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quinta-feira, 12 de julho de 2012

TERESINA ANTIGA

Nos festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós. BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda, composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos, propriedade de Pedro Tonga. A professora de música Ana Bugyja Britto mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco, dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e  a de segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS. O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar. Dia de domingo realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha. CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa, na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na Piçarra. No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS. Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada, bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro, que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o "Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas graças e atrativos.

A. Tito Filho, 04/11/1988, Jornal O Dia - p. 4

segunda-feira, 7 de maio de 2012

CIDADE SEM LEI


"Cidade sem lei" é um filme que não há muito passou no Rex. Quem assistiu ao mesmo e observa o que está se passando em Teresina no que diz respeito à ordem pública e à insegurança dos cidadãos, há de convir que a Capital piauiense é também, hoje em dia, uma cidade sem lei. Nos perímetros urbano e suburbano dão-se frequentes roubos e furtos; a jogatina mais desenfreiada campeia em todos os recantos de Teresina; legiões de mendigos - verdadeiros e falsos - invadem lares, cafés e restaurantes do centro da cidade; e até loucos, falando sozinhos e soltando pinotes, perambulam pela praça rio Branco e ruas adjacentes; das oito horas da noite em diante, a praça Rio Branco transforma-se em cabaré ao ar livre, pois na mesma se aglomeram dezenas de meretrizes; e, em pleno coração da cidade, na praça Rio Branco, quando considerável massa popular se concentrava às dez horas da manhã do dia 2, desenrolou-se a mais triste cena que se pode contemplar numa cidade civilizada, que é capital dum Estado da Federação.

José Pascoal, de espingarda em punho, acompanhado dum capanga, armado também de espingarda, dirige-se ao "Café Avenida" para atirar no negociante Antonio Couto, diretor de "A Folha", quando este estava de guarda a um cartaz do seu jornal que, na véspera, havia sido rasgado por José Pascoal.

Não entramos em detalhes sobre a questão de José Pascoal com o diretor de "A Folha".

O que nos cabe é condenar a indiferença criminosa da polícia do Sr. Rocha Furtado diante de tais fatos humilhantes e vergonhosos aos nossos foros de civilização.

O que nos cumpre dizer ao nobre povo de Teresina é que se acautele dos valentões e sicários que infestam a cidade, a sôldo do governo e de figurões da U.D.N., pois os mesmos agem com a cumplicidade da Polícia do sr. Rocha Furtado, o homem que se considera santificado em vida e vive, em Karnak, em constantes extasis infernais...

Mêses atrás, no Bar Americano, Demerval Lobão e o deputado João Carvalho agrediram covardemente o jornalista Amandino Nunes; há um mês, mais ou menos, o diretor-redator da "Resistência", jornalista Walter Miranda, recebeu inopinada e selvagem agressão de Gomez Lima, correligionário e protegido do diretor da Fazenda; e, por último, Teresina foi teatro da mais revoltante tragi-comédia, cujos protagonistas foram o José Pascoal, o seu capanga e o Couto.

A palhaçada guerreira do primeiro e o "passo de ganso" do último em direção do automovel proporcionaram agradáveis minutos de diversão a muita gente que estava na praça... Só se ouviam gargalhadas, gritos, chacotas e assobios. No momento do ataque dos bravos carabineiros, havia, na Praça, alguns policiais, que a tudo assistiram passivamente. Os agressores foram desarmados por populares.

Ambos desapareceram do local calmamente, como se nada houvesse acontecido.

Desdobrou-se, então, ali, a mais legítima cena do Far West norte-americano... Consta que a Polícia não apreendeu as armas do Pascoal e do capanga, nem tão pouco os incomodou. O Couto, ainda cansado, pálido e apreensivo, é que, uma hora depois do ocorrido, reapareceu no "Café Avenida" e la se sentado numa das bancas, a quem pediu garantias de vida, mas a resposta foi uma aspera repreensão...

E o Pascoal, horas depois, já andava na rua exibindo revolver na cinta e conduzindo um relho crú no bolso para surrar o Couto e o Mundico Santídio. Que confiança pode inspirar, portanto, ao cidadão de Teresina, sobretudo sendo adversário do governo, a Polícia do sr. rocha furtado?

Então, só a gente do governo e da U.D.N. é que tem dignidade e sensibilidade moral? Quantas ofensas e injúrias graves não teem sido atiradas contra os ilustres membros do Tribunal de Justiça do Estado, contra o Cel. Gaioso e os drs. Leônidas Melo, Pires Gaioso, Mario Batista, Claudio Pacheco, Edgar Nogueira, Santos Rocha, etc? E Eurípedes de Aguiar, João Cavalcante, Ofélio Leitão e os demais escrevedores do "O Piauí" já tiveram, por causa disto, a cabeça rachada e a costela quebrada?

Só a gente do governo, através do seu pasquim, é quem pode descompor à vontade e ofender quem quer que seja?

Logo depois da bravata do Pascoal e da fuga do Couto, o chefe de Polícia, desembargador Simplício Mendes, ao Café Avenida, completou a comédia da manhã bradando, entre arrogante e colérico, que sua autoridade não seria desrespeitada e que não admitia desordens, nem arruaças.

Ora, sr. desembargador Simplício, para que desacato maior as autoridades do que o assalto manu militari feito pelo Pascoal e o seu façanhudo capanga, na praça mais movimentada da cidade e na presença de centenas de pessoas!? Nunca houve em Teresina afronta maior à sociedade do que a praticada pelo Pascoal, no dia 2 transato. Afronta esta com a conivência ou pelo menos beneplácito da Polícia, pois os autores da tentativa de morte contra o comerciante Antonio Couto até agora nada sofreram.

No instante em que o Pascoal se afastava do "Café Avenida", o Milton Aguiar abraçou-se com ele e o acompanhou todo risonho e satisfeito. Teresina, bem como todo o Piauí, está, pois, sem governo, sem lei, em completo regime de anarquia e de falta absoluta de garantias para qualquer cidadão, principalmente para aqueles que se opõem ao governismo piauiense, cuja figura central é Rocha Furtado - lacaio mór de Eurípedes de Aguiar.


A. Tito Filho, 05/11/1949, Jornal A Resistência, página 5-6

segunda-feira, 14 de março de 2011

MENTIROSOS

As estórias fiadas dos grandes mentirosos estão incorporadas ao folclore das coletividades. Ouvi muitas dessas narrativas no interior e li-as depois em livros de estudiosos dessas interessantes e curiosas manifestações populares.

Em Teresina meu querido e inesquecível Mário José Baptista contou o episodio de um macaco que ele ensinou a pular com extraordinária perícia. Se o bicho saltava de um galho para outro e no meio se arrependia, o referido esperto animal fazia finca-pé no ar e facilmente retornava ao local de origem.

É comprida a coleção das lorotas humanas. Homens e mulheres têm imaginação fértil, sobretudo estas quando ajudam os maridos nas cabeludas mentiras.

