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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

AINDA POESIA

Sobre o livro NA BOCA DO VULCÃO, de Nelson Nunes, recebi do escritor João Aragão, expressivo e notável nome da literatura fluminense, o seguinte comentário:

Bem, os artistas são mesmo uns seres estranhamente inquietos, acoçados pela necessidade orgânica de inovar, não deixando pedra sobre pedra no afã de imprimirem formas modernas, nova roupagem a seu juízo estético, seu conceito de BELO. Miró versos Rambrandt.

E assim talhou sua obra o poeta Nelson Nunes. Equilibrou seu pensamento pujante na crista da "new wave", deixando pra lá, por supérfluas, pontuação e forma externa do verso.

Não sei se Manuel Bandeira ilustre modernista pernambucano do Recife, desejava execrar também a memória de Castro Alves, ou pisotear apenas os virtuosos do ritmo e melodia das palavras, Alberto de Oliveira e Bilac, quando assestou suas verrinosas baterias na direção dos parnasianos:

"o sapo-tanoeiro,
parnasiano aguado,
Diz meu cancioneiro
é bem martelado"

Ou, em POÉTICA:

"estou farto do lirismo comportado,
abaixo os puristas,
todas as construções, sobretudo as sintaxes
de exceção"...

Se o pretendeu, aprece-me ter-se mostrado um tanto radical, não perdoando aos outros mortais a audácia de manifestar suas estruturações estéticas. O que, todavia, não torna lícito a ninguém cair em vindita, criticando com ortodoxia métrica e estética destes belos versos, apontando neles como que uma perna curta e outra longa. Bêbado caminhando ao longo do meio fio, um pé em cima outro em baixo:

"A ausência é um estar em mim.
Sinto-a, branca, tão pegada aconchegada nos meus braços".

(São versos de Carlos Drummond de Andrade, poema "Ausência", livro CORPO).

Ora, falávamos de Nelson Nunes, poeta de excelente potencial, largos recursos, ligado à vida, às coisas que nos cercam; e falando de "O poema e a máquina", quase definiu a impossibilidade real de um artista julgar a outro artista:

"Um homem mais outro homem
não fazem um destino
Serão sempre um homem e outro homem
a correrem como dois rios paralelos".

Porque dos homens, um é tuberculoso inválido, o outro é atleta olímpico. Um favelado, outro é doleiro, ou deputado federal. Um eunuco, outro garanhão e um le gibi e outro Mallarmé. Não há o que nivele seus gestos literários.

Nelson Nunes, todavia, modismos à parte, sabe bem como nascem os belos poemas (e outras coisas também...):

"A língua quente entre os dentes
o rabo lúbrico entre as pernas
de repente
como a um cigarro
entre os dedos trêmulos
acende-se o poema".

Já nos dera cartão de visita, na "Abertura":

"Não há muro tão consistente
que não possam atravessá-lo
a água o musgo o poema".


A. Tito Filho, 29/09/1988, Jornal O Dia

domingo, 16 de janeiro de 2011

LEITURA

Com a verdadeira revolução cultural que representou a década de 60, o mundo ocidental passou e vem passando por inúmeras transformações em seus costumes. Umas dessas vertentes foi nossa aproximação com o Oriente, sua filosofia, sua forma de ser. Dentro desse quadro, tem aumentado, intensamente o interesse pela ioga. No decorrer dos últimos anos, milhões de pessoas, em todo o mundo, se aproximam desta filosofia e respectivas técnicas, buscando ampliar a sua vivencia a nível emocional, espiritual e físico.

Em TRANTA, A IOGA DO SEXO, o leitor encontrará tudo isso, com uma visão voltada mais especificamente para o aspecto sensorial e sexual do ser humano. Esta valorização do ser se baseia em toda uma filosofia nascida e desenvolvida na índia entre os séculos VII e XV D.C., e que apresenta ligações coma própria psicanálise ocidental deste século. A obra traz aspectos teóricos e filosóficos e também toda uma parte prática, com exercícios para o dia-a-dia. Siga estes passos e viva melhor com você mesmo e com o outro.

Omar Garrison, o autor, é um destacado correspondente internacional. Estudou para ordenar-se padre na Igreja Episcopal antes de se fascinar com a filosofia hindu e o Tantra, que estudou na Índia.

As crianças estão na ordem do dia: na Constituinte brasileira, nos jornais e no coração de todos os pais e cidadãos responsáveis. Elas querem ver os seus direitos reconhecidos, preto no branco, direitos que, na realidade, sempre tiveram. E, no entanto, a violência das sociedades modernas não respeita ao menos as crianças.

E foi nesta linha de pensamento que a escritora norte-americana Mary Higgins Clark criou uma obra de ficção literária que, na realidade, tem muito a ver com o dia-a-dia de todos nós.

