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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ARMANDO

Nasceu em Parnaíba (PI), 29/04/1915. Pais: Fausto Fernandes Basto e Rosina Amélia Basto. Estudos secundários na terra natal. Bacharel pela Faculdade de Direito do Maranhão (1938). Advogado. Desempenhou altas funções no Departamento Nacional do Café, na Fundação da Casa Popular e na Companhia Nacional de Álcalis. Estudioso dos processos históricos e sociais. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, em cuja revista colaborou. Trabalhou em "O Imparcial", de São Luís, e em "O Jornal", do Rio. Redator e diretor-geral da Agencia Nacional. Do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal. Na primeira administração Alberto Silva, prestou extraordinários serviços culturais ao Piauí, como chefe da Assessoria do Governo do Estado (1971/1975). Desconhecia cansaço, obstáculos, dificuldades nos afanosos esforços de projetar o livro e a arte da sua terra natal. "Se é para ajudar não arrepio estrada" - sustentava. Foi o inspirador e o grande animador do Plano Editorial do Estado, que publicou 40 obras de autores piauienses vivos e mortos. Estimulou e apoiou notáveis solenidades literárias e foi o principal responsável por substancial cooperação com a Academia Piauiense de Letras. Incentivou as letras e as artes. Sugeriu e realizou concursos literários. Como presidente do Conselho Estadual de Cultura, promoveu inesquecíveis solenidades, como as que foram dedicadas a memória de Rui Barbosa, com a participação da Casa de Rui Barbosa do Rio, e da neta do imortal baiano.

Armando Basto foi sobretudo jornalista. Realizou jornalismo objetivo, de clareza meridiana, num estilo personalíssimo, palavras de rigorosa propriedade, expressões constitutivas de segura comunicação, idéias límpidas, nobres. Jornalista estrênuo - disse dele Vidal de Freitas. Escreveu como poucos, com segurança, asseio de linguagem, ao correr da pena, sobre qualquer assunto. Narrou e interpretou da mesma forma que descreveu e dissertou - aprumadamente, fiel à verdade. Racional em tudo. O seu modo de dizer esteve inconfundível. Seco, não enfeita. Expressa-se sem excessos, sem sobras, mas igualmente sem lacunas. Poe no papel o estritamente necessário ao entendimento. Tem estilo cientifico, confessa J. Miguel de Matos.

Inteligência poderosa a serviço do jornalismo. Angustiado para projetar alheia arte, arredio de recompensas.

Pertenceu à Ordem do Mérito Renascença do Piauí. Exerceu funções da mais alta responsabilidade na Secretária de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, onde depois se tornaria chefe do serviço de comunicação da Itaipu binacional, exonerando-se do cargo em 1986, quando voltou a Teresina para a campanha eleitoral da candidatura de Alberto Silva ao governo do Estado. Com a posse do candidato vitorioso, foi nomeado titular da Secretaria de Comunicação, lugar em que o colheu a morte a 20 de setembro de 1988, verificando-se o sepultamento na cidade natal no dia seguinte. Pertencia a Academia Piauiense de Letras, cadeira 27.

Chamava-se Armando Madeira Basto. Faleceu a 20 de setembro de 1988, sepultando-se no dia seguinte em Parnaíba.


A. Tito Filho, 23/09/1988, Jornal O Dia

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

JOGO, MUITO JOGO...

“A primeira vez que tomei parte numa banca de jogo, entrei com 35$000 e tive uma sorte inaudita. Dominei a fama dos veteranos de bacará, e, pela madrugada, quando em retirei, levava, no bolso, mais de 800$000, alem do que me ficaram devendo. É fácil imaginar meu deslumbramento deante de tamanha fortuna! Mas engano dalma ledo e cego. Daí por diante experimentei todas vicissitudes do azar caprichoso e traiçoeiro. Passei a servir de joguete nas mãos dos mais espertos.”

Higino Cunha – “Memórias”.