Tornou-se vulgaríssima em Minas a conversa de Joaquim Bentinho com os dois amigos que o visitavam e aos quais ele contou que um dia, quase boquinha da noite, sentado à porta da casinha tosca daqueles perdidos do interior mineiro, viu no descampado, ao longe, um vultozinho. Coçou os olhos, reparou direito era um veado. Agarrou a espingarda, carregada só com um cartucho. Fez pontaria segura, e houve o papouco. O bicho deu salto, bateu no chão e imobilizou-se. Bentinho buscou a caça, estava morta, rasgo de bala no casco e na orelha. Os ouvintes admiraram-se: uma bala só, dois buracos? A mulher por perto não deixou que o marido mentisse:

- Tu não se alembra que o animá tava coçando a orêia?

Gustavo Barroso encontrou essa rabuda mentira entre os campônios de França e do folclore de outras gentes anotou invencionice que os nossos matutos também contam.

Lembrou-me do bom Capivara, caboclo que tomava conta de um sítio de meu pai nos arredores de Barras, neste Piauí famoso. Bebedor permanente de cachaça, calmo, tranqüilo, Capivara nunca deixou de deliciar as pessoas, na choupana modesta onde morava como caseiro, encarregado do cajual, das mangueiras e outros pés de frutas, com mentiras bem contadas.

Ouvi uma delas, certa vez, e a encontrei como estória matuta do sertão brasileiro em Gustavo Barroso.

Capivara contava-a como cousa acontecida, verdadeira, segundo dizia, como Deus no céu. Ele gostava de criar papagaios. Conseguiu onze dessas aves faladoras. Nas novenas ouvia o padre rezar a ladainha com as beatas na ajuda, vozes fanhosas. Achou que os papagaios deveriam aprender esse hino religioso e tratou logo de efetuar a ensinança. O mais velho dos papagaios cantava o verso do cântico bonito em louvor da Virgem Maria, e os dez papagaios mais novos respondiam o ORA PRO NOBIS. Uma maravilha.

Há mentirosos de todo tipo.


A. Tito Filho, 31/12/1988, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 9 de março de 2011

SOCIEDADE DOENTE

Por toda parte, li o anúncio do SHOW MISSE GAY DO PIAUÍ, no Hotel Rio Poty, dedicado à sociedade. Veadagem de luxo esteve presente. O soçaite ganhou uma das suas grandes noites de futilidade, aplaudindo o espetáculo de despudoramento. Do Rio de Janeiro veio, sob contrato, em veadão famoso, milionário muitas vezes à custa desse exibicionismo de perversões sexuais. Pobre Teresina, pobre família teresinense, pobre memória de nossos mortos sagrados, como Dom Severino Vieira de Melo, e tantas mulheres e homens decentes, afrontados na sua compostura por festas assim, em que jovens demonstravam anormalidade do sexo debaixo de palmas e aplausos, seios de silicone, calcinhas, brincos, lábios embatonados e nádegas obtidas com hormônios femininos. A platéia, frenética, deu vivas ao espetáculo. Que espetáculo!

Mestre Raimundo Portella sempre quis dotar Teresina de um hotel confortável e sobre modo decente. Saudoso amigo, homem de bem, deve ter, corado de vergonha ao ver o sultado dos seus sonhos como palco de demonstração de sexo invertido. Dessa forma o soçaite educa a infância, a adolescência e a juventude? Para ser vitorioso na vida, ter dinheiro e fama, conseguir incentivo e aplausos, há necessidade de o ser humano masculino exibir deformações sexuais verdadeiras ou falsas? Quanto se gastou nessa festa em que se divertiu a alta-roda, esbanjando-se dinheiro, para o espetáculo deprimente? Infelizes os que urram e se entusiasma com as perversões sexuais certas ou imitadas. Os veados são doentes, merecedores de tratamento e compreensão, nunca objetos de espetáculos públicos, e os imitadores por dinheiro merecem compaixão. Teresina reproduz agora os bacanais de Sodoma e Gamorra. Ainda virá o terrível castigo aos pecadores.

Crianças, adolescentes e jovens do sexo masculino devem aprender o que o soçaite lhes ensina: a vitória na vida depende das perversões sexuais falsas ou verdadeiras, homenageadas com festas, músicas, aplausos, num momento em que quase todo o povo brasileiro passa fome. A Rússia dos czares era assim, a começar da depravada imperatriz. Havana semelhava um lupanar ao ar livre. Comunizaram-se.

Crianças, adolescentes e jovens abandonem os livros. Devem repudiar as lições dos mestres. Ponham brincos, calcinhas, rebolem as nádegas e ganhem dinheiro à custa do exibicionismo.


A. Tito Filho, 26/10/1988, Jornal O Dia

domingo, 27 de fevereiro de 2011

FEMINISMO

Macho provém das alterações fonéticas sofridas pelo latim MASCULU. De macho se fez MACHISMO, qualidade ou modos de macho, o mesmo que macheza, dominação do homem sobre a mulher. Do latim FEMINA, em português fêmea, deriva FEMINISMO, que se define como a luta pela ampliação dos direitos civis e políticos do antigo sexo frágil ou equiparação, dos seus direitos aos do homem, - vitórias que elas já conseguiram, abolindo-se quaisquer diferenças entre os dois sexos, salvo o apêndice de alguns centímetros abaixo do umbigo, o gogó, uma costela a menos, circunstâncias privativas dos adões, e as regras que são prerrogativas dos rabos-de-saia. Sim, quase esqueço da pensão que o pobre desgraçado tem que desembolsar, quando o casório se desmancha.

A liberdade se faz total nos dois tipos. Ambos, moço e moça, saem sós e voltam de madrugada. Amam-se em qualquer lugar até nos motéis. Ninguém pede mais a mão da garota, que já não namora como antigamente debaixo da vigilância da tia velha ou da vovó, ou do irmãozinho chato que só deixava o casal quando o sujeito lhe dava a moeda para o sorvete na esquina.

Acabou-se a supremacia do gênero masculino. Ensinou-se durante anos seguidos que o masculino tinha supremacia sobre o feminino. Dizia-se: o brasileiro é obrigado a ter vergonha - e o brasileiro aí envolvia os dois tipos. Sarney mesmo liquidou o mandamento e reconheceu o feminino com direito ao primeiro lugar, usando sempre o vocativo BRASILEIRAS E BRASILEIROS.

Nos dias que correm o chefe do casal está representado pela mulher. Retornou-se ao matriarcado. Jamais se viu a supracitada com tanto prestígio e forma de mandar. As donas se metem em todos os assuntos, inclusive naqueles para os quais não são chamadas. Discutem besteiras colossais. Lêem mediocridades. Fumam. Consomem muito álcool, chegam a grandes pileques. Foi-se a virgindade - e raríssimas mantêm o fogo sagrado.