O cenário é tranqüilo, bucólico, de mansões espalhadas entre jardins vistosos e, ao fundo, os braços de mar do Atlântico formando ilhas, estreitos, baias e pequenas enseadas.

As crianças são encantadoras, inteligentes, vivas. Seus pais aparentam a calma dos que tem os seus problemas resolvidos.

E, de repente, a agonia começa. As crianças desaparecem, o passado de sua mãe é revirado pelo policia. Volta o pesadelo das incertezas e das suspeitas.

Entretanto, chegando ruídos difusos, soluços, pragas refreadas, gritos abafados de crianças. É um pesadelo transformado em realidade, uma história comovente, de interesse inescapável, de suspense e terror.

Mary Higgins Clark, que muitos comparam a Doris Lessing, conseguiu o sucesso internacional, justamente, com o livro ONDE ESTÃO AS CRIANÇAS?, seu primeiro romance de terror. Depois, publicou "A stranger is watching" (1978), "The Craddle sill fall" (1980), "A Cry in the Night" (1982), "Stil Watch" (1984), "Weep no more, my Lady" (1987), que irão aparecer no Brasil.


A. Tito Filho, 15/06/1988, Jornal O Dia 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

USA E OS NEGROS

O romance de Margareth Mitchell "E o Vento levou..." conta a história do sul dos Estados Unidos, com seu algodão, o seu tabaco, a sua opulência, o seu luxo, os seus saraus de mil-e-uma-noites e os seus escravos - os pretos que trabalhavam a terra e faziam a riqueza do branco. Nesse ambiente, vivia Scarlett O'Hara, mimada de todos, inclusive de mucama de cor, uma negra gorda de voz metálica. O livro é a própria paisagem humana e social do negro, num instante em que o problema começava a preocupar a politica da nação americana. O sul mantinha o escravo para o trabalho da terra, a quem se davam casa e comida por conta do esforço. O norte convocava o braço negro para a indústria, acenando-lhe com liberdade e salário. Sul escravocrata e agrícola: norte industrial e abolicionista por força do processo econômico.

Estados Unidos e Brasil buscaram [no] negro o elemento humano para o trabalho do campo. Foi ele, o negro, o sustento de uma organização política e social agrária em seus fundamentos. Considerado tipo inferior, o regime de igualdade resultante da abolição não foi aceito pelos brancos. Nos Estados Unidos as primeiras manifestações desse ódio racial partiram dos negros. Vencido o sul na Guerra de Secessão, derrotada a escravatura, os brancos do norte, raposas políticas, serviram-se do negro para incutir-lhe a vingança contra o antigo senhor - e a violência negra no sul, logo depois da vitória do norte na luta civil, tornou-se rotineira.

Os incautos sempre dizem que no Brasil não há preconceito de cor. A verdade e que aqui vigora o preconceito, embora não assuma o caráter de segregação, como nos Estados Unidos vigora veladamente em alguns pontos do país e em certos grupos sociais. No Brasil, como lá, em quase todas as camadas brancas prevalece o assentimento de que o negro é inferior - tese que não encontra mais adeptos, uma vez que a inferioridade dos homens não reside na cor da pele. Inferiores são os povos economicamente explorados. E recorde-se que a abolição, no Brasil, não acarretou os males que a mesma abolição impôs aos Estados unidos. Os escravos aqui continuaram a participar do trabalho da terra. Apenas o imperador perdeu a força politica dos latifundiários, e caiu. Na América, não. O rico sul americano, com a guerra, passou a terra arrasada. Extinguiram-se fortunas. Ainda hoje o sul dos Estados Unidos é pobre e sofredor. As suas comunidades federadas menos expressão politica possuem. A Virgínia, que sempre elegia os filhos ilustres para a presidência da República, agora possui a simples representação no Senado e na Câmara. Os presidentes saem do leste, do centro, do oeste, industrializados e também fortemente agrícolas. O negro correu do sul em busca do salário pelo trabalho. É verdade que o sul tem a maioria dos negros americanos, mas confinados pela segregação, vivendo de pequena lavoura e de empregos domésticos ou de serviços humildes em transportes, engraxatarias e hotéis.


A. Tito Filho, 06/05/1988, Jornal O Dia. 

domingo, 5 de dezembro de 2010

OESTE

Andei lendo recentemente que morreu Louis L'Amour, um dos mais férteis escritores sobre o oeste norte-americano. Um dos seus livros foi publicado faz pouco tempo em português, com o título A TRILHA DOS FORA-DA-LEI, que no original inglês se chama RIDE THE DARK TRAIL. Gostei de mais um livro de aventuras de caubóis da época dos conquistadores e dos choques com os índios, cruéis e hostis na defesa do seu patrimônio. Era o reino do gado e do ouro da Califórnia, um mundo novo, selvagem com os fracos, dos homens de ferro, cuja vida dependia da faca e do revólver. Violência é a história da estrada de ferro e a do telégrafo. Um mundo de liberdade para libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Quem não se recorda do SALOON? Lei da pistola sobre o balcão de bebida e sobre a mesa das cartas de baralho, do xerife selvagem e do pistoleiro heróico. Quanta recordação tenho de Búfalo Bill, Calamity Jane, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret, Jesse James, Doc Holiday, Bat Masterson, nomes que o livro, o cinema e os quadrinhos se encarregam de universalizar e que ganharam popularidade.