Acrescenta o mestre:

“Persisti durante cerca de três e fui obrigado a abandonar para sempre o jogo de cartas, malferido na bolsa e na reputação e convenci-me da minha incapacidade para tão arriscado mister”. E mais: O jogo “não cria amizades sinceras e duradouras, nem simpatia entre os homens. Mesmo ganhando-se dinheiro, perde-se a confiança no trabalho regular e o tempo que devera ser aplicado em outros misteres, perde-se o credito e a boa fama, e adquirem-se habitos maus, que envenenam a existencia de modo irreparável!”

Despe, leitor amigo, a roupagem vistosa com que te apresentas ante as frivolidades da sociedade e vem comigo, lado a lado, para uma peregrinação noturna nos antros da jogatina. São oito horas da noite, é cêdo, a cidade toda mergulhou na sonolencia, depois do trabalho exaustivo de seus habitantes. Arrulham ainda poucos casais nos bancos de praça, mocinhas acabam de cansar as batatas da perna volteando na pista da Pedro II. Daqui a pouco tudo dorme. Apenas funciona o jogo, a terrível chaga social – sorvedouro da honra de muitos, desgraça de tantos lares, causa de inumeras tragedias. Funciona o jogo, leitor amigo, no centro da antiga Chapada do Corisco – nos clubes, nos bares, em casas particulares, em toda a parte. Desaparecem, no torvelinho medonho da jogatina, o pão, a roupa, o livro, a educação de muitas crianças teresinenses. Esposas aflites rezam no recesso de residencias humildes, chupando muitas vezes a carie de um dente, ou, em cima de três pedras, preparam um ralo mingau de farinha com que entupir o bucho das crianças famintas, enquanto o marido, no covil da jogatina, descarta-se do dinheiro, do relogio e da aliança de casamento para para alimentar o terrível vicio – fumando e bebendo, dores nas costas, debrucado na mesa fatídica, ou avido, nervoso, espiando a roda de roleta, atento ao ruído da palheta, ou, ainda, ouvido apurado, marcando numeros, à espera de que lhe dêem, no víspora, a pedra boa ...

JOGO, MUITO JOGO

- Cinqüenta e cinco ... numero oito ... noventa ...
É a voz arrastada do chamador, anunciando as pedras do víspora, uma a uma, os viciados, palidos  e pigarrentos, marcam os cartões, entre baforada de um cigarro quando estes desgraça os restos de pulmões e o trago de aguardente que lhes corroe as tripas ...
Reino da batota e do deboche – a comunidade de caras mal dormidas se expande, depois do ultimo rateio, no linguajar de calão, parebenizando os felizardos da noite e consolando, com uma palmada nas costas, so companheiros de desgraça e desventura.
Um pouco mais adiante, leitor amigo, o croupier anuncia, com gosto infinito, o ultimo lance da roleta miserável:
- Deu 15, jacaré ... Cercado com dois mil reis.
O desgraçado, mãos nos bolsos, coçando os ultimos tostões do ordenado ou as ultimas economia do pé de meia, lembra-se do sonho de tres dias atras, soma, multiplica, subtrai, divide por dez – e verifica, após maldizer a sorte ingrata, que o bicho era mesmo o jacaré ...

A RONDA DOS AGIOTAS

Não se assuste leitor amigo. Estiremos as peruas um pouco mais, e observemos a praga do jogo. Da Praça Rio Branco à Piçarra, da Piçarra as imediações da Praça Landri Sales, desta a rua Álvaro Mendes, daqui à rua Areolino de Abreu. Das frestas das janelas e das portas, saem os minusculos focos das luzes denunciadoras. Em tudo domina o silencio, impera o sussurro. Poucas vezes reboa a gargalhada. Ouve-se bem o ruído de mãos tremulas traçando o baralho. Poker. Bacarat. Pifpaf.
O Parceiro “chora” as cartas, visando à sensação. “Entrou no meio”, “seus vinte e mais quarenta”, “abro com dez”, “colei uma sequenciazinha” – são as frases ensaiadas, ensarilhadas, engatilhadas ...
Em volta das mesas, as duas qualidades de assistente: o “peru”, que tudo perdeu, inclusive o caminho da honra, e o agiota, na ronda macabra, olhos fitos nas joias do parceiro infeliz, consciencia firme nos 40 % ou 50 % de lucros à custa da vida hipnotizada ...

