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segunda-feira, 7 de maio de 2012

CIDADE SEM LEI


"Cidade sem lei" é um filme que não há muito passou no Rex. Quem assistiu ao mesmo e observa o que está se passando em Teresina no que diz respeito à ordem pública e à insegurança dos cidadãos, há de convir que a Capital piauiense é também, hoje em dia, uma cidade sem lei. Nos perímetros urbano e suburbano dão-se frequentes roubos e furtos; a jogatina mais desenfreiada campeia em todos os recantos de Teresina; legiões de mendigos - verdadeiros e falsos - invadem lares, cafés e restaurantes do centro da cidade; e até loucos, falando sozinhos e soltando pinotes, perambulam pela praça rio Branco e ruas adjacentes; das oito horas da noite em diante, a praça Rio Branco transforma-se em cabaré ao ar livre, pois na mesma se aglomeram dezenas de meretrizes; e, em pleno coração da cidade, na praça Rio Branco, quando considerável massa popular se concentrava às dez horas da manhã do dia 2, desenrolou-se a mais triste cena que se pode contemplar numa cidade civilizada, que é capital dum Estado da Federação.

José Pascoal, de espingarda em punho, acompanhado dum capanga, armado também de espingarda, dirige-se ao "Café Avenida" para atirar no negociante Antonio Couto, diretor de "A Folha", quando este estava de guarda a um cartaz do seu jornal que, na véspera, havia sido rasgado por José Pascoal.

Não entramos em detalhes sobre a questão de José Pascoal com o diretor de "A Folha".

O que nos cabe é condenar a indiferença criminosa da polícia do Sr. Rocha Furtado diante de tais fatos humilhantes e vergonhosos aos nossos foros de civilização.

O que nos cumpre dizer ao nobre povo de Teresina é que se acautele dos valentões e sicários que infestam a cidade, a sôldo do governo e de figurões da U.D.N., pois os mesmos agem com a cumplicidade da Polícia do sr. Rocha Furtado, o homem que se considera santificado em vida e vive, em Karnak, em constantes extasis infernais...

Mêses atrás, no Bar Americano, Demerval Lobão e o deputado João Carvalho agrediram covardemente o jornalista Amandino Nunes; há um mês, mais ou menos, o diretor-redator da "Resistência", jornalista Walter Miranda, recebeu inopinada e selvagem agressão de Gomez Lima, correligionário e protegido do diretor da Fazenda; e, por último, Teresina foi teatro da mais revoltante tragi-comédia, cujos protagonistas foram o José Pascoal, o seu capanga e o Couto.

A palhaçada guerreira do primeiro e o "passo de ganso" do último em direção do automovel proporcionaram agradáveis minutos de diversão a muita gente que estava na praça... Só se ouviam gargalhadas, gritos, chacotas e assobios. No momento do ataque dos bravos carabineiros, havia, na Praça, alguns policiais, que a tudo assistiram passivamente. Os agressores foram desarmados por populares.

Ambos desapareceram do local calmamente, como se nada houvesse acontecido.

Desdobrou-se, então, ali, a mais legítima cena do Far West norte-americano... Consta que a Polícia não apreendeu as armas do Pascoal e do capanga, nem tão pouco os incomodou. O Couto, ainda cansado, pálido e apreensivo, é que, uma hora depois do ocorrido, reapareceu no "Café Avenida" e la se sentado numa das bancas, a quem pediu garantias de vida, mas a resposta foi uma aspera repreensão...

E o Pascoal, horas depois, já andava na rua exibindo revolver na cinta e conduzindo um relho crú no bolso para surrar o Couto e o Mundico Santídio. Que confiança pode inspirar, portanto, ao cidadão de Teresina, sobretudo sendo adversário do governo, a Polícia do sr. rocha furtado?

Então, só a gente do governo e da U.D.N. é que tem dignidade e sensibilidade moral? Quantas ofensas e injúrias graves não teem sido atiradas contra os ilustres membros do Tribunal de Justiça do Estado, contra o Cel. Gaioso e os drs. Leônidas Melo, Pires Gaioso, Mario Batista, Claudio Pacheco, Edgar Nogueira, Santos Rocha, etc? E Eurípedes de Aguiar, João Cavalcante, Ofélio Leitão e os demais escrevedores do "O Piauí" já tiveram, por causa disto, a cabeça rachada e a costela quebrada?

Só a gente do governo, através do seu pasquim, é quem pode descompor à vontade e ofender quem quer que seja?

Logo depois da bravata do Pascoal e da fuga do Couto, o chefe de Polícia, desembargador Simplício Mendes, ao Café Avenida, completou a comédia da manhã bradando, entre arrogante e colérico, que sua autoridade não seria desrespeitada e que não admitia desordens, nem arruaças.

Ora, sr. desembargador Simplício, para que desacato maior as autoridades do que o assalto manu militari feito pelo Pascoal e o seu façanhudo capanga, na praça mais movimentada da cidade e na presença de centenas de pessoas!? Nunca houve em Teresina afronta maior à sociedade do que a praticada pelo Pascoal, no dia 2 transato. Afronta esta com a conivência ou pelo menos beneplácito da Polícia, pois os autores da tentativa de morte contra o comerciante Antonio Couto até agora nada sofreram.

No instante em que o Pascoal se afastava do "Café Avenida", o Milton Aguiar abraçou-se com ele e o acompanhou todo risonho e satisfeito. Teresina, bem como todo o Piauí, está, pois, sem governo, sem lei, em completo regime de anarquia e de falta absoluta de garantias para qualquer cidadão, principalmente para aqueles que se opõem ao governismo piauiense, cuja figura central é Rocha Furtado - lacaio mór de Eurípedes de Aguiar.


A. Tito Filho, 05/11/1949, Jornal A Resistência, página 5-6

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

VERDADES

Conheci Apparicio Torelly no Rio, quando na velha capital fui estudante e ele jornalista. Conheci-o de vista, como se diz, barbudão, cheio de corpo. Costumava vê-lo na extinta Galeria Cruzeiro, ponto de encontro dos mais variados tipos humanos. Adotou o pseudônimo de APORELLY e assinava deste modo as melhores crônicas humorísticas do Brasil. Gaúcho. Criou na cidade maravilhosa o famoso seminário A MANHÃ, quando passou a denominar-se BARÃO DE ITARARÉ, em homenagem à terrível batalha de Itararé, em são Paulo, ano de 1930, a batalha QUE NÃO HOUVE. O Barão foi lido e admirado. Ferino e verdadeiro. Cumpriu um destino sagrado, o de fazer que a humanidade risse e gargalhasse. Escreveu muito sobre as mulheres e nesta coluna de esquerda página transcrevo algumas verdades que o Barão assentou:

- As mulheres de certa idade não têm idade certa.