Se machismo era o poder do mando incontestável por parte do gajo, feminismo deve tomar outra significação, justamente a de domínio completo do varão pela mulher, machona de corpo e alma, - médica, advogada, prefeita, deputada, senadora, jornalista, policial, romancista, motorista de ônibus, assaltante, maconheira. Em nenhum tipo de emprego o elemento feminino padece qualquer modalidade de discriminação, salvo, como é obvio, com relação às incompetentes feias. Bonitonas, ninguém as recusa, não precisam de concurso ou pistolão. Diz-se que existe atitude discriminatória com a gente de cor, o que não corresponde à verdade, exceto quando a mulata não possui nenhuma competência no corpo. E as diabinhas têm armas de convencimento. Se nada alcançam com o palavreado, com o grito, com os gestos dengosos, buscam o choro e derretem os corações mais duros dos bestalhões para os caprichos supinamente desmiolados.

As costelas-de-Adão venceram a luta. Transformaram os antigos machos em tristes manicacas. Feminismo vale dominação. De qualquer maneira, a mulher sempre será divina, uma graça, e quando boazuda - Deus do céu, fica gostosa e desconcerta a cabeça da gente.


A. Tito Filho, 25/03/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TERESINA, CIDADE DA PERDIÇÃO

Esta é a primeira de uma longa série de reportagens, que iniciamos hoje, para denunciar à Nação e as autoridades da IIIª Republica Democrática do Brasil, instituída aos albores de 29 de outubro de 1945, trama sinistra de que se valem aventureiros despudorados, para sugar do aflito povo piauiense, o último centavo, e última gota de sangue de suas parcas economias, nesta hora sem precedentes na história social, economica e política do Piauí.

Campeia, livremente, nas ruas da Capital piauiense, o jogo de azar, num acinte à Nação inteira e às leis que nos governam, como que desafiando as autoridades e induzindo-nos a acreditar que, por traz dos bastidores políticos, há pressões interessadas e convivêntes na sua continuação criminosa.

Dentre os maiores cancros sociais que já nos afligem, como o da prostituição desenfreada; do alcoolismo, sem repressão; da mentalidade sem auxilio pratico e resoluto do Governo; da infancia abandonada e delinquente; o jogo se enfileira e se sobrepõe a qualquer outro, porque, como disse Rui Barbosa, solapa instituições, degrada consciencias e é um caminho aberto para o crime.

Quando em uma nação ou estado, os seus indivíduos procuram no vicio do jogo um motivo para a sua degradação moral, o que existe de mais puro entre êles estará perdido, e, cêdo, desmoronará a estrutura básica da sociedade que os formou. Êste é o conceito em que é tido o cancro social, que hoje, infelizmente, chega á nossas plagas, trazidos pelos vendaveis que já açoitam outros Estados irmãos.

NO COVIL DO JOGO

Terça-feira última esteve nossa reportagem em contacto com o povo das ruas de nossa Capital, auscultando os seus sofrimentos, lendo nas suas faces os dissabores por que tem passado durante o crepitar da fogueira política, que, agora, já amortecida, deixa prevê, claramente, que as suas chamas ainda não partiram da estaca zero.

A cada passo tínhamos a impressão de que a fome e a miséria invadiram tudo e atingira a todos. Uma legião de famintos pedia esmolas ás portas dos estabelecimentos comerciais. Mendigos, por toda parte: nos bares, nas praças, na vida pública. uma onda de dessassossêgo a inquietação pareceu nos invadir a cidade.

O teresinense, outrora alegre e sobranceiro, hoje, já não sabe rir. Acostumou-se a esperar pelo dia de amanhã, do amanhã melhor que não vem ...

Descobrimos, em grupo, várias pêssoas nas proximidades da “Botica do Povo”, a entrar e sair, diversas casas suspeitas, pequenos botequins onde se vendem bebidas à farta, verdadeiras espeluncas de degradação moral, ajuntamentos constantes de meretrizes e cambistas da pior espécie.

Ali se joga, bebe-se e arranjam-se mulheres. E, parece incrível que se afirme – a dez pessoas da Praça Rio Branco no coração da cidade.

O nosso objetivo era atingir o covil do jogo. Ve-lo de perto. Sentir as sensações que ele nos oferece para podermos pintar o quadro real para os nossos leitores.

Dez ou mais cambistas alí estavam localizados. De momento a momento, as poules eram arrancadas dos talões e os centavos e os cruzeiros dos incautos caiam em seus bolsos como o maná do Céu no Sermão da Montanha. Mas, não era ali o Quartel General do jogo do bicho. Não seriam, tambem, o “Bar Carvalho” e o “Restaurante Cairú”, os pontos de reuniões dos transgressores da lei! Precisávamos chegar ao nosso destino e bem informados prosseguimos na nossa marcha e atravessamos a artéria vital do Piauí – o Rio Parnaíba, em demanda da pequenina cidade de Timon, ex-Fiores, onde os pantagruelicos insaciáveis banqueiros dirigem a maquina infernal que consome o dinheiro do povo teresinense e ordenam a miséria e a orfandade de centenas e milheres de famílias nos dois Estados.

Timon, ás 17,30 horas oferece um aspecto diferente. Habitualmente calma, a cidadezinha maranhense fronteiriça á nossa Capital toma banho no nosso velho Parnaíba, muda de roupa e de cara ...

Homens, mulheres e crianças, desconhecidas na cidade, caminham a passos rápidos. Na grande avenida que nos conduz ás proximidades da Igreja Matriz, ali, está localizado

O QUARTEL GENERAL DO JOGO

Pessoas bem informadas nos disseram que Manoel Cabeleira dirige em pessoa, a maquina infernal de fazer dinheiro a seu bel prazer.

De quarenta a cincoenta individuos trabalham na Casa Maldita, como empregados.

Três tesoureiros recolhem o suor e as lagrimas do povo de Teresina. Caixões de querozene, debaixo das gavetas do recolhimento, estão abarrotados de moedas divisionárias. 140 cambistas, aproximadamente, estão chegando para prestarem contas das suas falcatruas contra o povo, são indivíduos já conhecidos da nossa Policia Civil e fichados em nosso Gabinete de Identificação Criminal.

É uma verdadeira legião de criminosos que se aproximam para render graças aos seus patrões. Ali existem todos os jogos. Desde a roleta proibida, aos das apostas nos dados. O quadro é tétrico. As urnas se movimentam. Faltam poucos minutos para correr a sorte. A multidão se comprime e se avoluma. Um grita daqui:

- “Cr$ 0,20 na milhar 3151 e cinco cruzeiros no galo”.

Outro, acolá, blasfema. Uma mulher procura refúgio entre as casa e pergunta pelo palpite, a outro jogador:

- “Qual será, ein, ‘seu’ moço, o bicho de hoje?

- “Cavalo, na 43!”

Naquela tempestade de ilusões, entre um pavoreu sedento por encontrar a felicidade entre quatro números, o Repórter vai abrindo alas, para mais perto ver e ouvir. Ouviu e viu com seus olhos que o povo está sendo miseravelmente roubado por forasteiros desconhecidos, importados da capital maranhense. Viu e ouviu bem o que aquelas urnas representam de mal para os nossos costumes e para as nossas vidas.