UMA CARTA E UM APELO

Já vimos muito, leitor amigo, mas não vimos tudo, embora estas pequenas anotações sejam suficientes para uma carta e um apelo, redigidos uma e outro, nos seguintes termos:
“Meu caro delegado Neiva. Estivemos juntos, pela ultima vez, se me não falha a memória, em a noite de 6a. feira. Tornei, nessa ocasião, a falar-lhe do jogo – e mantivemos, sobre o assunto, cordial conversação. Perseguir os pobres e humildes jogadores de sete e meio e relancim, privar-lhes do vicio, processar os pequenos exploradores da desgraça alheia, enquanto os ricos e poderosos, os de gravata e sapatas engraxados, podem, livremente, praticar o poker, o pifpaf, o vispora – é cousa que se não coaduna com o seu feitio moral. A lei das Convenções Penais não faz exceção. Exceção não faz o decreto-lei 9.215, de 30 de abril de 1946, assinado pelo General Eurico Dutra – disse-me você, lembrado talvez de que muitas mães de família lhe imploravam guerra total ao terrível vicio.
Esposas pobres e esposas ricas lhe imploram a esmola do combate ao jogo. Filhos doentes, desnutridos, atacados de lombrigas, olhos remelentos – necessitam dos cuidados que lhes proporcionam os dinheiros sumidos na voragem do jogo. Só voce, meu caro Neiva, com apoio sadio do eminente Governador Rocha Furtado e do ilustre Chefe de Policia, pode dirigir um ultimatum a todos os exploradores, declarar-lhes guerra, aferrolhar os antros, processar os criminosos. Nas suas mãos encontram-se as armas – todas legalissimas – com as quais poderá você aniquilar o mal medonho, que tudo arruina, que tudo avilta, que tudo desgraça.
E depois da limpeza, meu caro Neiva, poderá voce, com a consciencia tranqüila ler esse trecho sublime:
‘Esse mal – o jogo – que, muitas vezes, não se separa do lupanar senão pelo tabique divisório entre a sala e a alcova; essa fatalidade, que rouba ao estudo tantos talentos, á industria tantas forças, á probidade tantos caracteres, ao dever domestico tantas virtudes, á pátria tantos heroismos, reina sob a manifestação completa em esconderijo, onde a palavra se abastarda em calão, onde a personalidade humana se despe de seu pudor, onde a embriaguez da cubiça delira cinica e obscena, onde os maridos blasfemam pragas improferíveis contra a honra conjugal, onde, em uma comunhão odiosa se contraem amizades inverosimeis, onde o menos que se dissipa é o tempo, estofo precioso de todas as obras primas, de todas as utilidades solidas, de todas as ações grandes. Inumeravel é o numero de criaturas, que a tentação, o exemplo, o instinto, o habito, o acaso, a miseria humana, a passar por esses latibulos, cuja clientela vai periodicamente fazer-se apodrecer ali por gozo, por avidez e na corrução, em cujos misterios cada iniciado se afaz a ir deixando ficar, aos poucos, a energia, a fé, a nobreza, o juizo, a honra, a temperança, a caridade, a flor de todos os afetos, cujo perfume embalsa e preserva o caráter’.
Tambem exerci o cargo de Delegado de Transito e Costumes, do qual me exonerei por livre e espontanea vontade, meu caro Neiva. Conheço muito bem as lutas que você está tendo para desempenhar suas funções e corresponder á confiança da sociedade. No exercício das minhas funções tudo fiz para exterminar o jogo, graças a Deus.
Mas não fiz porque se exonerou da Chefia de Policia o Dr. Eurípedes de Aguiar, que sempre me deu inteiro apoio na luta terrível.
Sei que você atenderá, dentro das suas forças e da sua boa vontade, servido por um elevado espírito de honestidade, este apelo.