- Para as mulheres os velhos são de duas categorias: os insuportáveis e os ricos.

- Há mulheres que são como as estradas. Têm curvas perigosas.

- O homem é um animal que pensa. A mulher, um animal que pensa o contrário. O homem é uma máquina que fala. A mulher, uma máquina que dá o que falar.

- Há duas espécies de mulheres: as feias e as pintadas.

- Uma mulher atormenta-se mais com um segredo do que com uma cólica.

- Décimo de segundo é a fração de tempo necessária para uma mulher verificar que outra mulher, que acaba de lhe ser apresentada, tem olhos azuis, sapatos amarelos, colar de pérolas falsas, meias de náilon sem costura, cinto fingindo jacaré de matéria plástica e dentadura postiça.

- Quando uma mulher diz a um homem: QUERO-TE COM LOUCURA, é sempre verdade. A mulher não mente. Ela é sincera. E se diz que quer, quer mesmo. Sim, ela quer uma jóia bonita ou tirar as jóias do prego.

- A amizade entre as mulheres é apenas uma suspensão de hostilidades.

- Há homens despeitados que dizem que as mulheres não pensam. É mentira. As mulheres pensam e, muitas vezes, até com muito acerto, principalmente quando arquitetam um plano de ação para tirar dinheiro dos homens que pensam que elas não pensam.

Itararé foi uma espécie de Don Quixote nacional, malandro, generoso e gozador, dele disse Jorge Amado. Durante anos lhe esconderam a obra de crítica mordaz a uma sociedade pecaminosa e leviana, de sagazes administradores oficiais descompetentes. Não convém a verdade às ditaduras ou aos falsíssimos democratas. Reeditada nestes últimos tempos, Itararé continua atual e oportuno, como a gente sente nos seus pensamentos sobre as nossas sabidas filhas-de-eva.

Ainda me lembro de Itararé, na Galeria Cruzeiro, bonachão. Sempre alegre. Nascido em 1985, proclamava-se um HERÓI DE DOIS SÉCULOS.


A. Tito Filho, 24/07/1988, Jornal O Dia

domingo, 13 de fevereiro de 2011

PALESTRA - I

Carlos Cunha é talento multiforme. Jornalista, educador, crítico literário, poeta, historiador, conferencista – e mais um título – e grande amigo do Piauí. Viria agora a Teresina para uma agradável convivência espiritual. Não lhe foi possível a viagem, mas mandou a bonita mensagem cuja publicação iniciamos hoje.

Muito cedo, aprendi a admirar e respeitar o Piauí e seu povo generoso e hospitaleiro. Aqui, tenho estado generoso e hospitaleiro. Aqui, tenho estado desde a minha juventude e vivido momentos inesquecíveis, verdadeiras páginas de saudade, desde os tempos de juventude.

Aqui, fiz grandes amizades, que têm se constituído em verdadeiros pedestais de lealdade e solidariedade humana. Poderia citar algumas dessas amizades, mas são tão grandiosas que me sinto constrangido em nomeá-las.

O povo piauiense me fascina e encanta pelo seu caráter autêntico, pela sua sinceridade, pela sua grandeza espiritual e pelas luzes de sua inteligência. E um povo superior, forjado no sofrimento que tem atormentado a todos nós nordestinos, tão discriminados perante esse imenso País, de cultura diversificada e complexa.

Piauí e Maranhão mantêm estreitos e profundos laços de amizade, realizando uma síntese criadora de suas culturas, costumes, valores morais, éticos, históricos e políticos. Piauí e Maranhão são gêmeos porque se identificam pela natureza marcada por contrastes e por diferenças às vezes incompreensíveis. Nossos povos têm em comum até a eclosão dos movimentos revolucionários. A Balaiada foi, por exemplo, uma revolta que uniu nossos povos que se insurgiram contra velhas formas de dominação política e social.

Nossa identificação assume uma dimensão transcendental na voz e no canto dos nossos poetas. Gonçalves Dias e Da Costa e Silva são frutos da mesma árvore. Suas inspirações emanam do Parnaíba, Velho monge.

Aqui, do outro lado do Parnaíba, nasceu o grande poeta e jornalista, Odylo Costa (filho) que produziu uma obra literária consistente e de valor extraordinário. O rio Parnaíba nos confunde e nos irmana, reduzindo-nos à unidade geográfica e sociológica. Odylo Costa (filho) foi um piauiense-maranhense, talvez, o maior exemplo que poderia dar, como resultado dessa fusão, que está acima das letras legais e das injunções políticas. Daí, Odylo Costa (filho), pertencer ao mesmo tempo às Academias Piauiense e Maranhense de Letras.

Seria fastigioso enumerar outros fenômenos que nos unem tão intimamente, mostrando que somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai. Piauí e Maranhão ainda se aproximam pelos seus talentos no passado. Prefiro deter-me no presente. Hoje, temos no governo do Piauí um homem público competente e de sensibilidade indescritível, que é o governador Alberto Silva, que tem prestigiado as letras de sua terra.


A. Tito Filho, 25/08/1988, Jornal O Dia

domingo, 6 de fevereiro de 2011

LEITURA

Desde frangote, aprecio a boa leitura de romances nacionais e portugueses. Novinho, li "A Moreninha", do Macedo, e a obra completa do José de Alencar. Muito boa a coleção SIP, de aventura e amor, cada volume custava dois mil réis. Nunca esqueci o heroísmo do pessoal de "A Patrulha da Madrugada". Nesse tempo Júlio Verne estava na moda. Tomei-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa. Não perdi uma publicação da série "Terra-Mar-e-Ar", estórias em terras distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, criado pela poderosa imaginação de Edgar Rice Burroughs, e pratiquei-a de fio a pavio.

Ainda leio muito. De vez em quando uma obra de estudo, para ver se me é possível compreender os meus companheiros de indagação. Já creio muito pouquinho em cousas sérias, principalmente no Brasil de muita pobreza e gente gastando a rodo nas butiques e nos motéis.

