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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O DIA: história e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examina-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia.            

sábado, 27 de março de 2010

CAPITÃES DA AREIA

Este ano de 1987 "Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. TITO FILHO, 07/11/1987, JORNAL O DIA

sábado, 20 de março de 2010

OS DOIS REGIMES

Para mim, todos os regimes de Governo são bons, desde que os homens tenham asseio moral e competência para o desempenho de suas funções. Só não prestam as ditaduras - e estas não constituem regime político, mas aberração. Agora se diz que o presidencialismo brasileiro nunca prestou, tem sido de muita instabilidade. Renunciou Deodoro. Assumiu Floriano, que enfrentou duas revoluções. No Governo Prudente houve Canudos. Revolta contra a vacina no tempo de Rodrigues Alves. O presidente Hermes enfrentou agitações. Chegaria a época do tenentismo. Revolta do Forte de Copacabana. Coluna Prestes. Derribada de Washington Luís. Até 1930, os eleitos governavam todo o mandato, com exceção do que morreu presidente, Afonso Pena. A bagunça generalizada começou com o golpe de 30. Getúlio passou 15 anos, de rasteira em rasteira. Caiu em 1945. Governo de transição. Em seguida, Dutra, e novamente Getúlio, morto com as próprias mãos no Catete. Assumiu Café Filho, golpeado. Carlos Luz também. Nereu Ramos encarregou-se de transmitir o cargo a JK. Reino do renunciador Jânio. Vice Goulart na chefia, casuísmo parlamentarista, plebiscito, retorno ao presidencialismo, queda do presidente. Vinte anos de severa ditadura. Morte de Tancredo, o maranhense Sarney na crista da onda, ainda no lugar. e no regime parlamentar do Império? Dom Pedro sagrou-se imperador a 1-12-1822. Um ano depois, dissolveu a Constituinte, prendeu deputados, e acabou outorgando a Carta Magna. Em 1824, a Confederação do Equador. Correm os anos. Noites das Garrafadas. Abdicação. Regências. Revolução de Miguel de Farias. Abrilada. Cabanagem. Guerra dos Farrapos, revoltas no Pará. República de Piratini. Sabinada. Invasão de Santa Catarina. Balaiada. Maioridade de Pedro II. Revoltas em Minas e São Paulo. Praieira de Pernambuco. Questão religiosa e prisão dos bispos. Libertação dos escravos em 1888. Queda do Império. Expatriamento do monarca e da família imperial.

Não se fizeram referências a guerras no exterior, nem a revoltazinhas internas como as duas contra Juscelino e até uma no Piauí chefiada pelo cabo Amador, do Exército nacional.

Pedro II passou 49 anos como imperador do Brasil. Até 1930, os presidentes cumpriram os mandatos respectivos. A geral confusão, com três ditaduras violentas, teve início depois da queda de Washington Luís: de 1930 a 1934 (ditadura Vargas), de 1937 a 1945 (Estado Novo - cruel ditadura getuliana), 1964 a 1984, terrível regime militar.

O Parlamentarismo vigora na Europa, na Ásia, em alguns países africanos e alguns americanos com excelentes resultados e forte estabilidade. O presidencialismo participa mais das Américas, sobretudo a do Sul, em que o presidente tem mais poderes pessoais do que vários sobas africanos. No Brasil, em matéria de regime, parlamentarismo ou presidencialismo, no momento, qualquer que seja adotado será regime vicioso e viciado, pois os políticos são os mesmos em cada um deles.

A. Tito Filho, 03 de dezembro de 1987, Jornal O Dia

sábado, 6 de março de 2010

PORTUGUÊS

Garotote ainda, eu gostava de ler romances. Havia a loja do Juca Feitosa, em Teresina, e ali a gente adquiria Júlio Verne, os livros de aventura da coleção Terra, Mar e Ar, sempre o herói contra os bandidos. Comprei e li as obras completas de José de José de Alencar e algumas dos portugueses Camilo Castelo Branco e Pinheiro Chagas. Gostei do mineiro Bernardo Guimarães e do autor de A MORENINHA, Joaquim Manoel de Macedo. Nesse tempo de vendiam livros de uma coleção de reduzido tamanho, autoria de franceses, ingleses e russo, em traduções excelentes. Lembro-me da leitura que fiz de obras de Zola, Onnet, Dostoiewski.

Gostava de Emílio Salgari e do Tarzã, de Burroughs.