Um cordial abraço do A. TITO FILHO”.

A. Tito Filho, 11/04/1948, Jornal O Piauhy.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

IMPRESSÕES

Presenciei episódios em que se envolveram Eurípedes e gente que com ele não simpatizava, a exemplo de Edgard Nogueira e Humberto Reis da Silveira - casos de desfechos gozados. Raros jornalistas e homens públicos conheci com tanto humor, tanto sal do espírito, a serviço de fina ironia e contundente sarcasmo. Mas nele coexistiram a honestidade, o brio, o destemor, a paixão de idéias nobres. Honrou os cargos que lhe foram confiados, pelo voto ou pela vontade de governadores.

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Vários companheiros de luta participaram da vida de Eurípedes, como Ofélio Leitão, uma das penas mais fortes e admiradas da imprensa piauiense, pelo asseio da frase, expressão bem construída, afirmação de coragem. Dono de boa e séria leitura. Professor culto, antigo procurador geral da Justiça, faz anos exerce funções advocatícias no Banco do Brasil, a que dedica honestos conhecimentos jurídicos. Cidadão simples, de palestra alegre e jovial, muito amigo do próximo, bondoso com os pequenos, de humanos pecados, da forma que se revelam os construídos do barro bíblico, proprietário, entretanto, de um bocado de virtudes espirituais.

Com os recursos da cabeça, que nele guarda inteligência cultivada e vasto e assimilado conteúdo humanístico, conquistou, numa disputa sem falhas, o justo prêmio da cadeira nº 14 da Academia Piauiense de Letras.

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Nesta conferencia, Ofélio revela-se sóbrio e fiel estudioso dos caracteres humanos. Faz retrato histórico do amigo e companheiro de embates políticos e jornalísticos. Focaliza o ambiente passional em que os fatos se desenvolveram, a constelação familiar do homenageado, os modos de fazer jornal na época - e em tudo põe o olho da verdade, que ele quis e conseguiu prezar acima de tudo, embora a distancia dos anos ainda seja pequena para apagar o fogo dos peitos inflamados pelos entrechoques das odiosidades malsãs do partidarismo sem freio.

Parece que no trabalho se casam, sob as bênçãos de lições de saber, o estudioso e o presenciador dos episódios, ora ricos de valentia cívica, ora graciosos, como se inspirados na verve inconfundível dos franceses.


A. Tito Filho, 22/11/1988, Jornal O Dia.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ARTUR

Nasceu em Jerumenha (PI), a 3 de agosto de 1882, havendo completado, neste ano de 1977, 95 anos de idade. Pais: Raimundo Nonato de Araújo e Maria Madalena de Araújo Passos. Desde muito jovem residiu em Teresina, onde começou a vida como caixeiro. Voltou a Jerumenha depois que o pai morreu. Em princípios de 1898, seguiu para Manaus. Aí ingressou na Policia Civil (escrivão), iniciou também atividades jornalísticas, como repórter.

As saudades da terra e da família impeliram-lhe o regresso a Jerumenha. Festivamente recebido. Depois, fixou-se na capital piauiense: secretário da Prefeitura, administrador do matadouro, Diretor da Imprensa Oficial durante 11 anos. Secretário particular do interventor Vitorino Correia. Chefe da Casa Civil do interventor Teodoro Sobral. Secretário da Bolsa de Valores.

Candidato a prefeito de Jerumenha, obteve fácil vitória. Realizou administração profícua e honesta: escolas, luz elétrica, praças, campo de aviação, auxílio a lavradores, estradas.