Li agora um livro cheio de verdades, escrito por Michael Novak, em homenagem a Carlos Rangel, Mario Vargas Llosa e a todos os que trabalham, incansavelmente, na América Latina, pela liberdade.

Aqui no Brasil, quantos se sentem perplexos e até acuados ao trabalhar pela liberdade, sem alinhar aqueles que pregam a OPÇÃO PELOS POBRES através da violência e da tirania?

Em nome da libertação do povo, alcançaram e estão suas liberdades básicas, mantendo "nações inteiras em condições de escravidão, o que é indigno da humanidade", confirma a Congregação da Doutrina da Fé, de Roma. "Aqueles que, talvez inadvertidamente, se tornam cúmplices de semelhante escravatura, atraiçoam os próprios pobres que dizem querer socorrer".

Teólogo cristão dos mais respeitados no mundo inteiro, Novak esteve no Brasil recentemente e aqui estabeleceu contatos com vários membros da corrente que quer a liberdade pela revolução. Novak soube escutar e contra-argumentar, calmamente, quase com doçura quando, em assembléia, lhe cortaram o direito de falar.


Autor, diplomata e teólogo Michael Novak ocupa a cadeira de George Frederik Jewett, Religião e Política Pública, no American Enterprise Institute, em Washington DC. Em 1981/82, serviu como chefe da delegação americana à Conferencia de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra. E em março de 1986, foi nomeado chefe da delegação americana à Reunião de Peritos sobre Contatos Humanos, na Conferencia de Segurança e Cooperação, na Europa. Foi, também, assessor presidencial de Ford, Carter e Reagan.

Depois de completar seus estudos de teologia na Universidade Gregoriana, em Roma, e na Universidade Católica da América, Michael Novak, recebeu o grau M.A. em História e Filosofia da Religião, na Universidade de Harvard. Tem mais 20 livros publicados.

Esteve no Brasil em 1985, para uma série de palestras e para o lançamento do seu livro "O Espírito do Capitalismo Democrático", também editado pela Nórdica.

SERÁ A LIBERDADE? É o apoio espiritual que faltava aos brasileiros, verdadeiramente empenhados em libertar os pobres da miséria em que vivem, e da escravidão que os ameaça.
A. Tito Filho, 23/04/1988, Jornal O Dia - p. 4

domingo, 12 de dezembro de 2010

CARCAMANO

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa inclui carcamano como brasileiríssimo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários estados; latacho, macarrone". Escreve mais que no Maranhão vale "a alcunha que se dá aos árabes em geral". No ceará, "vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho". Antônio Joaquim de Macedo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócio. O filho fazia honestamente a pesada. O pai então, quando o equilíbrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calça a mão). Se non e vero..." F. A. Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim depreciativamente chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes, atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calçar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Paulista Alberdi a usou, num dos seus livros, em que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou, de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Chaib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob a bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e armando a nova pátria. Aqui se casou. Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada, dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMANO NÃO TEM BANDEIRA".

Prossegue o orador: "Em casa dei a noticia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍS ESTRANGEIRO".


A. Tito Filho, 07/12/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ALVINA

Todos o conheciam em Teresina. Técnico competente e afamado. Veio da terra do nascimento, Portugal, antes da 1ª Grande Guerra, e fixou-se em Belém. Depois, contratado pelo governo do Piauí, assistiu no interior piauiense, município de Oeiras, para montar máquinas de fabricação de laticínios. Por muito chão - Pará e Terra de Mafrense - gastou dez anos de vida, a partir de 1912, e escolheu a Chapada do Corisco, a cidade fundada por Saraiva, para em 1922, nestas bandas brasileiras, passar a residir, com oficina de funilaria, até a viagem derradeira, no ano da graça de 1953 - a viagem sem bilhete de volta. Trinta e um anos de xodó e de amigação com a comunidadezinha simples e humilde, a que ele oferecia a constância de gestos de afeto, socorrendo os velhos com dinheiro e refeições.

Chamou-se Pedro Antônio Maria Fernandes, conforme o assento de cartório. Ao chegar ao Brasil, as autoridades viram a palavra Pedro entre parênteses no final do nome todo, e não quiseram que ali estivesse o antenome ou prenome. Não corrigiu o equivoco. E Pedro ficou como designativo de família.

Antônio Fernandes Pedro exercia a indústria e o comércio numa casa do centro de Teresina, esquina com o antigo Banco do Brasil, na rua Eliseu Martins, perto da praça Rio Branco. Era um prédio baixo, atijolado, bem limpo, em que o dono tinha também o teto agasalhador. Num dos lados, o que dava para a rua Barroso, havia a loja de vendo dos objetos por ele fabricados - e aí se reuniam os comandantes intelectuais do meio, de manhã e de tarde - e como Antônio Pedro lhes apreciava a convivência diária, para o cafezinho, e a boa prosa ilustrativa, alegre e folgazã. Esmaragdo de Freitas, Cromwell Carvalho, Mário Baptista, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, Pedro Britto, Cristino Castelo Branco, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Simplício Mendes, Benjamin Baptista, Álvaro Ferreira, Arimathéa Tito, Artur Passos e muitos outros - magistrados, médicos, poetas, historiadores, políticos, gente fina, fizesse sol ou deixasse de chover, não dispensavam o bate-papo com o funileiro, do modo que afetivamente era chamado o português de bom caráter e excelente camaradagem, de agudo senso intelectivo, trabalhador, alma feita de fraternidade.

Alvina Fernandes Gameiro teve para quem puxar o gosto pelas cousas do espírito. Filha de Antônio Pedro, como o pai, desde menina gostava de tudo que proviesse da inteligência.

E conheceu um sujeito de nome Argemiro Gameiro, carioca de nascimento. Ele andava teresinando, em missão educativa. Engenheiro e arquiteto ilustre e de muitos títulos. Professor e diretor de educandário. Rico de boa leitura. Armazenador de abundantes lições culturais. Nascido para o amor do próximo.