Viu, finalmente, que as autoridades policiais do Piauí não estão dando ouvidos aos clamores de uma população sobressaltada, que espera em cada esquina de sua Capital a morte e a deshonra, isto, porque, o jogo na sua fúria está encaminhando milhares e milhares de individuos a cometerem desatinos, a roubar e a matar, saciando o vicio maldito.

A COMPLACÊNCIA DA POLÍCIA

Não se pode afirmar, com segurança, que a nossa desorganizada Policia Civil esteja agindo em conivência com os transgressores da lei federal, que proíbe, terminantemente, a pratica de jogos de azar, classificando, entre eles, o do bicho. Mas, pelo menos, a sua complacência criminosa, deixando que se pratique, em escala aberrante, como a que aí está, constitui um atentado passado à incapacidade repressora da nossa incipiente maquina policial.

A Delegacia de Transito e Costumes está afeta a ação punitiva dos jogos de azar. Se já tomou providências e localizou os pontos de apoio dos cambistas não sabe, talvez, ou talvez não queira saber, que até policiais, investigadores, guardas civis e comissários, são cambistas, sócios de banqueiros e vivem a receber propinas para não “aborrecerem” o Quartel General.

ATENTADO AS LEIS FEDERAIS

Isto constitui, não há dúvida, um atentado e uma desmoralização às leis federais. No Piauí, o jogo é franco. Só não jogam os que habitam o cemitério “S. José”, e, assim mesmo, quem sabe se nas caladas da noite ...

A IGREJA VAI DIRIGIR FORTE CAMPANHA

Segundo colheu a nossa reportagem em fontes dignas de crédito, a Igreja Católica de Teresina vai iniciar forte campanha contra o jogo, do púlpito, apelando para as autoridades e concitando os homens de bem de nosso Estado a cerrarem as fileiras na batalha contra o terrível cancro social.   


Autor: PERTINAX, Jornal A Resitência, 07/08/1949

sábado, 12 de fevereiro de 2011

GRANDE TERESINA

Metropolitano significa pertencente ou relativo a metrópole. Que quer dizer METRÓPOLE? Palavra vinda do grego originariamente CIDADE MÃE. Diz-se da capital de país, de província, cidade principal, e por extensão, grande cidade ou cidade importante.

De certos anos aos dias de hoje, esses grandes centros populacionais passaram a ser considerados em dois aspectos: na sua área normal, composta do centro e dos seus bairros próximos e distantes, e na chamada ARÉA METROPOLITANA, que compreende as comunidades que têm íntima e constante comunicação com as cidades enormes, e em razão disto estas passam a denominar-se GRANDE seguida do nome de batismo de cada qual. Bueno Aires tem três milhões de habitantes, mas GRANDE BUENOS AIRES chega a mais de dez milhões. Nova Iorque possui uns nove milhões de almas. A GRANDE NOVA IORQUE atinge quase vinte milhões.

O Brasil criou também regiões metropolitanas, parece que em 1972, com o objetivo de que se conseguisse o desenvolvimento econômico e social de áreas homogêneas, justamente nos grandes centros urbanos integrados por um ou vários municípios de problemas idênticos. Parece que pouco se conseguiu até agora. A primeira região metropolitana foi a de São Paulo, abrangendo trinta e sete municípios da GRANDE SÃO PAULO. Depois se criaram outras, como a Grande Belém, a Grande Fortaleza (Aquiraz, Caucaia, Maranguape, Pacatuba), Grande Recife (Jaboatão, Olinda e outros), Grande Salvador, Grande Belo Horizonte, Grande Rio de Janeiro (Duque de Caxias, Maricá, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Petrópolis e outros).

Nos programas de rádio a gente ouve constantemente que o sujeito recebeu pancadas na praça Pedro II da GRANDE TERESINA. Mas a qualificação não se mostra convincente. Teresina pertence à GRANDE TERESINA em lei, mas não representa a GRANDE TERESINA.

Teresina se distribui em bairros, como a Vermelha, a Piçarra, o Saci, o Porenquanto, o Poti Velho, o Jóquei Clube, o São Cristóvão e quantos mais. Tudo isto constitui Teresina. A GRANDE TERESINA compreende Timon, Demerval Lobão, Monsenhor Gil, Altos, União, José de Freitas, cidadezinhas que correspondem a verdadeiros subúrbios da cidade grande. Se a humanidade chegar ao fim do terceiro milênio, talvez todas essas comunidades interioranas das proximidades do município-capital sejam uma cidade só.

Quando o sujeito assalta o próximo na praça Rio Branco, o assalto se verificou em Teresina. Se o individuo mata em Timon, o que é comum, então o crime se deu em Timon e ao mesmo tempo na GRANDE TERESINA.

A cooperação hoje dou de graça a meus distintos colegas locutores e fazedores de programa de rádio. Cooperação de bom sentido, limpa e correta.


A. Tito Filho, 29/07/1988, Jornal O Dia

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

LINGUAGEM

A linguagem humana tem sido objeto de acurados estudos, na sua origem, como nos diversos aspectos que ela assume e que se originam de causas diversas. O calão do submundo social, o capiau dos homens dos pequenos núcleos populacionais, a gíria criada pela sabedoria popular, a linguagem emotiva, as linguagens particulares dos grupos profissionais - eis alguns tipos vigorantes em todas as coletividades, cada um deles com características curiosas.

A falsa audição torna-se responsável por deturpações constantes no processo comunicativo de idéias e noticias. A pessoa, pouco familiarizada quanto ao vocabulário de sua língua, arremeda como pensa o que ouviu de alheia boca.

Existe um cântico católico de expressiva beleza, entoado nas igrejas, e um dos seus versos foi assim concebido: "Levantai, soldados de Cristo, o pendão de Jesus redentor". Pois bem. A velhinha de raras letras, desconhecida de palavras de cunho literário, a exemplo de PENDÃO e REDENTOR, repete como determina a inteligência que ela tem dos fatos: "Levantai, soldados de Cristo, o CORDÃO de Jesus REBENTÔ".

A Nossa heroína, ouvindo mal palavras de cunho literário, relaciona equivocamente as impressões sugeridas pelos versos, e, compadecida de Cristo, porque se lhe partiu o amarramento das calças pretende que estas sejam sungadas pelos militares.

A novela MANDALA, contraditória e rica de episódios irracionais, apresenta, porém, ponto alto na figura do bicheiro Carrado, meio ignorante, que rouba dos outros artistas, homens e mulheres, o papel principal. O homem reproduz mal o vocabulário que ouve e dele saem CORREÇÃO PLANETÁRIA, PSICANALISTA e outras mancadas. Certamente na observação do drama angustioso das enchentes do Rio de Janeiro, o que lhe aumentou a confusão, Carrado provoca risos quando solta o seu notável DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A AMBULÂNCIA.