Membro do Congresso de municípios em Teresina e Petrópolis (RJ). Neste último apresentou trabalho de grande valor sobre autonomia municipal, elogiado por todos os participantes - trabalho depois publicado.

Em seguida, vereador de Teresina, mais de uma vez, desempenhando o mandato com consagrado espírito público.

Publicou: "História, Economia e Lendas", "Conceito Político-Social do Município", "Dois vultos piauienses", em que estuda as personalidades de Clodoaldo Freitas e Manuel de Sousa Martins (visconde da Parnaíba); "Lendas e Fatos" (crônicas do rio Gurguéia); "Esboço de um perfil", magistral estudo sobre Higino Cunha; "Folclore Piauiense", "Abdias Neves - homens e eventos de sua época" e "Nas Ribas do Gurguéia".

"Guardou sempre, porém, com avareza de rico, os velhos tesouros espirituais de aspirações literárias, de imaginação e de fecundas memórias de remota vida aldeã. E quando a idade avançando veio restaurar e redobrar o foco dessas memórias, sob o fadário crepuscular de só rejuvenescermos pelas recordações dos rincões distantes e dos deleites da vida principiante, ele empreendeu o regresso literário a velha aldeia. Este livro (Lendas e Fatos) é a devolução afetiva de Artur Passos a gleba inesquecível. O denso fluxo emotivo desta devolução alteou-lhe a inspiração e reverdeceu-lhe o estilo, para que assim remoçado pudesse ele reviver, com sabor nostálgico, os aspectos, as imagens e episódios vivos e significativos da geografia humana e social do vale do rio Gurguéia" sobre o livro citado expressou a fulgurante inteligência de Cláudio Pacheco.

Fontes Ibiapina, considerou-o dum linguajar diáfano, dum estilo transparente.

Vidal de Freitas chamou-lhe contista exímio.

O filho talentoso (Hélio Passos) fez-lhe admirável retrato no livro "Minhas Memórias de Meu Pai", de que se destaca este trecho: "Enfim, um altruísta. Um pai com açúcar. Superando o conceito de que o homem é feito para viver a vida e não compreendê-la, ele tem o poder de realizar uma cousa e outra. Sua ternura pela família e pelos amigos é qualquer cousa de sobrenatural. Só que não proclama isso, temendo vulgaridade". A respeito desse livro A. Tito Filho anotou: "Tenho que notável em Artur Passos, e que você ficou admiravelmente, é a lição de infância que Manuel Bandeira contou - aquele espírito de infância capaz de criar, como disse Barnanos. Toda criança atrai, todo varão solene faz bocejar - é eloqüente verdade que sustentou Afonso Arinos. O segredo de Artur Passos está na infância, na ausência do espírito de velhice".

Uma das maiores figuras do jornalismo piauiense, deu vida e alma ao "Diário Oficial" do Piauí durante anos. Modernizou-o. Tornou-o lido pela comunidade teresinense. Chamou-se Artur de Araújo Passos.


A. Tito Filho, 18/08/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O SEMANA

Antônio Lemos foi das maiores vocações de lutador da imprensa piauiense, de coragem exemplar no ardor das campanhas que empreendia. Antônio Lemos, o Semana, como era conhecido, gozou de grande admiração e respeito, pela firmeza com que defendia convicções e pela inabalável posição de defesa dos ideais de liberdade do jornalismo. Nada receava, nem jamais desertou da tribuna de luta.

Colheu-o a morte aos 78 anos incompletos, pois nasceu no dia 24 de novembro de 1889.

Foi, durante alguns anos, guarda-livros de várias firmas desta capital, transferindo-se em 1917, para Floriano, onde fundou o jornal "Cidade de Floriano". Regressou a Teresina em 1921, retornando às atividades contábeis.