A. Tito Filho, 09/11/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DRUMMOND

Corria o ano de 1972, em que se salientavam três acontecimentos da vida cultural brasileira: os 400 anos do poema épico de Camões, português mas cidadão do mundo, os 75 anos da Academia Brasileira de Letras e os 50 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Era no primeiro governo de Alberto Silva e este me fez carta de convite para que a administração e a Academia Piauiense de Letras festejassem tão ilustres acontecimentos. Arrumei a sacola com umas duas cuecas, o mesmo tanto de blusões e surrada calça de casimira ordinária - e no aviãozão de jato viajei ao Rio incumbido de convidar os oradores das solenidades, cada uma a seu tempo. Levei os ofícios governamentais. Primeiro, Martins Napoleão falaria em setembro, sobre o célebre Os Lusíadas. Um mês depois, seria o segundo festejo. Palestra de Odylo Costa Filho. Os dois convocados aceitaram a missão e assumiram o compromisso respectivo. Faltava o terceiro, o muito querido, o poeta sem peias, o papa da poesia nacional - Carlos Drummond de Andrade. Procurei-o no seu jornal, em que deliciava o Brasil com a ironia de crônicas inimitáveis. Disseram-me que era homem difícil de encontrar, mas me forneceram endereço e telefone. Telefonei-lhe do hotel, disse-lhe que tinha incumbência do governador do Piauí, marcou encontro na residência, fixou dia e hora, e eu fui dar ao apartamento de Copacabana, lugar de repouso do monstro sagrado. Recebeu-me afavelmente, de esmerada educação. Em sala ampla, de muito conforto, tomei assento em sofá bom de descanso e disse-lhe do meu recado. Entreguei-lhe a correspondência de Alberto Silva.

Ele a leu, sorriso safado no canto direito dos lábios:

- Se bem entendo, o governador do seu Estado quer que eu faça uma conferencia sobre a Semana de Arte Moderna. Mas, professor, diga-lhe que eu nunca fiz palestra, discurso, conferencia, nada desse tipo de cousa, e não seria interessante começar pelo Piauí. Esclareça-me um ponto, professor, como o governador Alberto Silva teve a lembrança do meu nome?

Eu fiquei chateado com as observações de Drummond. Diabo! A recusa me deixou pequenino, aflito, mas o negócio de não começar a fazer discurso logo no Piauí me arrasou, eu que estava repleto de orgulho que a gente sente quando se encontra em companhia de pessoa graúda. Depressa, vingança na ponta da língua, dei a resposta:

- Poeta, o governador teve a lembrança do seu nome por razão simples e generosa, pois ninguém o conhece no Piauí e ele pensou em projetá-lo por lá, junto aos piauienses.

Carlos Drummond de Andrade, a meu lado, espalmou a mão, desceu-a na minha coxa, num estalo, e consentiu no meter das buchas:

- Estamos quites, professor, estamos quites!

E riu, um riso de boca não muito aberta, assim como que encabulado.


A. Tito Filho, 17/04/1988, Jornal O Dia.    

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CEARÁ

Estudei em Fortaleza três anos. Tive bons mestres e quanto me recordo de Colombo de Sousa, Mardônio Botelho, Raimundo Cela - e desse admirável Martins Filho, que se formou no Piauí, e depois seria o arquiteto da Universidade Federal do Ceará.

O Piauí deu à terra alencarina algumas figuras de grande conceito em diferentes áreas da inteligência. Dos mais antigos, podem citar-se Francisco Alves Lima, nascido em Pedro II, ano de 1869, poeta e jurista. Odorico Castelo Branco, de 1876, o famoso educador do Colégio Castelo. O ilustrado jurista Luís Correia, mestre da Faculdade de Direito do Ceará. O intelectual Victor Hugo, nascido em Floriano, 1898. O desembargador e jurista Antônio Soares da Silva, jurista, de Valença onde nasce em 1903.

Os cearenses costumam relacionar como conterrâneo seus José Coriolano de Sousa Lima. É bem de ver que esse profundo lírico, romântico, cantor da natureza, nasceu em Vila do Príncipe Imperial, em 1829, quando a vila pertencia ao Piauí, passando ao Ceará muitos anos depois, com o nome de Castelo.

Dos piauienses nascidos da década de 20 em diante e que se fixaram em Fortaleza, vitoriosos na vida cultural da nova terra de trabalho, lembro-me de Teoberto Landim, das bandas de Pio XII, contista, ensaísta e romancista. E mais: poeta Vasques Filho (Teresina); Flávio Portela Marcílio, deputado, governador, orador (Picos);, Cláudio de Almeida Santos, jurista, de Parnaíba (1935); Herbert Maratoan Castelo Branco, desembargador, jurista; Barros de Pinho, político, poeta, secretário de Estado, de Teresina (1939); Emanuel de Carvalho Melo, pintor, poeta e prosador, vindo ao mundo em Piripiri, 1950. E essa exemplar figura de virtudes muitas Geraldo Fontenelle (1934), de Batalha.

Deve haver mais gente nossa por lá, como Genuíno Francisco de Sales e outros cristãos sinceros.

Geraldo Fontenelle mereceu eleição para a Academia do Longá - entidade prestigiosa, e brevemente se empossará na cadeira. Jornalista de mérito. Poeta de versos cósmicos, novelista. Escreveu livros projetados como "Notas do Caderno de um Repórter", "As estrelas brilham também durante o dia", "Porto Cinzento", "Idéias - Ação e Atualização" e recentemente publicou "Os castiçais dos mortos", em que desfilam figuras humanas impecavelmente retratadas, nos simples como nos complexos caracteres. Geraldo é antes de tudo cronista talentoso, fiel observador da vida e dos tipos que nela se agitam. Sabe compor a escritura com arte e limpidez de linguagem.

Não se tenha dúvida de que Geraldo vale uma forte fonte de riqueza da literatura cearense, para alegria do Piauí. De fidelíssimas crônicas fortalezenses.


A. Tito Filho, 08/04/1988, Jornal O Dia.    

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

NOMES

Taumaturgo Sotero Vaz é de Amarante (PI), nascido em 1869. Morreu em 1921, na cidade de Manaus, onde se havia fixado, 1891. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. No Amazonas exerceu cargos diversos, promotor, juiz, professor, procurador da República, diretor da Imprensa Oficial e do Teatro do Amazonas. Membro da Academia Amazonense de Letras. Jornalista de longo tirocínio. Poeta e teatrólogo. Compôs revistas teatrais. Publicou muitas poesias esparsas. Tem versos melodiosos e irônicos em que espelha os conflitos do homem.