Nunca esqueci os nomes célebres dos atores cinematográficos que participaram de filmes inesquecíveis a respeito do oeste. A história dos rios de gado, do ladrão de reses, do perigo, a história de um excesso de vitalidade. Álcool e pistola, pôquer e roleta, matanças, a lei do COLT, num ambiente de apetites sexuais de seres viris sem que houvesse mulheres. Daí o mito da mulher como demonstrou André Bazin. Ainda a meretriz desses tempos era redimida, como a gente vê nos filmes, pelo amor ou pela morte.

Sempre me atraiu a literatura do oeste dos Estados Unidos. Fenimore Cooper, Zane Grey e outros povoaram a minha imaginação de aventuras, de desafios, de heróis e heroínas contraditórios. Dos atuais autores Dee Brown está na minha admiração, com obra segura, iniciada com um romance baseado na vida do desbravador David Crockett. Esse escritor fez relatos históricos que deram nova feição aos estudos sobre a conquista do oeste, como ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO.

Nunca pude esquecer Gary Cooper, Buck Jones, Tim McCoy, John Wayne, que interpretaram os melhores filmes de faroeste, e ainda hoje eles me reaparecem na televisão, em histórias saudosas, como NO TEMPO DAS DILIGENCIAS e do maravilhoso JORNADAS HERÓICAS. Que dizer dos seriados da adolescência dourada, quando a gente via semanalmente um pedaço do filme, aguardando-se de modo ansioso o domingo seguinte?

Não durmo, nas minhas noites teresinenses, sem a leitura de um bom livrinho de caubói. O saloon, o forasteiro, o uísque ordinário, os revólveres de cada lado do tipo, o pôquer, a corista, o sujeito do piano desafinado, os bandidões barbudos, cuspindo o pretume do tabaco, a mocinha da cidade, toda pureza, a pradaria, o deserto e as serpentes, o lacrau, a forca. De tudo resta o assalto a banco, um assalto mais civilizado.

Não sei se morreu mesmo Louis L'Amour, que de vez em quando me concedeu bonitas páginas de aventuras do velho oeste para que eu matasse as saudades de filmes da meninice risonha.


A. Tito Filho, 04/08/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

PROSA BONITA

Menino do Bandolim, de Tobias Pinheiro. Livro que revela o poema da infância e da mocidade. Bandolim é o nome do engenho de moer cana, no Brejo dos Anapurus, Maranhão, sítio de peraltices e de inspiração desse eterno enamorado das coisas simples e bonitas, que é Tobias.

Os cenários se vão transformando, página por página. Agora, São Luís, as primeiras letras, a palmatória, as visitas ao Piauí, pois o autor é piauizeiro - gente que nasce noutro lugar e se encanta pelos rios em que se banha Teresina.

E os episódios surgem, tirados de uma memória de guardar coisas ternas, espiritualmente ternas: o Natal e a Semana Santa. Personagem de encantamento: a vaca Baié. Gente de fazenda de gado sempre há de contar estórias de uma vaquinha paciente, de leite gostoso, espumante, manhã cedo. E aparece o saudoso poeta, nosso Mário Bento, guardador de pássaros e jumentos em gaiola, dono de uma poesia de humildade e plenitude.

Nada se esquece no livrinho danado de emoções: a praça Rio Branco, tão tranqüila e maledicente, o folclore piauiense, a economia do Maranhão, a viagem ao estrangeiro para ver Dacar, no Senegal, quente como diabo, mas onde pontifica um poeta divino, o presidente Senghor. E Lisboa, a do fado, da bacalhoada e do vinho generoso como o coração de sua gente.

Tobias me roubou uma madrugada de sono, mas lucrei. Lucrei lembranças, lucrei estilo, lucrei prosa que sabe a gestos de eternidade.


A. Tito Filho, 18/12/1988, Jornal O Dia.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

LIVROS

Quais são as grandes questões da literatura contemporânea americana? No romance, a ficção étnica e metaficção estão em conflito permanente, mantendo suas características e seus públicos distintos. No teatro, o retorno ao gestual, ao ritual e à mímica revigoram a dramaturgia. E a poesia busca falar mais simples e diretamente a um público cada vez maior.

Tendo como pano de fundo o panorama sempre móvel da vida nacional americana, A Literatura Americana Pós-1945 realiza uma importante revisão das tendências e movimentos literários nos últimos quarenta anos, focalizando não apenas os grandes nomes, mas também os autores significativos, mas menos populares. Mais de trezentos romancistas, poetas e dramaturgos, aqui estudados, entre eles Saul Bellow, Tennessee Williams, Eugene O'Neill e Arthur Miller.