Em 1930 criou "A Liberdade", com Leão Marinho e Nonato Marinho, jornal que sustentou luta até a queda do governo de Humberto de Areia Leão. Residiu na antiga Flores, hoje Timon, fundando a "Gazeta de Flores", com os filhos Alberoni e Alborina. Ao tempo da revolução de São Paulo, 1932, foi preso pela policia do interventor Landri Salis, readquirindo a liberdade após 19 dias de encarceramento. Em 1935, ainda com Leão Marinho, fez circular "O Libertador". Surgiu em 1937, sob sua orientação, o "Almanaque Piauiense". Posteriormente, com Alberoni e o irmão Prof. B. Lemos, transformou o semanário "Gazeta" em órgão diário, fechado em 1944, durante o período ditatorial do presidente Vargas. Foi um dos fundadores de "O Pirralho". Passou a residir no Rio de Janeiro a partir de 1949, sempre escrevendo na imprensa de sua terra como correspondente do jornal "A Luta", fundado por Tito Filho, Alberoni Lemos e Fabrício de Areia Leão.

Com a morte de "velho Semana" - o admirável e corajoso Antônio Lemos - perdeu o Piauí uma notável figura de sua imprensa, criador de jornais, fazedor de jornais, conhecedor de todos os segredos das oficinas e da redação jornalísticas.

Ao tempo do 1º Centenário de Teresina, brindou a nossa História com este notável estudo sobre o vigário Mamede, o primeiro sacerdote que celebrou missa na Chapada do Corisco e depois quando da inauguração da igreja do Amparo.


A. Tito Filho, 04/09/1988, Jornal O Dia. 

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O DIA: história e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examina-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia.            

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ODYLO FILHO

Nasceu em São Luís do Maranhão, a 14.12.1914. Pais: Odylo de Moura Costa e Maria Aurora Alves Costa. Estudou em dois educandários de Teresina: Colégio Coração de Jesus e Liceu Piauiense (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis). Bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1933). Secretário de Imprensa da Presidência da República (governo Café Filho). Superintendente das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União (Rio). Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa (1965-1966).

Grande jornalista. No Rio, foi redator do "Jornal do Comércio", fundador e diretor da "Política de Letras", diretor de "A Noite", "Tribuna de Imprensa", e da revista "Senhor", diretor de redação de "O Cruzeiro". Trabalhou no "Diário de Notícias" e chefiou a redação de "Jornal do Brasil". Secretário do "Cruzeiro Internacional". Dirigiu a Rádio Nacional. Diretor de redação da Editora Abril. Em São Paulo, diretor de "Realidade". Articulista exímio. Ressuscitador de jornais mortos - conforme ao batismo de Rachel de Queiroz.

OBRA

Editor de "Seleta Cristã" (1932). Estréia literária: "Graça Aranha e Outros Ensaios" (1933), prêmio Ramos Paz, da Academia Piauiense de Letras; "Livro de Poemas de 1935", em colaboração com Henrique Carstens; "Distrito da Confusão", artigos de jornal, em que criticava a ditadura de 1937; "O Balão que Caiu no Mar", peça infantil; "Tempo de Lisboa e Outros Poemas", "Cantiga incompleta". Novelas: "A Faca e o Rio", "A Invenção da Ilha da Madeira", "Conto de Natal: história de seu Tomé meu pai e minha mãe Maria". Escreveu vários ensaios políticos de pulso, entre os quais, "Salazar: agonia e queda".

Como se vê, Odylo foi com invulgar grandeza, jornalista, teatrólogo, autor de literatura infantil, conferencista, romancista, cronista, crítico literário e poeta. Nesta última condição está incluído por Manuel Bandeira no rol dos poetas bissextos, que ofereciam concepções de tempos em tempos. Duas grandes dores – a perda da filha e do filho Odylo Neto, este em circunstâncias trágicas, desabrocharam nele uma série de poemas admiráveis, como salientou Manuel Bandeira.

Ressalte-se que o Piauí e o Maranhão vivem permanentemente na obra de Odylo.