José Pires Rebelo nasceu em 1877 (Piripiri-PI), e faleceu no Rio de Janeiro em 1947. Engenheiro civil. Intendente de Teresina (prefeito). Deputado Federal e duas vezes senador pelo Piauí. Aplaudido orador parlamentar. Polemista invulgar. Dominava e convencia os auditórios, empolgado de palavra escorreita e vibrante.

Adelmar Soares da Rocha nasceu em Aparecida, hoje Bertolínia (PI), 1892. Faleceu no Rio de Janeiro, 1973. Médico, trabalhou no Maranhão, Piauí, Mato Grosso e São Paulo. Militar-médico do Exército, atingiu o generalato. Diretor de hospital militar no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso. Revolucionário de 1924. Participando do movimento militar de 1930. Deputado federal pelo Piauí três vezes. Conferencista. Possuía várias condecorações. Publicou "Caxias" e "Taunay". Orador parlamentar. Grande tribuno. De atitudes decididas. Foi ainda governador do Território do Rio Branco.

Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco era de Campo Maior (PI), nascido em 1863. Faleceu em Teresina, 1887. Professor e diretor do colégio por ele fundado. Deputado Provincial. Jornalista. Publicou o notável trabalho "Apontamentos Biográficos de Alguns Piauienses Ilustres". Publicista e poeta. Fez do magistério verdadeiro apostolado. Espírito forte e alma de lutador. Padeceu grandes sofrimentos, inclusive a cegueira.

Gabriel Luís Ferreira nasceu em Valença do Piauí, 1848. Faleceu no Rio, 1905. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. Fundador do Instituto de Karnak, importante estabelecimento de ensino Secundário em Teresina. Magistrado. Jornalista. Poeta. Deputado-geral (federal) pelo Piauí e governador do Estado. Publicou abalizados trabalhos jurídicos.


A. Tito Filho, 13/07/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

CELSINHO

Nasceu e faleceu em Teresina (17.2.1914-23.2.1974). Pais: Celso Pinheiro e Liduina Mendes Pinheiro. Curso primário no Grupo Escolar Teodoro Pacheco e o secundário no Liceu Piauiense (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis). Aos 17 anos, ingressou no Exercito Nacional, servindo no 1º Batalhão de Engenharia, Vila Militar, Rio. Participou da revolução de São Paulo (1932), no lado das forças do governo. Recebeu elogios. Promovido a sargento. Bacharel pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (1942). Casou-se em 1943 com Maria Rosa Pinheiro. Em 1945, ingressou no Partido Social Democrático, organização política de que chefiou a Secretária da Comissão Diretora Nacional. Oficial de gabinete de ministro do Trabalho no governo Eurico Gaspar Dutra. Em 1946, prefeito de Teresina. No ano seguinte, delegado regional (RIO) de Serviço de alimentação da Previdência Social. Oficial de gabinete do governador do território do Guaporé, hoje Rondônia (1948), prefeito de Porto Velho (capital), secretário-geral do governo e governador interino várias vezes. Em 1950, retorna ao Piauí para as lutas da advocacia e a pesquisa histórica. Historiador ilustrado. Organizou a obra literária de vários escritores piauienses mortos, num esforço cansativo e tenaz.

Publicou "História da Imprensa no Piauí", trabalho de fôlego, e estudos sobre Hermínio Castelo Branco, José Coriolano de Sousa Lima e Teodoro Castelo Branco, grandes poetas piauienses, depois do seu falecimento, publicou-se "Soldados de Tiradentes", história da Policia Militar do Piauí, obra que a sua filha Lina Celso Pinheiro completou.

Recebendo-o na Academia, sessão de 19 de julho de 1973, o acadêmico Odilon Nunes afirmou: "Assim, Celso Filho escreve história fazendo história, pois sua contribuição vem enriquecer a historiografia piauiense, a que se incorpora de modo definitivo".

A seu respeito, em homenagem fúnebre, assim se expressou o acadêmico Celso Barros Coelho: "A quem o observa na tortura dos seus membros encolhidos, parecia que a sua imagem crescia à medida que o corpo definhava. Era uma imagem através da qual se escondia o sofrimento para poder revelar tão somente o que realmente são estava naquele corpo: a alma disposta a compreender, o coração batendo pelas dores do mundo e o espírito inclinado a perdoar em nome da humanidade. Quem assim vivia não podia, ao morrer, senão conservar a postura de um santo, em cuja compassividade estava o retrato fiel da vida pautada pela resignação e pela renuncia".

Celso Pinheiro Filho foi um dos mais acatados e cultos advogados no Piauí.

Muito o conheci e estimei. Ao tempo da prisão dos comunistas, Celsinho, como afetivamente era tratado, padeceu torturas sem conta que o aleijaram. A principio ainda conseguia caminhar com dificuldade. O passar dos anos tiraram-lhe completamente os movimentos das pernas. Tornou-se paralítico, mas sempre de animo forte e corajoso. Deu grande incentivo à pesquisa histórica no Piauí.


A. Tito Filho, 12/08/1988, Jornal O Dia.  

domingo, 12 de setembro de 2010

MANOEL FELÍCIO PINTO

A 4 de fevereiro, um sábado, cobriu-se de luto a Academia Piauiense de Letras com o falecimento de Manuel Felício Pinto, circunstância que consternou muito os seus colegas de instituição.

Nasceu ele num sítio do interior, na terra maranhense de Codó, a 15 de janeiro de 1896. Formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de Manaus, o Primeiro centro universitário brasileiro, e na capital amazonense exerceu a sua primeira função pública. Desempenhou cargos de magistratura em comarcas do Amazonas e do Maranhão. No Piauí, foi juiz de direito de União, Jaicós, Miguel Alves, Floriano, Campo Maior, Parnaíba e Teresina. Desembargador do Tribunal de Justiça por merecimento. Presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Dedicou-se a estudos sobre o problema do menor e muito se dedicou à proteção de crianças e adolescentes na presidência, anos seguidos, da Sociedade de Amparo aos Menores Abandonados do Piauí.