Robert F. Kiernan é o autor de um estudo profundo sobre Gore Vidal e colabora para a "Encyclopedia of World Literature in the 20th Century", da Editora Ungar, da qual é consultor sobre literatura americana. Professor de inglês e de literatura mundial na Manhattam College, publica artigos em importantes publicações literárias.

Yvonne R. de Miranda marcou o ano de 1986 com um original livro sobre as excursões internacionais, que agradou plenamente pela franqueza e espírito com que expõe esse tipo de  viagem, fugindo aos depoimentos habituais. Agora, em 1987, volta ao gênero contos com O CALÇÃO VERMELHO. E, mais uma vez, a escritora se impõe pela facilidade com que liga o seu leitor aos dramas das suas personagens, fazendo-o o vibrar com suas alegrias ou frustrações mesmo quando não se identifique com elas. É a vida alí ao nosso alcance, como se vista de uma janela. Mesmo o marginal de "O Calção", por um momento, consegue transmitir ao leitor um elo de compreensão humana, suavizando a repulsa pela figura do assaltante, tão temida e odiada atualmente.

Como Machado de Assis e outros grandes escritores, Yvonne R. de Miranda fotografa a sua época com grande fidelidade e a criatividade que se faz necessária para prender permanentemente a atenção do leitor.

A autora iniciou a sua carreira literária através do conto. Premiada em concursos da "Revista da Semana" e de "A cigarra", seu primeiro livro ONDA RUBRA, foi de contos.

Elói Pontes, na época o colunista literário de "O Globo", previu para a estreante sucesso no gênero, destacando seu estilo de marcante atualidade, assim como a facilidade da nova contista de retratar os sentimentos do povo.

Ela escreveu quatro romances, e livros de memórias, mas permaneceu uma grande contista. A vida palpitando em suas histórias, até em seus mini-contos, todos marcados pela valiosa característica do bom contista de condensar em poucas páginas momentos culminantes de cada vida. Excelentes flashes, onde transparecem seus vinte anos de jornalismo.


A. Tito Filho, 21/07/1988, Jornal O Dia.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TEMPO DE LEITURA

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto, gente idosa, parentas velhas, caboclos da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos - e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exercito Nacional. Momentos felizes e alegres, dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos dez anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de vária mercadoria, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo - "Tristeza a Beira-Mar", de Pinheiro Machado. Vendia-se também a Coleção SIP, constituída, de romances "de aventura e de amor", que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escritura MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis - e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos, apreciei "A patrulha da madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda. Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem a lua. Li quase tudo admirável do francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs - e pratiquei-a de fio a pavio, como se houvesse ditame de um pacto governamental da era politica cujo inicio se deu em 1964.


A. Tito Filho, 13/12/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

JÔNATAS

Um dos dez fundadores da Academia Piauiense de Letras. Nasceu no povoado Natal, no município de Teresina, hoje município de Monsenhor Gil, a 18-4-1885. Faleceu na cidade de São Paulo (15-4-1935). Pais: João José Batista e Rosa de Jericó Caldas Batista (filha de David Caldas). Cargos exercidos: escrivão da Mesa de Rendas de Teresina, promotor público em Altamira (Pará), escriturário da Delegacia Fiscal de Belém (PA) e secretário da Recebedoria Federal de São Paulo.

Jornalista, poeta, conferencista, teatrólogo, escreveu ainda vários trabalhos de critica literária.

Foi intensa a sua atividade jornalística em Teresina. Redigiu: "Tribuna Operária" (1895), "A Palavra" (1902 a 1905), "Arrebol" (1904), "O Mensageiro" (1904), "O Operário" (1906), "Aurora" (1907), "O Nordeste" (1907), "O Escrínio" (1908). Colaborou em vários outros como "Diário do Piauí" (1911) e "Cidade de Teresina" (1912). Foi um dos redatores da revista de arte "Alvorada" (1909 a 1910).

Como poeta, publicou "Sincelos" (1907), "Maio" (novenário do coração - 1908), "Alma sem rumo" (1934). Segundo o acadêmico J. Miguel de Matos, deixou sem publicar "Outono".

Principais conferencias pronunciadas: "Improvisos e Improvisadores", "As Crianças", "Treze de Maio" e "A Luta".

Jônatas Batista teve papel preponderante no desenvolvimento da vida teatral em Teresina. Escreveu as seguintes peças: "Teresina de Improviso", "Cidade Feliz", "O Bicho", "Frutos e Frutas", "O Coronel Pagante" (revista de costumes piauienses), "Alegria de viver" (opereta de gênero alegre), "Astúcia de mulher" (comédia), "Jovita ou a Heroína de 1865" (drama histórico) - quase todas representadas no Teatro 4 de Setembro, de Teresina, com extraordinários aplausos. Em algumas delas o próprio Jônatas Batista teve a participação, como ator.

