Coluna Prestes. Homem de letras, jornalista, cronista, folclorista, jurista. Crítico literário e estudioso de problemas educacionais. Publicou "Diversas e Pareceres", "Despachos e Sentenças", "Falando e Escrevendo" e "Rumos e Atitudes".

LUÍS DE MORAIS CORREIA. Nasceu em Amarração, hoje município de Luís Correia, 1881. Faleceu em Fortaleza, 1934. Secretário de Polícia do Piauí. Na capital cearense exerceu elevadas funções, entre as quais secretário de Fazenda e catedrático da Faculdade de Direito. Advogado, Juiz Federal, Jornalista. Escreveu sobre sociologia, política, literatura e filosofia. Publicou, entre outros trabalhos: "O crime e a pena", "O domínio e a posse", "Teses de Direito", "A posse", "O divórcio", "A Questão Social", "O amor e o crime", "Psicologia".

JOSÉ PIRES DE LIMA REBELO. Nasceu em Barras (PI), 1885, e faleceu em Parnaíba, 1940. Iniciou carreira militar, dela sendo desligado ao tempo da revolta Lauro Sodré. Advogado. Representou o Piauí em exposição de produtos na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos. Diretor da instrução em Parnaíba, onde foi professor de filosofia, história, geografia, matemática e psicologia no Ginásio Parnaibano e na Escola Normal. Exerceu intensa atividade jornalística. Mestre e educador. Talvez tenha sido o maior advogado piauiense. Cultura quase enciclopédica. Rara inteligência. Conhecia o português. Tribuno. Esportista. Trabalhador sem fadiga. Espírito aberto a indagações, palavra fácil, estilo corrente. Publicou trabalhos técnicos, como "A cera de Carnaúba", "O comércio do Rio Parnaíba e o Porto de Amarração", "Relatório sobre a instrução no Piauí". Proferiu inúmeras conferências, sobretudo a respeito de questões operárias.


A. Tito Filho, 30/10/1988, Jornal O Dia.