De variada atividade intelectual. Jurista de merecido conceito, as suas decisões se apoiavam em estudos sérios e abalizados. Jornalista voltado para estudos sociais e históricos foi copiosa a sua colaboração em jornais e revistas. Escreveu teatro, compondo peça de natureza politica, de conteúdo ligado a II grande guerra mundial. Penetrante crítico literário. Conferencista culto e meticuloso. Poeta, achava gosto no lirismo e concebeu sobretudo sonetos. Publicou "Frutos Verdes e Floresta Lírica" e "O Jardim de Minhas Flores".

Já me encontrava como membro da Academia Piauiense de Letras, quando Felício ingressou no sodalício. Tomou posse em 1966 e tive o prazer d saudá-lo, examinando-lhe a vida e a obra literária.

Sempre me procurava para alguns dedos de prosa, alegre, e eu o ouvia como a um irmão mais velho que não me recusava a graça dos bons conselhos.


A. Tito Filho, 21/02/1989, Jornal O Dia.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

URDA E BLUMENAU

Urda Alice Klueger descende de alemães. Inteligência viva, educada, escreve como gente grande, com harmonia, estilo gracioso, linguagem de muita correção. Publicou três livros sobre a sua encantadora Blumenau, a cidade catarinense dos frios intensos e dos calores hospitaleiros. Fundada por alemão, Blumenau tem encantos mil. Perfumam-na flores sem conta, inclusive essa beleza espiritual que se chama Urda, admirável romancista dos tempos colonizadores, - e a ela a gente como gente, tem um bem-querer constante cada vez maior.

Com data de 27 de novembro, Urda me escreve esta carta de sentimento e amizade:

"Comigo, sua carta de 15.11, Notícias Acadêmicas e o Suplemento Cultural Teresina 123 anos. Interessantíssima a matéria sobre Domingos Fonseca! O repente é uma arte praticamente desconhecida por aqui, lembro-me de uma vez, quando criança, ter visto uma dupla repentista que era atração numa das nossas tradicionais festas de Nossa Senhora da Glória. Os artistas em questão tinham vindo de fora, não lembro de onde, eu era muito pequena, devia ter sete ou oito anos, não dá para lembrar tudo. Mas recordo bem como fizeram sucesso, como entraram noite adentro (a dentro?) cantando, como o povo se aglomerou ao redor do palco, como se ria, como havia aplausos, enquanto eu cabeceava de sono no ombro do meu pai. Foi a única vez na vida que vi repentistas. Agora, Domingos Fonseca, magicamente, traz-me de volta aqueles instantes que tinham adormecido na minha lembrança, e me vejo de novo no ombro do meu pai, e sinto uma grande saudade dele.

Independente da minha saudade, que grande artista que foi esse Domingos Fonseca! Quantos, quantos talentos por este Brasil enorme, dos quais sequer temos conhecimento! Que bom que foi um dia ter tido um contacto com o senhor, que nunca deixa de fazer chegar a minha casa tantas novidades culturais que, de outra forma, não chegariam! Muito obrigada, meu amigo.

O calor voltou a Blumenau, e estou queimadíssima de sol, a pele toda doendo, vermelha como um camarão cozido, até com um cadinho de febre, mas altamente satisfeita pela volta do calor. Que terrível inverno tivemos este ano!

Aguardo suas notícias e as desse Estado que é, para mim, quase que uma continuação de Santa Catarina. Muito obrigado por tudo, até mais ver,

Urda".


A. Tito Filho, 08/12/1987, Jornal O Dia.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ODYLO FILHO

Nasceu em São Luís do Maranhão, a 14.12.1914. Pais: Odylo de Moura Costa e Maria Aurora Alves Costa. Estudou em dois educandários de Teresina: Colégio Coração de Jesus e Liceu Piauiense (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis). Bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1933). Secretário de Imprensa da Presidência da República (governo Café Filho). Superintendente das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União (Rio). Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa (1965-1966).

Grande jornalista. No Rio, foi redator do "Jornal do Comércio", fundador e diretor da "Política de Letras", diretor de "A Noite", "Tribuna de Imprensa", e da revista "Senhor", diretor de redação de "O Cruzeiro". Trabalhou no "Diário de Notícias" e chefiou a redação de "Jornal do Brasil". Secretário do "Cruzeiro Internacional". Dirigiu a Rádio Nacional. Diretor de redação da Editora Abril. Em São Paulo, diretor de "Realidade". Articulista exímio. Ressuscitador de jornais mortos - conforme ao batismo de Rachel de Queiroz.

OBRA

Editor de "Seleta Cristã" (1932). Estréia literária: "Graça Aranha e Outros Ensaios" (1933), prêmio Ramos Paz, da Academia Piauiense de Letras; "Livro de Poemas de 1935", em colaboração com Henrique Carstens; "Distrito da Confusão", artigos de jornal, em que criticava a ditadura de 1937; "O Balão que Caiu no Mar", peça infantil; "Tempo de Lisboa e Outros Poemas", "Cantiga incompleta". Novelas: "A Faca e o Rio", "A Invenção da Ilha da Madeira", "Conto de Natal: história de seu Tomé meu pai e minha mãe Maria". Escreveu vários ensaios políticos de pulso, entre os quais, "Salazar: agonia e queda".

Como se vê, Odylo foi com invulgar grandeza, jornalista, teatrólogo, autor de literatura infantil, conferencista, romancista, cronista, crítico literário e poeta. Nesta última condição está incluído por Manuel Bandeira no rol dos poetas bissextos, que ofereciam concepções de tempos em tempos. Duas grandes dores – a perda da filha e do filho Odylo Neto, este em circunstâncias trágicas, desabrocharam nele uma série de poemas admiráveis, como salientou Manuel Bandeira.

Ressalte-se que o Piauí e o Maranhão vivem permanentemente na obra de Odylo.

Odylo ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1969. Recebendo-o, Peregrino Júnior lembrou que nele havia ainda o cronista ágil, fluente, a vocação dramática, o teatro de diálogo ágil, de ternura e graça. Sustentou que o novo acadêmico detinha todos os segredos da técnica do verso. Cada soneto que escreveu é uma obra-prima – escreveu.

Nome completo: Odylo Costa Filho. Faleceu no Rio de Janeiro.