No soçaite ocorrem constantes mancadas de respeitáveis e elegantes dondocas de pouca ilustração. Lá um dia estacionei meu chevrolata para gasolina no posto das proximidades da igreja São Benedito. Na área maior, por trás das bombas de combustíveis, desceu de carrão supimpa espetacular rabo-de-saia, bem vestida, cara bonita, torneada a contento, mulher de algum marajá, ou ela mesma ricaça proprietária de butique ou secretária de marajá, uma MARANI de sete costados. Num linguajar de sotaque tipo clube de chá, disse ao morenão atentador da freguesia:

- Moço, me EQUILIBRE AQUI OS PNEUS.

E o caboclo, muito ancho, com um jeito safado de dar lição a quem não pede:

- Senhora QUER É CALIBRÁ, não é, madame?


A. Tito Filho, 23/03/1988, Jornal O Dia 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

EMPREGO

Ninguém recusa a evidência da inchação populacional. Vigora o crescei e multiplicai bíblico. Raras as coletividades no mundo que adotaram o planejamento familiar, como se faz em algumas da Europa, sobretudo nos países nórdicos. No Brasil, quanto mais pobre o casal, mais menino. Mulher rica usa pílula anticoncepcional. Garota de segunda ou terceira classe cria bucho. As cidades grandes, plenas de convocações para a vida supérflua e dissipadora, de empregos enganosos, se transformaram em megalópoles faveladas, nas quais os pobres tropeçam em mil dificuldades, para que possam comer e vestir. Enfim, vegetar, ao menos. A indústria arrancou a mulher do lar. As fábricas produzem todas as utilidades, o leite, a salsicha, o doce, a massa de tomate, a feijoada, o tempero, o pão, por preços triplicados. A chamada alta costura, de empresários inteligentes, costureiros que gastam fortunas em publicidade, faz que as fêmeas enlouqueçam. Criaram-se os clubes sociais e de uísque, sob a capa de caridade cristã, para desfile de vestidos caríssimos, comprados a peso de ouro, nas butiques que enriqueceram as proprietárias. Gastando a rodo, a mulher do soçaite precisa de muito cobre, finanças fortes, a fim de que acompanhe a moda e sustente o HOBBY alegre dos comes e bebes e recepções festivas.

A classe média, sem renda, as cousas da barriga e os panos nos queimas das lojas vendedoras custando os olhos da cara. O chefe de família apenas remediado, dinheiro contado para os pirões de cada dia, não pode sustentar os desejos de três ou quatros mocinhas que reclamam dos pais sandálias, desodorante, xampu e tecidos de cetim, fora JEANS e US-TOP, que elas vêem noite após noite nos anúncios de televisão.

Faminto também é gente. A classe do salário mínimo igualmente fabrica mocinhas e estas necessitam de cobrir as excelências.

A solução está no emprego. Já não existem garotas como antigamente, um vestidinho por mês, perfume de brilhantina Flor do Amor e Tentação.

Criem-se empregos. Na alta-roda existe a Marani, como se chama a mulher do Marajá. Na classe média, o burro de carga tem no lar rabos-de-saia desocupadas e os dinheiros que ganha do governo mal chegam para os pirões do almoço. Naturalmente que as meninas querem emprego. Na classe dita assalariada, a falta de dinheiro dos cofres públicos para as despesas das moças bem desenvolvidas de anseios provoca mais problemas sociais. Elas querem pouco, somente um contratinho de zeladora.

O jeito está no emprego. Cem mil funcionárias, duzentas mil, a metade de licença, muitas dispensadas de serviço, algumas em Tóquio, Rio de Janeiro, na Holanda, e no batente as que sabem trabalhar.

Haja emprego. Se acaso eu pudesse, se papai do céu me desse, eu vivia cercado de funcionárias por todos os lados, com uma ilha de felicidade.


A. Tito Filho, 21/03/1988, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

TOMBAÇÃO - III

Tombar significa cair, derrubar, mas também preservar o patrimônio artístico, enfim cultural das coletividades. Teresina tem sido destruída, perversamente, por motivos ambiciosos, ofendida na riqueza dos seus bens espirituais, dia por dia, em nome da ganância por dinheiro para a luxenta vida sem sentido, ou dos programas de governo apoiados sobre obras de fachada. Leônidas Melo sacrificou o antigo e bonito FÓRUM. Helvídio Nunes, para construir um vistoso conjunto administrativo desplanejado e torto, desalinhando a rua Rui Barbosa, arrasou a edificação de estilo neoclássico de ordem dórica denticular, feita em 1919, em que funcionaram a Fazenda, a Polícia, as Obras Públicas, a Faculdade de Direito, o Centro Telefônico. Sem dinheiro para concluir a aleijada programação, vendeu o arcabouço ao governo federal, que o aproveitou e terminou as obras para alojamento de órgãos fazendários.

E o SOBRADO DOS AZULEJOS AMARELOS, na rua Bela (Teodoro Pacheco), esquina da rua Boa Vista (Rui Barbosa)? Mandou construí-lo o fazendeiro José Félix Alves Pacheco, que não se trata do poeta simbolista do mesmo nome. Para os serviços veio mestre-de-obras de São Luís, que assentou os azulejos portugueses. Demoliram-no em 1969. No lugar se fez o espigão chamado Palácio do Comércio, destinado quase a aluguel de salas.

Se Alberto Silva levantou o ALBERTÃO, está de futebol sem platéia, o seu figadal inimigo Dirceu Arcoverde devia efetuar cousa igualmente monumental, e botou abaixo a velha penitenciária, um dos marcos do começo de Teresina, e levantou o Verdão determinando o fechamento de vias públicas com que mais uma vez se aleijava a cidade.

Desapareceu a casa de Antonino Freire. Os calçadões liquidaram a praça Rio Branco, recanto agradável de tradição.

João Mendes Olímpio de Melo, prefeito, deformou o Teatro 4 de Setembro no primeiro centenário de Teresina. A querida casa de espetáculos tinha de cada lado área ampla arborizada, de inconfundível beleza. Anularam-na e no lugar surgiu casa de bebidas e comidas arrendado a cidadão argentino que explorou quanto mais o ramo e nele enriqueceu. A estalagem passou a boteco de segunda classe com o correr dos anos. A imponente area plantada do outro lado foi cedida pelo prefeito Agenor Almeida a comerciantes que no local mandaram construir certa espelunca de dois andares. No térreo instalou-se venda de pastéis e bolos, na parte superior funcionava jogatina permanente.

O patrimônio cultural de Teresina, a sua dignidade, os seus valores tradicionais, o exemplo dos seus filhos humildes, os que, com trabalho e sacrifício, a construíram - esse patrimônio tem sido maltratado, insultado, descaracterizado, sob protestos de poucos, de alguns corajosos amigos deste xodó, deste bem-querer que José Antonio Saraiva confiou aos homens, na imensa fé de que a sua criatura maravilhosa haveria de ser respeitada, mas a verdade está em que Teresina sofre exploração de ambiciosos de dinheiro, ou a deformam administradores de mau senso.

Só a tombação resolve o problema. O Estado e o Município têm o dever de resguardar a memória do que no passado foram dignos de suas responsabilidades.