Odylo ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1969. Recebendo-o, Peregrino Júnior lembrou que nele havia ainda o cronista ágil, fluente, a vocação dramática, o teatro de diálogo ágil, de ternura e graça. Sustentou que o novo acadêmico detinha todos os segredos da técnica do verso. Cada soneto que escreveu é uma obra-prima – escreveu.

Nome completo: Odylo Costa Filho. Faleceu no Rio de Janeiro.


A. Tito Filho, 12/10/1988, Jornal O Dia.  

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

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Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

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Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia.
 

quinta-feira, 10 de junho de 2010

CROMWELL

Nasceu em Amarante (PI), a 28-12-1883, e faleceu em Teresina a 10 de novembro de 1974. Filho de Raimundo Barbosa de Carvalho e Júlia Maria Gonçalves. Estudos primários na terra natal. Cursou o Seminário da Prainha (Fortaleza). Transferiu-se depois para o seminário de Santo Antônio (São Luís). Por motivo de saúde, voltou a Amarante e, em 1901, matriculou-se no Liceu Piauiense, de Teresina, efetuando, no fim do ano, todos os exames preparatórios de uma só vez. Professor de Português em Amarante. Agente Fiscal do Imposto de Consumo. Em 1903, era aluno da Faculdade de Direito do Recife. Colou grau em 1907. Regressou ao Piauí, exercendo os seguintes cargos: Juiz Distrital em Valença do Piauí, Juiz de Direito em Floriano, Procurador dos Feitos da Fazenda Nacional em Teresina, Promotor Público em Caxias (MA) - cidade em que se casou com Virgínia Wall de Carvalho. Retornando ao Piauí em 1932 foi nomeado representante do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas. Secretário de Estado do Governo (administração de João Luís Ferreira). Promotor de Justiça Criminal de Teresina no governo Matias Olimpio de Melo. Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí, de 1927 a 1930. Chefe de Polícia (Governo Leônidas Melo).

Como jornalista fundou "O Operário", em Amarante, e "O Bloco", em Caxias. Colaborou em "Jornal do Piauí", escrevendo crônicas, sobretudo.

Um dos fundadores da Faculdade de Direito do Piauí, da qual foi professor de Direito Penal e diretor, durante muitos anos.

Escreveu primorosas poesias e notáveis estudos jurídicos.

Obra principal: "Município versus Estado", em que estuda, com abundância de conhecimentos, a autonomia municipal em face da Constituição Federal de 1891.

Cromwell Barbosa de Carvalho foi recebido na Academia Piauiense de Letras, como titular da cadeira nº 3, por Cristino Castelo Branco, dia 7-9-1925. Tinha-o a mocidade como dos mais justos e cultos mestres do Direito. Estudioso e de extrema fidelidade à missão de educador, engrandeceu o magistério, na amizade com os jovens, na apostolar dedicação, às aulas, na luta constante em favor da Casa que foi, em determinada época de sua vida extraordinária, a preocupação maior dos seus esforços - a Faculdade de Direito do Piauí, que ele dirigiu por longos anos, fê-la respeitada, torno-a o centro maior da obra educacional superior em nossa terra e conseguiu, com tenacidade e abnegação, federalizá-la em 1950. Cromwell projetou-se, pela inteligência aprimorada, na vida intelectual do Piauí, o que lhe valeu, com justiça, assento na Academia Piauiense de Letras. Poeta, jornalista, professor, jurista - deixou ao patrimônio espiritual do Piauí valiosa produção, entre a qual se destaca obra de mérito - o profundo estudo de sociologia e direito, intitulado “Município versus Estado", fonte de inumeráveis consultas, tal a segurança de conceitos e as teses defendidas pelo inesquecível conterrâneo.

Conseguiu a federalização da Faculdade de Direito do Piauí, em 1950, no governo do presidente Dutra - a primeira escola superior que integrou nossa Universidade Federal.


A. Tito Filho, 01/04/1988, Jornal O Dia.