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Meu pai possuía boa biblioteca, em que se destacavam obras jurídicas. Mas havia também obras de literatura e uma boa quantidade de livros de português, especialmente gramáticas e algumas de dúvidas de linguagem e ensinamentos de correta escrita das palavras, como as lições do lusitano Cândido Figueiredo. Lia constantemente as vaidosas explicações desse sujeito de grande aceitação na sua pátria de origem. E tomei gosto pelo assunto. Na antiga biblioteca pública da Casa Anísio Britto adotei como leitura predileta obras de Xavier Fernandes e outros estudiosos de questões de linguagem. Professor de português, li Said Ali, Pedro Pinto, Silveira Bueno, Vitório Bergo, Napoleão Mendes de Almeida, Martinz de Aguiar, Tenório d’Àlbuquerque e quantos mais, meu Deus. Aprendi uma porção de lições úteis e também gravei na memória invencionices, e ordenamentos inconsistentes.

Nesta coluna já me referi aos trabalhos, em três volumes, de Cineas Santos, bons de aprender, pois são simples e de clareza que ninguém esquece.

X X X

Ganho agora presente valioso e de raro método, PORTUGUÊS COMPLETO, no seu primeiro volume, e do qual se esperam mais dois, com um total de três mil questões resolvidas.

Assina-o um mestre da língua portuguesa, que tive a honra de ter como aluno, nos tempos do curso ginasial e do científico. Estudioso, fez da língua pátri instrumento de trabalho e de muito saber e muito escrever bem ultrapassou o velho e modesto professor. Refiro-me a William J. Silva, cujos serviços aos moços têm merecido aplausos da sociedade teresinense.

Neste PORTUGUÊS COMPLETO está a linguagem e nele se podem anotar a correção simples dos defeitos comuns em que laboram moços e velhos, homens e mulheres na fala quotidiana e na comunicação escrita do pensamento.

Li o livro de fio a pavio. Corrigi alguns defeitos em que eu estava acostumado.

As lições de William J. Silva são acessíveis a todos, a principiantes e aos que labutam no uso correto da linguagem humana.


A. Tito Filho, 31 de março de 1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 5 de março de 2010

ANÍSIO

Nasceu em Piracuruca (PI), 1886, e faleceu em Teresina, 1946. Cirurgião-dentista, exerceu atividades profissionais em Piracuruca e Teresina, deixando-as para dedicar-se ao magistério e às letras. Na capital piauiense desempenhou altas funções públicas, com acendrado espírito de responsabilidade: conselheiro municipal (vereador), redator-chefe e diretor da Imprensa Oficial, Diretor (quatro vezes) do antigo Liceu Piauiense, Diretor da Instrução Pública e da Biblioteca, Arquivo e Museu do Piauí, instituição que hoje lhe homenageia a memória com o nome de Casa Anísio Brito. Professor de história, português e literatura. Era profundo conhecedor da história do Piauí.

Projetou-se ainda como educador experimentado e consciente, esfera em que escreveu trabalhos de valiosa leitura, como "Ligeira Notícia sobre o Ensino Público", "Do Ensino Primeiro" e "A Reforma Atual e o Ensino Normal e Secundário". Ofereceu sérios subsídios para a renovação educacional no Piauí. Introduziu vários melhoramentos no ensino, especialmente em música e educação física.

Sobre a história, publicou: "A quem pertence a Prioridade Histórica no Descobrimento do Piauí?", "Independência do Piauí", "A Adesão do Piauí à Confederação do Equador", "Os Balaios no Piauí", "Contribuição do Piauí à Guerra do Paraguai", "Ligeira Notícia sobre o Jornalismo", "Piracuruca" e várias páginas do verbete Piauí no "Dicionário Histórico e Etnográfico do Brasil", publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Conferencista ilustrado. Foi sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, a que presidiu, sócio correspondente de idênticas sociedades do Pará, do Ceará, da Bahia e membro da Sociedade Numimástica Brasileira.

Organizou o acervo de documentos do Arquivo Público do Piauí. Enriqueceu-o com valiosos documentos, dos municípios e de outros Estados.

Odilon Nunes a ele se refere com estas palavras: "Assim propende para a história pragmática, tendência que sempre revelam os historiadores que, como ele, também se dedicam ao magistério. Contudo, escreveu história genética, pois vemos em seus trabalhos a tendência para o revisionismo histórico, especialmente sob o ponto de vista factual e também sua notável contribuição ao incorporar a nossa historiografia valiosos documentos inéditos, ampliando as fronteiras de nossos conhecimentos".

Chamou-se Anísio de Brito Mello. Brilhantes as solenidades promovidas pela Secretaria de Cultura e pela Academia Piauiense de Letras no primeiro centenário.


A. Tito Filho, 03 de setembro de 1988, Jornal O Dia.