Foi membro da Sociedade de Autores Teatrais do Rio de Janeiro.

Deixou ainda sem publicar o livro de perfis "Figuras do Meu Tempo", conforme ao depoimento do acadêmico J. Miguel de Matos.

Para Fernando Lopes Sobrinho, Jônatas Batista exerceu "fecunda atividade intelectual, nele se destacando o jornalista, o conferencista, o teatrólogo e o poeta".

No seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, Fernando Lopes Sobrinho acrescenta: "Como poeta, Jônatas Batista foi, de alguma forma, um simbolista, procurando, na sua poesia, expressar, com espontaneidade, os seus sentimentos em face de si mesmo, ou dos homens ou do mundo, vezes algumas retratando, nos seus versos, revoltas da sua alma altiva".

O acadêmico J. Miguel de Matos escreveu a respeito da sua poesia: "Apesar de seus olhos vagarem, constantemente, pelas coisas que brotam do chão ou que escorrem do céu, Jônatas Batista dosou a sua poética de um profundo sentido introspectivo, como se a Natureza servisse apenas para emoldurar os quadros sensitivos de sua alma".


A. Tito Filho, 04/06/1988, Jornal O Dia.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

AUTORES PIAUIENSES

MÁRIO FAUSTINO - Nasceu em Teresina, 1930. Estudos secundários em Belém, onde, aos 16 anos, começou a trabalhar no jornal "A Província do Pará", passando para a "Folha do Norte", como redator-chefe. Aí publicou as suas primeiras reproduções literárias. Fundou a revista "Encontro" e a Associação Brasileira dos Escritores do Pará. Em 1951, bolsista no Pomona College, Califórnia, Estados Unidos. Estagiou em jornais norte-americanos. Conhecia o inglês, o alemão, o francês, o italiano e o espanhol. Visitou a Europa em 1953. Professor de administração pública na Fundação Getúlio Vargas. Fixou residência no Rio de Janeiro em 1956. Trabalhou no Conselho Nacional de Economia. Realizou trabalho de interpretação para o Museu de Arte Moderna. Poeta e crítico de poesia, dirigiu o suplemento literário do "Jornal do Brasil", criando a página "poesia-experiencia". Foi membro do Departamento de Informações Públicas da Organização das Nações Unidas (1960), em Nova Iorque. Diretor-adjunto do Centro de Informações da ONU no Brasil. Designado para reportagens em vários países, sobre política internacional, viajou, em 1962, num jato, mas antes de aterrissar no aeroporto de Lima (Peru), o avião chocou-se com o pico de uma montanha, matando os seus 80 passageiros e 16 tripulantes. Tinha 32 anos de idade. Em 1955, publicou "O Homem e Sua Hora", com que renovou o sentido da poesia nacional.

A seu respeito já muito se escreveu. Paulo Francis falou do critico: "As críticas de Mário eram calcadas na visão do mundo de Ezra Pound a quem ele, sem exagero, quase idolatrava, mas tinham uma componente pessoal e intransferível, que, se desenvolvida, faria dele um critico de primeira ordem".

Benedito Nunes escreveu: "Amor e morte, tempo e eternidade, sexo, carne e espírito, vida agônica, salvação e perdição pureza e impureza, Deus e o homem passam e repassam, sob diferentes nomes e em diferentes situações, nos versos de O Homem e Sua Hora. Parece até que o livro inteiro é uma reflexão exaustiva que sempre retorna a esses temas preferenciais, com eles dando muitas voltas e enrolando-os numa meada de imagem, que a todos concentra e da qual todos podem ser retirados ao mesmo tempo, quando se puxa por um deles".

Salomão Chaib analisou-o em profundidade e concluiu: "Toda essa poesia experimental que deixou, como fonte inspiradora para novas criações, aí está, ainda por ser explorada, analisada e decifrada. E fonte rica de novos processos por onde o pensamento pode encontrar maneira mais nobre de expressão".


A. Tito Filho, 11/10/1989, Jornal O Dia.

 

sábado, 5 de junho de 2010

CONTRIBUIÇÃO DOS MOÇOS

Dirigimos o Colégio Estadual do Piauí, o velho e querido secundário fundado por Zacarias de Góis e Vasconcelos, no Piauí-Província, hoje com o nome do fundador - dirigimo-lo no período de 1954-1958, e dele guardamos proveitosa experiência: os moços são bons, amigos sinceros e gostam das atitudes sérias e da ordem, da disciplina consciente, do estudo e da convivência. Desviam-se do caminho certo quando por parte dos adultos recebem a lição da sem-vergonhice, da desonestidade, da desfaçatez, do inescrúpulo, do cinismo. Existiram, pois, maduros transviados, e o transviamento do jovem se daria por através daqueles.