A. Tito Filho, 22/08/1988, Jornal O Dia

domingo, 30 de janeiro de 2011

DOENÇA

Anízio Cavalcante, inteligência aprimorada, muito educa os desavisados nesta crônica que me manda de Niterói. Tenho as mesmas idéias que ele. Leiam as palavras que escreveu esse piauiense ilustre sob o título O HOMEM DOENTE DE PÓS-GUERRA. A doença do mundo está na desagregação moral da sociedade. Leiamos Anízio:

"A imprensa do sul do país anunciou em maio de 1985 que, na França e na Inglaterra, estavam sendo realizados dois congressos de psiquiatria para uma conceituação e diagnose clínica definitiva da neurose, da ansiedade e da angústia. [Jornal do Brasil, 5.maio.1985]

A profunda aceleração do ritmo da vida humana, depois da segunda grande guerra, terminada em 1945; a derrocada dos valores morais, que não foram substituídos por valores melhores; a descristianização das massas e, consequentemente, o seu embrutecimento e animalização; a conduta do individuo, já frequentemente bestial; os vícios, o consumo de drogas estupefacientes; em síntese, a desagregação física, psíquica, moral – graus supremos da desmoralização - transformaram o homem deste final de século vinte: despojam-no da estrutura psíquica normal, e, já agora, é atormentado pela instabilidade econômica do país, iniciada no ano de 1930.

A inquietação, a ansiedade, a angústia, que neles se instalaram, se manifestam com freqüência através de sintomas vazios: falta de concentração mental, sensação de irrealidade, medo de enlouquecer, temor de catástrofes, medo de assaltos, medo de tráfego, palpitações, perturbações gastrintestinais, insônia, roer de unhas, suores frios, pressão sanguínea alta, taquicardia, desemprego, medo de inflação, profissão não-amada, sensação de perda de status dos aposentados (chefias, comissões, diretorias, presidências, honrarias).

Como síntese de todas essas constatações psicológicas, podemos dizer: homem desgastado pelas estruturas sociais, que desmoronaram; pela rápida e incessante sucessão de fatos, que o ameaçam; perda grave do sentimento religioso, com a sensação de ser órfão adulto; tomado de desorientação, de instabilidade, insegurança; psiquicamente desagregado, eis o homem que não terá o prazer de comemorar, no ano de 1989, o segundo centenário da Revolução Francesa (1789), origem das repúblicas.

Os jornais destes dias atuais anunciam o aumento significativo de moléstias mentais e nervosas.

O leitor desta crônica é convidado a meditar sobre o que nela se descreve"


A. Tito Filho, 20/07/1988, Jornal O Dia

sábado, 29 de janeiro de 2011

APOTEOSE

Aconteceu a 10 de dezembro de 1988, dia de sábado. Era noite e se daria, como se deu, o casamento do ano. Uma apoteose. Dos cinco mil convidados, compareceram dois mil, mas pode atestar-se que as comedorias e bebedorias se prepararam para os presentes e para os ausentes. Uma festa de papouco, como os meus avós batizavam essas experiências, no seu tempo. A imensidão se passou nos arredores do Recife, numa propriedade de sete mil metros quadrados. Verificava-se um casamento em família de milionários cujos dinheiros são inesgotáveis. A noiva esteve metida em traje de princesa medieval, de sete milhões de cruzados, com um rabo de dez metros de comprimento, segurado por umas trinta ou mais seguradoras de rabo de noiva em casório de luxúria. Na cabeça dela puseram uma tiara de prata e pérolas. Sim, uma tiara, da forma que registrou jornal do Rio de Janeiro. Como tiara é cousa de papa, a futura esposa parecia uma papisa. Doze damas de honra acompanhavam a marcha nupcial, cada qual mais rica de enfeitações. As mucamas usavam roupas bordadas em estilo francês e se encarregavam do atendimento dos convivas indicando-lhes os locais de efetuar o pipi, as salas de arrotar, os caramanchões de descanso e os reservados para as dondocas rebocarem as caras. A sala da cerimônia estava iluminada de cento e vinte refletores. Depois das benzedouras do pastor evangélico, houve os comes e bebes comemorativos. A comida foi transportada em três microônibus, várias kombis e alguns automóveis. Viam-se cinco bolões de noiva, de vários pavimentos cada um. Já me ia esquecendo: o salaozão da festança era ornamentado de castiçais de ferro, feitos especialmente para o regabofe, e mais quatro candelabros que custaram oito milhões. Cento e cinqüenta garçons carregavam bandejas de bebidas e comidas. Contrataram-se os melhores fogueteiros de Pernambuco para o espetáculo dos fogos de artifício, e com estes e os tocadores de foguete os gastos subiram a dois milhões. Duzentos soldados da polícia e um pelotão de bombeiros e carros respectivos, pagos pelos brasileiros de categoria inferior, montaram a segurança do tubaronato nacional.

E nos arredores de Recife também meninos famintos se alimentavam de restos de comida apanhados nas latas de lixo. Mundo cão.


A. Tito Filho, 20/12/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

EMPACOTAMENTO

Nas festas fraternas dos 29 anos do Sindicato dos Jornalistas do Piauí, mês passado, houve um momento em que poucos meditaram. Não meditei sobre um assunto de incontestável seriedade porque mais de uma vez havia denunciado a perversidade desse empacotamento cultural do Brasil, que Armando Rollemberg, corajoso e claro, denunciou no instante de sua fala aos jornalistas piauienses - o empacotamento com que a Televisão UNIFORMIZA hábitos e costumes regionais brasileiros. Pouco a pouco desaparecem os agradáveis piqueniques de familiares e amigos, pobres e ricos, substituídos pelos americanizados coquetéis residenciais ou nos clubes, nos quais só a soçaite destes atormentados anos se delicia nos salgadinhos sem gosto, enfeitados de rodelinhas de azeitonas e salsicha, o tira-gosto da moda após cada taleigada (taleigada mesmo) de uísque gelado. Institui-se a civilização do enlatado. As danças típicas sumiram-se. Só se dança nos dias que correm, cada homem e cada mulher, separadamente, ou homem com homem e mulher com mulher, pinotando ou careteando que nem macaco, na barulheira e histerismo do roquenrol. Não se bebem mais cajuínas, sim coca-cola, expressão do progresso das coletividades patrícias. A panelada de bucho e tripa e a mão-de-vaca, comidas de sustança na confecção de machos verdadeiros, cederam lugar aos perfumados estrogonofes. O cinema tem fundamento na violência. Criança não ouve mais as encantadoras estórias das vovós bondosas. Educam-se nos xôs das xuxas. O texto é um só, no Brasil: bumbuns de fora, pornografias no ar. A linguagem de gatos e gatas e até de mestres qualificados vigora, deformada, no iê-iê da nação toda. TU  e VOCÊ são pronomes idênticos. A novela orienta a juventude, a maturidade, a velharia para o desrespeito recíproco. Pais e filhos se xingam. O bicheiro tem "status" - e aos estudantes serve de exemplo a uma carreira de conforto e de conquistas amorosas fáceis. Dinheiro a rodo lucram os profissionais da esperteza. Muitos homens de variado tipo usam brincos nas orelhas e difundem a usança pela tevê.