A. Tito Filho, 12/10/1988, Jornal O Dia.  

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

*   *   *

Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

*   *   *

Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia.
 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

CUNHA E SILVA

Francisco da Cunha e Silva nasce na terra piauiense de Amarante. Era 3-8-1904. Cursou o Colégio Bento XV de Teresina. Fez humanidades no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, no Estado do Rio. Escolheu a carreira eclesiástica, matriculou-se no Colégio Salesiano São Manuel de Lavrinhas, São Paulo, também seminário, em que fez estudos superiores de filosofia e latim. Sem vocação para o sacerdócio, seguiu outra destinação. Casou-se na antiga capital da República. Em 1927, fixava-se em sua cidade natal. Iniciou-se no magistério de português, história e geografia. Em Amarante, fundou o educandário Ateneu Rui Barbosa. A partir de 1947, estabeleceu-se em Teresina, quando subiu ao Governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional. Antes, em 1935, acusado, processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de prisão na antiga e demolida penitenciaria da capital piauiense.

O novo governo lhe confiou uma cadeira de geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu. Passou também a colaborar na Imprensa, sem remuneração de qualquer natureza. Militou em quase todos os jornais: "O Piauí", "Resistência", "A Gazeta", "O Tempo", "O DIA", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho", além de revistas noticiosas e literárias.

Não permaneceu muito tempo nas hortes da UDN. Era jornalista de linguagem forte, por vezes agressiva. Rompeu com o governador Rocha Furtado. A politica da época não aceitava rebeldias. A punição se fazia necessária e rigorosa. Os que se rebelavam perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidade de família. Perdeu a cadeira de que tirava o pão de cada dia.

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva padeceu severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia artigos contundentes e violentos contra o governante e seus auxiliares.

O Partido Social Democrático, de oposição, deu-lhe modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência, percurso que ele fazia a pé. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas e pesadas vicissitudes. Ganhava pouquíssimo em estabelecimentos particulares de ensino, dando aulas desde que o dia principiava até de noite.

Tinha animo forte. Nunca abaixava o topete. Com a subida de Pedro Freitas ao governo, candidato de oposição a Rocha Furtado, mereceu duas cadeiras no magistério do Colégio Estadual e da Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, que reunia o Arquivo, a Biblioteca e o Museu do Estado. Exonerou-se, dentro de pouco tempo, das funções, para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Em 1975, ingressou na Academia Piauiense de Letras. Publicou a tese "O Papel de Floriano Peixoto na Obra da Proclamação e da Consolidação da República", para a realização de um concurso de professor, em que foi aprovado. Mais dois livros seus foram publicados pela sua instituição acadêmica: "A República dos Mendigos", romance de caráter político, e "Copa e Cozinha", de estudos sociais e históricos.

Os anos começaram a pesar-lhe no organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra juiz de direito da capital que concedeu mandado de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois a velhice fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Muito sofreu, mas muito se realizou combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.

A 21 de janeiro de 1990, pelas três horas da madrugada, o companheiro rebelde fechou os olhos a este mundo que lhe foi muito ingrato, cujas injustiças ele combateu com energia e coragem. Despediu-se o velho mestre, deixando a lembrança de um forte temperamento e de invulgar capacidade de escrever sobre assunto vário. Como quis, jaz no cemitério da sua querida Amarante.


A. Tito Filho, 01/03/1990, Jornal O Dia.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MEMÓRIA

Andava eu pela adolescência quando conheci Esmaragdo de Freitas, a quem meu pai dedicava profunda admiração. Gostava Esmaragdo de uns dedos-de-prosa com colegas julgadores, na praça Rio Branco, de Teresina, boca da noite. Ali o vi muitas vezes. Sério, grave, homem cara-de-poucos-amigos, mas de imenso coração, de muita bondade. Impoluto e escrupuloso. Devotou aos semelhantes grande parcela do seu valor, orientando os moços com exemplos de rígido caráter, ora auxiliando os que, por fraqueza, incorriam na censura ou na condenação pública.

Era traço da sua personalidade: não humilhar. Lembra-me que, em 1946, se reunia, no Rio, em sessão secreta, a Assembléia Constituinte. Os legisladores discutiam caso de sensação, escandalizado pela imprensa, que nele via atentado sério ao decoro do parlamento brasileiro. Nessa reunião de portas fechadas, os congressistas advogavam a cassação do mandato do parlamentar faltoso. Bastou, porém, que Esmaragdo, sempre tão calado e reservado, condenasse a atitude dos colegas, para que estes, apercebidos do senso de suas ponderações, cedessem à força de autoridade daquele que as pronunciava.

*    *    *

Estudante no Rio, em 1945, vi de perto os acontecimentos políticos que empolgavam a nação: entrevista de José Américo de Almeida, de condenação ao regime ditatorial chefiado por Getúlio Vargas - a entrevista célebre com que se reconquistou a liberdade de pensamento; a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes, de Eurico Dutra, de Yedo Fiúza e de Mário Rolim teles à presidência da República; a queda de Vargas, noite de 29 de outubro de 1945; a posse de José Linhares, presidente do Supremo Tribunal, na chefia do governo; finalmente, as eleições de 2-12-1945, com a vitória de Dutra. O notável Esmaragdo recebia a consagração dos piauienses elegendo-se senador da República.


A. Tito Filho, 14/04/1989, Jornal O Dia. 

terça-feira, 22 de junho de 2010

SETENTA ANOS

A 4 de agosto de 1901 - conta João Pinheiro - reuniram-se, em casa do próprio memorialista, rua da Glória, Higino Cunha, Arquelau Mendes, Luís Evandro Teixeira, Domingos Monteiro, João Pinheiro, Antonino Freire, Clodoaldo Freitas, Manoel Lopes Correia Lima, João José Pinheiro e Fócion Caldas, e criaram a Academia Piauiense, para constante trabalho em favor do primeiro domingo seguinte, o que não houve. A iniciativa faleceu no nascedouro. Surgiram outras associações literárias, como a "Sociedade José Coriolano", os grêmios "Esperança", "David Caldas", e o primeiro “Cenáculo Piauiense de Letras”, em 1913, nascido morto.

Fundaram-se seguidamente o Congresso Estadual de Letras (1914), a Academia Piauiense de Letras (1917), a Arcádia dos Novos (1918), o Cenáculo Piauiense de Letras, pela segunda vez (1927), a Associação dos Moços Teresinenses (1932) e o Clube dos Novos (1946), este sob o comando de M. Paulo Nunes, para falar das entidades criadas antes do primeiro centenário de Teresina, todas de vida curta, com exceção da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, - e este não morreu por virtude dos teimosos e grandes esforços de Josias Carneiro da Silva.

A idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras coube a Lucídio Freitas, jovem poeta muito admirado. Deu-se o episodio as nove da manha de 30-12/1917, no Salão nobre do Conselho Municipal, Praça Marechal Deodoro, prédio em que durante muitos anos funcionou a Intendência e de 1936 em diante a Prefeitura. Fundadores, por ordem do registro da ata respectiva: Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas, Celso Pinheiro e Lucídio Freitas, que foi presidente da reunião.

De 1917 até hoje governaram o sodalício os presidentes Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Matias Olímpio, Martins Napoleão, Álvaro Ferreira, Clidenor Freitas Santos, Simplício Mendes. Desde 1971, vem sendo conduzida humildemente pelo autor destas notas.

A instituição manteve-se fiel a Lucídio Freitas e aos seus nove companheiros fundadores. Funcionou em casas particulares, em prédios oficiais ou alugados pelo governo, viveu sem tostão, aqui e ali auxiliada por governantes decentes que lhe publicavam a revista e obras literárias dos acadêmicos - mas nunca esmoreceu. Possui hoje a sede própria e sustenta-se de pequenas rendas que lhe proporcionam órgãos do governo, e prossegue, com dignidade, o modesto trabalho de bem servir, sem que jamais tenha cobrado de quem quer que seja pagamento de serviços prestados, pois tem como dever precípuo a cooperação com a vida cultural da terra.

Setenta anos está inteirando a Casa de Lucídio Freitas neste dia 30 de dezembro de 1987. Orgulho-me dela e dos companheiros que me ajudam a conduzi-la, no respeito permanente à memória dos que a fizeram e não permitiriam que o ideal morresse - o ideal de Lucídio, tão grande que continua vivo e inspirador.

A. Tito Filho, 30/12/1987, Jornal O Dia.     

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DONDON DE SEMPRE

Teresina na década de 20 contava com um jornal crítico por excelência, chamado O DENUNCIANTE, dirigido por Dondon Castelo Branco.

Antigamente, em Teresina, o defunto era conduzido ao cemitério por amigos, a pé. Não havia ainda carro funerário. Atrás do caixão, iam os familiares e os conhecidos e admiradores. Dondon muito se preocupava com o acompanhamento. Em 1928, escreveu no jornal:

"Na hora do enterro apresenta-se um aluvião de pessoas para acompanhar o defunto, porém logo no sair da porta começa a debandada de um, dois, aqui, ali, e acolá, e quando chega do meio do caminho em diante é que a debandada é grande, chegando ao cemitério quase sem acompanhamento, quando não deviam fazer assim, pois se o cemitério é longe ou se a pessoa é velha e não resiste a viagem ou se está doente ou se tem muito trabalho a fazer em casa, ou seja por qualquer motivo, nestes casos será melhor que lá não vá, e não ir somente aparentar, que fica muito feio e se não hão de fazer assim é melhor que peçam desculpas ao dono do defunto, alegando os seus motivos e não voltarem do caminho, como tem acontecido nestes últimos enterros, nos quais, do que menos voltaram foi no enterro do dr. Collect, e no que mais voltaram foi no do dr. Francisco Parentes. Se assim a moda pegar, chegará o dia em que os próprios carregadores também deixarão o defunto no meio da rua até que os donos tomem qualquer providencia em obter com a policia que mande presos conduzirem o defunto a fim de não espocar no meio do tempo".

*   *   *

Noutra edição do jornal, escreveu:

"No dia 6 morreu nesta capital e enterrou-se no dia 7, Dona Delmira lobão Veras, mãe do médico Dr. Anfrísio Lobão, a quem o dono deste jornal apresenta pêsames extensivos aos demais parentes. Acompanharam o enterro 42 pessoas e voltaram do caminho 21. No outro número serão publicados apenas os nomes das pessoas que chegaram ao cemitério".


A. Tito Filho, 19/02/1989, Jornal O Dia.

 

sábado, 19 de junho de 2010

LILIZINHA

Pais: Heitor Castelo Branco e Emilia Leite Castelo Branco. Não é piauiense de nascimento, mas no Piauí se integrou desde criança. Residiu alguns anos em Belém. Alta funcionária da Secretaria de Educação, dirige com proficiência a Casa Anísio Brito (Museu Histórico e Arquivo Público do Estado) em Teresina. Pertence ao Conselho Estadual de Cultura do Piauí.

Colaborou na imprensa do Rio de Janeiro ("Diário Carioca") e colabora frequentemente na de Teresina, assinando artigos de crítica literária, de incentivo às letras, de análise de fatos da coletividade. Jornalisticamente, tem linguagem de muita simplicidade.

Muito nova escreveu contos e um deles mereceu prêmio da revista carioca "Vida Doméstica".

Dedicou-se à ficção e três romances já saíram de sua lavra: "Sinhazinha do Karnak", "A Mendiga do Amparo", "Quinze Anos depois", recebidos com entusiasmo pelos críticos de literatura. Capítulo do primeiro dos citados livros teve acolhida em obra didática, tal a delicadeza do estilo e a fidelidade na descrição das paisagens. Seu último romance tem o nome de "O Juramento".

De muita profundidade psicológica é o seu "A Mendiga do Amparo", da forma que acentua o acadêmico J. Miguel de Matos. Da "Sinhazinha de Karnak" disse Isabel Vilhena, com muita acuidade, que pode figurar ao lado da "Senhora de Engenho", de Mário Sette, e de "A Morgadinha dos Canaviais", de Júlio Dinis.

Lilizinha Carvalho, como é mais e muito conhecida, dispõe, realmente, de muitas virtudes para a composição do romance. Narra com delicadeza, observação atenta, delineia bem os tipos, tem grande fidelidade às paisagens físicas e humanas e muita atenção ao tempo em que se desenrolam os seus romances. Não exagera as histórias que conta, porque antes de tudo parece que os episódios foram presenciados pela sua agudeza de percepção. A linguagem não aparece, momento algum, enfeitada. Antes, delícia pelas expressões justas e necessárias à compreensão da narrativa e do dialogo.

Chamou-se Emília Castelo Branco de Carvalho. Faleceu em 15 de outubro de 1980.


A Tito Filho, 13/10/1989, Jornal O Dia.