No enterrado mês de setembro de 1987, decorreu o primeiro centenário de nascimento de Raimundo Zito Batista, poeta de bonitas concepções líricas, nascido em Natal, povoado de Teresina, depois unidade piauiense autônoma com o batismo de Monsenhor Gil. Estudiosos universitários dessa simpática comunidadezinha, antigo quartel de Luiz Carlos Prestes no cerco da capital piauiense, demonstraram que a mocidade tem riqueza cívica e espiritual - e criaram a Associação Universitária de Monsenhor Gil, cujas primeiras atividades se voltaram para reviver a figura do poeta Zito Batista, e o fizeram de maneira exemplar, num debate sobre a poesia do homenageado, e deram à luz plaqueta em que se reuniram comentários de boa cepa de talentosos estudantes conterrâneos do centenariante - critica literária do melhor conceito. J. Cardoso do Nascimento Junior, Mario Medeiros, Joaquim Campelo Filho, Carlos Alberto Pessoa prestaram serviços valiosos à literatura piauiense, em analise e interpretação de uma obra vasta e complexa, ao mesmo tempo em que viveram instantes de glória do infeliz e angustiado versejador.

Raras instituições piauienses se lembraram de Zito Batista. Sabemos de duas: a Academia Piauiense de Letras, que divulgou a vida e obra do poeta pelo jornalismo, e a promissora Associação Universitária de Monsenhor Gil, com o apoio e a solidariedade da Secretaria de Educação e da Casa de Lucídio Freitas.

A novela nacional pelas tevês não permite que se conheçam a inteligência e o poder criativo dos piauienses mortos. Melhor a educação para a ignorância aprendendo-se que Édipo-rei não passou de reles contrabandista de pedras preciosas.

Graças a Deus Sófocles está vivo - porque os mortos, na sentença de Grieco, não raro mais vivos que os vivos, como a contribuição dos jovens de Monsenhor Gil provou.

A. Tito Filho, 06/11/1987, Jornal O Dia. 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigo aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.

Clóvis morreu em 1944, manhazinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.

A. Tito Filho, 01/12/1987, Jornal O Dia.  

domingo, 23 de maio de 2010

JOÃO PINHEIRO

O conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da Literatura piauiense. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, que serviu em Assunção do Paraguai e morreu na cidade francesa de Marselha. Em 1874 publicou "Um Figurino", uma só pequena estória, e dois anos depois entregava aos leitores "Contos a Esmo". Seguem-se diversos contistas como João da Cruz Monteiro ("O Major Irineu Gomes Coelho"), João Alfredo ("Contetos"), João Licínio de Miranda Barbosa ("Esmaltes"), Arquelau de Sousa Mendes, Júlio Emílio de Paiva Rosa ("As infelicidades de Tibério"). No século XX salientavam-se nesse tipo literário Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. E mais perto de nós se encontram Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Lilizinha Carvalho, Edgar Nogueira, Fontes Ibiapina, para que se citem apenas os que passaram desta para melhor vida. Mas no meio desses cumpre colocar o principal deles, o que deu expressão ao conto regional piauiense, homenageado, ano a ano, com um concurso de contos que leva o seu nome - João Pinheiro, falecido no Rio de Janeiro mais de quarenta anos passados. Dentista da profissão, chegou a criar e vender o "Pó Ideal", dentifrício aromático.

Mas seguiria outros rumos - o magistério, em que se tornou mestre acatado de português; e as atividades intelectuais, respeitável estudioso de nossa história e de nossa vida literária, além de poeta e contista. Entre outros trabalhos, publicou uma história da literatura piauiense, em que fixa as suas fases iniciais, autores respectivos, analisando-lhes, embora sem profundidade, as obras que publicaram. Talvez o primeiro caminho seguro para os futuros intérpretes futuros. No terreno da ficção, publicou dois livros de contos - "A toa" e "Fogo de Palha", servindo-se do material das lendas ou de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos e reproduz nos diálogos a fala sertaneja, com sinceridade. As suas descrições de cenários naturais parecem copiadas pela acuidade de pintor genial.

As páginas de João Pinheiro entusiasmam por virtude de um estilo simples e do modo tão dele de reproduzir cenas em que cabras corajosos do sertão duro se mostram em toda a arrogância nas lutas de suor e morte. O contista piauiense merece ser relido das novas gerações.

A. Tito Filho, 27/11/1987, Jornal O Dia.

domingo, 16 de maio de 2010

LINGUAGEM

Uma feita escrevi a respeito da linguagem de Jorge Amado, que alguns consideram atentatória ao pudor, pornográfica, ofensiva da educação puritana de donzelas puras e rapazolas ainda de buço ralo. Lembrei o presidente Truman, dos Estados Unidos, antigo vendedor de gravatas no Missouri. Um jornalista criticou-lhe a filha Margaret, admitindo que a moça, que se julgava cantora, cantava muito mal. Truman defendeu a filha pela televisão, e xingou o jornalista de SON OF A BITCH. Sobre Truman choveram protestos de toda parte, das ligas americanas de moralidade, de sindicatos de educadores, de gente cultivadora de falsa pudicícia.