A televisão brasileira, de propriedade dos espertos, dos tubarões de publicidade, praticam verdadeiro crime espiritual. UNIFORMIZANDO o Brasil. Música, cantoria, cozinha, vestuário, usos, hábitos, costumes, estórias, sexo, brinquedos infantis, livro, teatro, cinema, perfume, linguajar, lendas, modos de mentir, diversões - tudo, mais alguns anos, estará bitolado. Educação para comprar, para gastar dinheiro na aquisição de quanta impostura a indústria fabrique. Afeto um só: presente para a mãe, para o namorado, para o pai, para cada classe do dia que a inteligência dos negociantes aponta. As cousas e práticas regionais desaparecem a cada instante. Não se mostra arte, nem se educam as coletividades, senão num ou programa que as platéias recusam. A deformação é geral. O Brasil ingressou no caminho da civilização empacotada.


A. Tito Filho, 19/05/1988, Jornal O Dia

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TOMBAÇÃO - I

Marcelino e Ada Rego, meus avós, tiveram mais de vinte filhos. Viviam no Peixe, hoje município de Nossa Senhora dos Remédios. No povoado morava, dona Beatriz Rodrigues, viúva sem descendentes, já idosa, e esta boa senhora quis criar um dos rebentos do casal, Nise, e recebeu a garota, cercou-a de conforto e de afeição. Moça feita, casou-se com José de Arimathéa Tito, juiz de direito da comarca de Barras com jurisdição em algumas vilas do interior. Nasci do casal. Minha mãe morreu do segundo parto, uma menina, que, quinze dias depois, fechava os olhinhos ao mundo. Meu pai casou de novo. Antes, deu-me de presente a dona Beatriz, a quem se chamava Beata. Uns três anos depois, resolveu ele tomar o filho da veneranda mulher, pois não veio rebento do segundo matrimonio. Carregou-me de manhã num ford-de-bigode, e de noite chegava a Barras a noticia de que Beata havia morrido, certamente do coração. A boa velha deixou-me rico. Fazenda de gado no Peixe, fazenda de gado e vazante em Marruás, sítios em Esperantina e Barras e bens outros de que não me recordo.

Transferido para Teresina meu pai, com a família, habitava casa alugada, mas acalentava o sonho de construir confortável residência. Vendeu as propriedades de minha mãe, que eram minhas, e construiu a espaçosa casa da rua Eliseu Martins, recebendo-a dos empreiteiros em setembro de 1933. Com a morte de Arimathéa a casa passou a viúva, cabendo-me outra por compensação. Nela meu pai trabalhava, descansava, e todos nós o admirávamos na sua alegria e no seu entusiasmo pela vida. Trinta anos depois, dela saia o bom do velho morto para a morada derradeira.

Minha madrasta morreu doze anos depois do marido. Os bens que ela possuía passaram a familiares seus. A mim não coube uma simples xícara de servir café. Nada quis nem me convinha reclamar. Os herdeiros venderam o imóvel.

Hoje me proibi de andar pelas imediações dessa casa de esquina, ampla e de relativo conforto. Dói-me o espírito vê-la como está dividida em vários compartimentos comerciais. A sala onde meu pai lia e escrevia brilhantes sentenças jurídicas agora expõe calcinhas intimas, sutiãs e mais que seja. Tudo se repartiu em lojas de variado tipo. A chamada sala de visitas, em cujas cadeiras se sentou gente importante, como José Américo, está desfigurada, serve de venda de tintas. As mangueiras frondosas desapareceram.

Fico a pensar na ambição dos homens. O dinheiro torna vil quem o ambiciona e o tem como deus. Pois aí está a que ponto relegaram a memória de Arimathéa Tito, meu pai, um dos mais admiráveis juízes do Piauí, reto, caráter sem nódoa, homem de bem, pobre, humilde, mas dedicado servidor de sua terra, havendo ocupado vaga do Tribunal de Justiça e lecionado na velha Faculdade de Direito.

A casa a que ele dedicou cuidados constantes, melhorando-a sempre que podia - e que tem muito da sua vida ilustre, tornou-se um balcão de dinheiro, com que se azinhavra a memória dos homens e das belezas de Teresina.

A tombação ou o tombamento é o remédio.


A. Tito Filho, 19/08/1988, Jornal O Dia

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social de intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.

Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da contestação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.

Resta ainda, como vigilante do encantamento de outrora o antigo funcionário Marcelino Rocha, o popular Marcelino, com o seu bom comércio de comes e bebes, certamente de coração em lágrimas simbólicas pela morte do bem-querer de todos nós.

A desapropriação pelo governador Alberto Silva vingou o velho Clube das humilhações que tem sofrido, sempre clamando por uma justiça demorada.


A. Tito Filho, 19/06/1988, Jornal O Dia

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NAMORADOS

No meu tempo não havia estas datas comemorativas, os dias disto e daquilo: dia das mães, do papai, do vovô, da vovó, da criança. Cada ramo profissional tem o seu: dia da aeromoça, dia do comerciante, dia do comerciário, da meretriz, do funcionário público, do motorista. A indústria e o comércio deveriam criar outros, como o dia do netinho, da titia, do coveiro. Que tal uma data que lembre as COROAS, mulheres que deram o tiro na macaca e que são as mais apetitosas rabos-de-saia da paróquia? Por extensão, também se assinalava a data homenageadora das BONECAS, outra das DONDOCAS. O dia-guei e o dia-sapatão. Nestes dois últimos as vendas seriam espetaculares.

A 12 de junho festejou-se o dia dos namorados, o que não acontecia alguns anos atrás. Também já não se namorava como antigamente, o casalzinho de mãos dadas apenas para que o público visse tanta inocência nas praças animadas das retretas musicais, ou no uso de certas bolinações na penumbra dos cinemas.

Nos tempos atuais as farmácias estiveram repletas de moços e moças na compra do melhor presente para os receios de cada qual: as camisinhas. Módicas de preço e de resultados mais ou menos seguros nos motéis que já estão cobrando por minuto de ocupação das camas redondas e filmes de ensinança pornográfica.

Minha primeira namorada foi uma matutinha muito alva, filha de latifundiário do antigo Marruás, hoje Porto. A menina com os pais comparecia nos festejos de Nossa Senhora dos Remédios. A gente dançava mal nos bailes de primeira que iam das dez da noite às duas da madrugada. Amor platônico, que a gente não sabia ainda das sem-vergonhices da vida.

Já taludo, consegui em Teresina namorar um morenão cheio de carnes, cabelos negros, bonita como quê, e ao lado dela, assistindo a filme de amor, aprendi a arte sublime da bolinação, como se dizia o pegamento nas saliências do colo bem feito. A garota também sabia adotar as suas liberdades provocativas.

E segui o meu destino de namorador constante, e vivi momentos inesquecíveis e deliciosos. Foram tantos. Mas a gente ficava nessas primícias encantadoras dos primeiros contactos. Avançava-se um pouco, e mais não se fazia nem se tentava, salvo se quisesse descontar o vale e sujeitar-se ao casório infalível.

Hoje se namora de modo diferente. Extinguiram-se as virgens, feitas as exceções ilustres e de praxe. Os namorados buscam as tardes e as noites nos motéis, ou nos relvados das praças esquecidas, ainda nas areias das coroas dos rios, no tempo de estio, também debaixo dos pés de pau. E nos automóveis todo tempo, em posições dramáticas.


A. Tito Filho, 18/06/1988, Jornal O Dia

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CEIÇA

Estava eu como delegado de Polícia de Teresina, tempos passados, solteirão, quando, uma manhã recebi em audiência uma senhora viúva, quase preta, acompanhada da filha, caboclinha bem feita, convidativa. A mãe queixou-se do Bitonho, que havia deflorado a garota de dezesseis anos e não queria pagar o serviço, casando. Dois dias depois, o médico Hugo Bastos fazia o exame, presentes a autoridade policial, o escrivão e duas testemunhas. A garota ficou nuinha em pelo, deitou-se na cama especial. O doutor mais tarde escreveu o laudo de defloramento já cicatrizado. Conduzi a vítima a meu gabinete. Mandei-a sentar-se e guardar. Interroguei-a pelo meio-dia. Morava ela na estrada da Catarina. Tomei-me de intenções safadas. Liberei-a e disse-lhe que de noite iria à sua casa dar o resultado a mãe, e com esta conversei pelas vinte horas, no casebre miserável, isolado, dos arredores de Teresina. Notei que a mulher tinha interesse no delegado e, dentro em pouco, no único quartozinho ordinário da choupana, eu me deitava no jirau-cama com a graciosa Conceição, a ceiça. Bons e felizes momentos. Na despedida, a mãe me pediu que conseguisse casar a filha, pois, segundo lhe parecia, a menina engravidara. Meditei que o negócio o negócio poderia virar-se contra mim. Voltei umas três vezes ao local dos amores escondidos. E adotei providencias. Convoquei o Bitonho à delegacia, disse-lhe que a garota estava de criança na barriga e aconselhei-lhe o casamento. Melhor do que envolver-se em processo criminal, com o juiz Pedro Conde sempre a lamber os beiços para condenar sedutores. Bitonho aceitou a ponderação. Casamento no juiz Milcíades Lopes, de beca no corpo e código nos recitativos. O marido de Ceiça mostrou-se responsável. Tipo morenão, trabalhador, não arrepiava serviço. Tratava Ceiça de modo carinhoso. A sogra, mais algum tempo, morreu. Começou a chegar rebento no lar do casal. O primeiro, Pedro, me teve como padrinho. Batizado simples, na igreja de são Benedito. Os dias se escoavam e Ceiça paria ano por ano. Botou quinze entre meninos e meninas neste mundão. Bitonho suava em serviços diversos, mas sempre tinha bóia de todos e os panos das roupas de homens e mulheres.

Quando secretário da Educação empreguei minha comadre Ceiça. Dei-lhe cargo de merendeira e direito a assistência e previdência. Não me lembro a data em que Bitonho morreu num desastre em viagem para Caxias. Uma pena. Ceiça e os filhos enfrentaram a vida. Neste 1988, rapazes e moças do casal, todos casados, consideram-se felizes. Espalharam-se pelo Brasil e pelo interior do Piauí. Dedicam grande afeição à mãe e a ajudam dos longes das moradias. Mão heroína.

Os jornais desta capital publicaram páginas inteiras com as mães ricas retratadas bem vestidas, elegantes, do soçaite. Um retratinho sequer puseram das mães mortas. Também não vi heroínas como a comadre Ceiça, mãe pobre. Fui visitá-la no seu dia. Abracei-a. E ela me disse ao pé do ouvido:

- Comprade, continuo desconfiada. Meu primeiro moleque, o Pedrinho, tem mais pra branco do que pra negro. Aquele menino é seu, compadre...

De mim, tenho certeza de que foi o Bitonho o plantador da semente.


A. Tito Filho, 17/05/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ROUPA

Deu-se um alvoroço neste último dia internacional da mulher. As fêmeas nacionais comemoraram o acontecimento. Julgam-se ainda injustiçadas. Querem que a constituinte lhes dê setenta por cento de pensão do pobre diabo do ex-marido lascado em banda. E mais: a nova constituição deve assentar que elas passem definitivamente ao BOTTOMLESS.

Sim, ao BOTTOMLESS, divinamente peladas, maravilhosas, para que economizem e deixem de pedir aumento de salários e vencimentos.

Muitos anos atrás as donas usavam vestido no mocotó, também dito osso gostoso, que ia até ao gogó. Por baixo desses cinco metros de fazenda botavam calça tipo samba-canção, abotoada dos dois lados, e por cima desse sungão bem fofo havia três anáguas, uma combinação e um corpete. Algumas usavam chapéu e luvas. Sinceramente, dificílimo que aparecessem as mãos e somente se viam pedaços do rosto. Uma vitória retumbante do machismo, que não permitia olhares profanos nas carnes de suas deusas.

Grande conquista esteve no fato de chegar o vestido ao meio da canela, pescoço de fora, manga meia quarta. Nos anos 20 Gabrielle Chanel modernizou certos aspectos da situação. Na década de 30, voltou-se um bocado à austeridade. Ombros almofadados. As filhinhas de Eva se masculinizaram.

Ainda perto de 1940, as meninas de Teresina eram acompanhadas, na rua, de dois ou três gajos sensuais, quando a calça samba-canção, primeira cobertura dos possuídos, marcava o vestido, atravessando as defesas naturais das anáguas e combinações. Para onde a garota ia, os macachás seguiam atrás, olhos cúpidos e boca aberta.

Durante a guerra de Hitler os vestidos se tornaram funcionais. De 1940 em diante, houve a revolução de Dior, que queria voltar a padrões antigos. Pernas escondidas. Feminilidade. Próximo dos anos 60 apareceu a moda unissex. E de 60 em diante, a estilista Mary Quant revolucionou a moda com a minissaia, que mostrava a perna toda. Chegou-se à era dos exploradores da moda. E a moda enlouquece as fêmeas. Calças boca-larga, cigarrettes, t-shirts, camisetas punk, santo Deus. Quantos processos novos se criam para que as mulheres gastem dinheiro a rodo. Cada dia mais explorada se vê a vaidade feminina.

Um dia o mulherio do mundo todo aderirá ao melhor dos espetáculos - abolição completa dos vestidos - e tudo voltará a fase de Adão e Eva, que só depois do pecado original cobriram as suas respectivas vergonhas. O nu já ganhou as praias e os carnavais por parte do elemento feminino. Falta apenas que elas, ditadoras hoje, decretem o peladismo generalizado. E podem. Pelo menos só gastarão com as despesas de plástica e com o arsenal de reboco do corpo e sobretudo das faces.


A. Tito Filho, 16/04/1988, Jornal O Dia