No meu artigo traduzi o SON OF A BITCH como FILHO DE QUALQUER COUSA. Fugi de dar o verdadeiro significado da expressão entre os norte-americanos.

Magalhães Júnior no seu "Dicionário de Coloquialismos Anglo-Americanos" registra SON OF A BITCH, isto é, FILHO DE UMA CADELA, e atesta que tal expressão é o pior insulto da língua inglesa.

Disse eu que não elogiava o impropério de Truman. A alta dignidade da função não o autorizava a ombrear-se com o calão do submundo social. Truman tinha o dever da expressão nobre. Mas, se Truman fosse o homem-de-rua, só os falsos correriam, envergonhados, da usança expressional de todos. Às vezes SON OF A BITCH, por razões semânticas, não xinga propriamente a mãe dos outros. Traduz antipatia, e muita vez até se torna modo de elogiar a grandeza alheia. Quando Lacerda convocava atenções das galerias nos seus irônicos arroubos oratórios, ouvia-se, à boca pequena, de ouvintes catequisados de tanta inteligência:

- É um filho duma puta!

A linguagem humana é meio de entendimento da comunidade que se manifesta por processos vários. Há a linguagem literária, asseada, estruturada, e ao lado dela a linguagem natural, despoliciada, no contato com os amigos, nas diversões, a linguagem chã, plena de expressões triviais - veículo de entendimento geral, que todos compreendem, instrumento de conversação do doutor com a verdureira, do sábio com o limpador de sapatos.

Jorge Amado busca a vida para a concepção dos seus livros. A linguagem é vida. Jorge é repórter da vida. Passou o romantismo e com ele se foi a linguagem de polimento que José de Alencar punha na boca das cozinheiras e das babás.

Essa fotografia da fala da comunidade não pertence apenas a Jorge Amado. Pertence a José Américo, a Lins do Rego, a outros. 

A. Tito Filho, 03 de janeiro de 1990, Jornal O Dia.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

AINDA FOLCLORE

Fontes Ibiapina se realizou no difícil trabalho da obra de ficção, embora eu descreia da obra de ficção e acredite em que os escritores, nos contos e nos romances, reproduzam fatos e episódios da vida, inclusive aqueles de que foram intérpretes. E quando o escritor não copia a vida real, produz a obra literária com adaptação de lendas e tradições populares. O "Fausto", de Goethe, promanou de um conto popular. O "Dom Juan" tem origem folclórica. Rabelais inspirou-se na lenda de gigantes gauleses para a criação de "Gargantua". Gustavo Barroso observa muito bem que os temas dos povos são, em grande parte, o berço das literaturas.

Produzindo esforçadamente, numa terra em que vale sacrifício o trabalho da inteligência apurada, Fontes Ibiapina enriqueceu, dia por dia, o patrimônio intelectual do Piauí. Os seus livros de contos, os seus romances fixam tipos, costumes, linguajar deste pedaço regional brasileiro. Vai às fontes das manifestações da alma popular, recolhe a sabedoria das comunidades, a sua expressão espiritual, os seus sentimentos, e faz o livro de fixação, como se estivesse em pintar quadro dos mais sérios e dos mais graves e vivos. O homem de letras comunica-se por dois modos fundamentais: ou concebe a mensagem, reformando o pensamento existente, derribando preconceitos, sacudindo estruturas, ou faz da paisagem social cópia integral, a própria mensagem artística. Assim Fontes Ibiapina: a sua mensagem se encontra na podrosa inteligência de observação para fixar o meio e o homem que nele habita.

O livro de Ibiapina "Congresso de Duendes" reúne estórias de gente e principalmente estórias de bichos. De bichos, ou composição de fabulário, de que se extrai a indicação moralizada, ou o substrato do conto, que se cifra no vestígio sobre a figura humana do acontecido com a alimária em que ela se metamorfoseou. Há, na concepção de Ibiapina, verdadeiro conjunto de manifestações populares incorporadas, representativos das crendices mais fortes da coletividade piauiense.

Um grande folclorista adotou a tese de os contos populares têm asas: eles voam através dos continentes, das raças e dos séculos. O folclore é um só.

O folclore poderia dizer-se a história moral do homem, como insinua Câmara Cascudo. Melhor é identificá-lo como a história natural das coletividades, da sua alimentação, dos seus tabus, das suas orações, dos seus ritos, da sua vida diária, para o reconhecimento da cultura como conjunto de normas sociais de que participamos.

Daí porque o trabalho do escritor, quando procura a fonte folclórica como sustento do livro, há de compreender as manifestações populares no campo em que elas se manifestam, para anotar-lhe as variantes e oferecer a fisionomia da realidade cultural. Não se pode reproduzir o folclore na sua universalidade, apenas. É necessário entendê-lo como a ciência do homem comum, a preocupação de Ibiapina, para projetá-lo no quadro da vida urbana e da vida rural, - como contadores de estórias de bichos, reproduzidas de gerações em gerações, como personagens de novelas de amor, de heroísmo, como personagem de facécias, de cenas de bravura para lavação da honra ofendida, sempre respeitoso com a mulher, - objeto das preocupações do macho numa terra de preconceitos, e mais: como personagem da violência de um mundo que o prepara para o ódio e para a vingança - o ódio e a vingança - o ódio e a vingança sugeridos e provocados pelo desequilíbrio dos processos da vida social.

Ibiapina utilizou-se dos bichos para ironizar os poderosos de desvirtudes políticas, e serve-se dos homens sem destino para que estes interpretem o drama das suas comunidades, nas quais os instintos não vivem, nem é possível que sobrevivam as outras estruturas da sociedade.

A Tito Filho, 01 de dezembro de 1990, JORNAL O DIA 

sábado, 10 de abril de 2010

LITERATURA PIAUIENSE

Gosto das lições de Nelson Werneck Sodré, claras boas de aprender. Ajudam a cachola ao raciocínio, à compreensão. Magnífico no OFÍCIO DE ESCRITOR, livro que deveria figurar nas bibliotecas dos que pretendem íntima comunhão com os problemas literários. Qual deve ser o objetivo de escritor? Captar a realidade e transpô-la para a literatura, como se copiasse o espetáculo da vida social, da forma que fez Balzac com a avareza e Shakespeare com o ciúme. Necessário que se busquem os fundamentos populares da sociedade, pois a cultura de elite se deforma. A cultura oficial sempre se mostra aleijada e falsa. Só a cultura popular tem suas raízes certas. A literatura se completa exclusivamente com a participação do povo.

X X X

Existe literatura piauiense? Creio que sim, uma vez que todas as obras dos nossos escritores revelam aspectos da vida social do homem piauiense, na paisagem geográfica piauiense e no momento histórico piauiense. E isto é literatura. Vejamos os autores mortos, a fim de que evitemos aborrecimentos por parte dos vivos que às vezes a gente deixa citar.

X X X
Circunstâncias históricas e mesológicas criaram para a literatura piauiense feição peculiar de responsabilidade do nosso isolamento geográfico e cultural, durante dez anos. Em razão disto, ainda se discute a respeito da existência de uma literatura piauiense. Cremos, porém, na sua existência, porque temos o homem piauiense na elaboração de processo literário num espaço geograficamente piauiense. Há, entre nós, aquela literatura regional definida por Stewart - localizada numa região e que retira substância real desse local: "Essa substância, primeiramente de fundo natural - clima, topografia, flora, fauna etc. - como elementos que afetam a vida humana; e, em segundo lugar, das maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra". É este o sentido do regionalismo autêntico, como quer Stewart.

X X X

No poeta José Coroliano figuram com nitidez e simplicidade a labuta da gente humilde, o acordar do dia, a vibração da floresta, os espetáculos da natureza piauiense. A descrição das nossas matas, os animais da floresta, o sertanejo nas caçadas ardilosas  está em Teodoro Castelo Branco. Hermínio Castelo Branco fixou a fala, os hábitos, o desafio, o gado, a crendice, os tipos de alimentação, hipocrisias eleitorais, cenas de casamento, tudo ligado à caboclada. Clodoaldo Freitas tem poesias sertanejas admiráveis, como José Manuel de Freitas enalteceu o interior piauiense na labuta dos currais. Que dizer de Lucídio Freitas nos poemas em que cantou uma Teresina rica de sentimentos espirituais do seu tempo? Da Costa e Silva e a saudade, a terra natal, as cenas das enchentes, do incêndio da mata, do rio, da balsa, em quadros imorredouros de beleza e expressividade? A desolação e o martírio da seca se lêem em Martins Vieira. O grande Abdias Neves reproduz com exatidão a Teresina do fim do século XIX e começo do XX. Jamais esqueceram aspectos folclóricos e cenas provincianas poetas e prosadores como João Ferry, Artur Passos, Domingos Fonseca. Sem necessidade de encompridamento da lista, encerremos com Fontes Ibiapina, admirável fixador e intérprete do nosso regionalismo tão rico e pleno de força popular. Existe Literatura no Piauí - e os vivos têm lugar de destaque na moderna literatura nacional. 

A. TITO FILHO, JORNAL O DIA, 03 DE MAIO DE 1992

sábado, 27 de março de 2010

CAPITÃES DA AREIA

Este ano de 1987 "Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. TITO FILHO, 07/11/1987, JORNAL O DIA