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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SONETOS (ALTEVIR ALENCAR)

Altevir Alencar nasceu nesta terra piauiense pelos idos de 1930 ou 1932, que esse negócio de idade só aborrece as mulheres. Andou por muitos lugares do Brasil sem que nunca esquecesse as origens. Ingressou no Exército, morou em Fortaleza. Tocou-se para o oeste, no Mato Grosso, e elegeu-se prefeito de Nioaque, município que depois se integraria no Mato Grosso do Sul, em cuja capital, Campo Grande, se fixou, depois de competentemente desfardado do verde-oliva. Quase bacharel agora. Amigo de governadores. Professor. Continua danado por rabo-de-saia, o que não quer dizer homem pecador mas virtuoso. Ano por ano visita Teresina, o seu xodó, para abraçar amigos e declamar poemas que ele sabe fazer. Oito livros de poesias já publicou, cada qual mais apurado de inspiração e técnica. Agora saiu o nono, numa cuidada edição da Academia Piauiense de Letras, sobre o qual eu escrevi uns comentários que não são ruins, e aqui reproduzo.

Altevir faz questão de dizer aos outros que foi meu aluno de português, e o professor atesta que se alegra e rejubila da circunstância, porque o discípulo nunca decepcionou o antiga lente. Estudioso, creu nas virtudes da leitura e do aperfeiçoamento da inteligência, e ei-lo bem dotado para a vida literária. A humanidade do nascimento e a pobreza financeira não lhe abateram ânimo e fé. Buscou vitórias valido da capacidade, simples, de correto companheirismo, alegre com os triunfos dos amigos e semelhantes. Sempre guardou profunda afeição aos pais, ao sítio natal e à gente do Piauí. Alma para o bem-querer e a doação aos outros. Esclareci que ele viajou os brasis por todos os pedaços do território imenso ora em farda militar, ora de roupa civil. Andou pelas selvas mato-grossenses. Fez-se líder de povos municipais. Sempre esteve fiel ao conhecimento, ao amor, à liberdade, às alegrias e aos tormentos do ser humano.

Nele convivem ainda o ator aplaudido pelos desafios e o prosador elegante, linguagem asseada, estilo de muita graça e louçania. Mas a poesia tem sido o cunho de sua vida de inteligência, uns dizem que de concepção clássica, nos limites bem fixados entre o parnasianismo e o simbolismo. Nele vejo, num momento de verdade, a noite, a sombra, pressentimento de amarguras infinitas, raios de lua, agonias de morte, frio do nada, névoas, rendas virginais, visões e lendas, vozes veladas, enfermidade e melancolias, a paisagem e o homem, a crença e a descrença, Deus e a maldade das criaturas, a vida, enfim resumida num clima estético de lirismo permanente, num ritmo musical próprio da tradição artística.

O trabalho agora editado tem o titulo de LIVRO DE SONETOS, composições em que o poeta se revela mestre aplaudido.

No fim de 1988, segundo me escreveu, voltará aos pagos natais. O filho vitorioso volta, advogado brilhante, a terrinha já desromântica, em tempo de violência.


A. Tito Filho, 23/06/1988, Jornal O Dia

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NÓRDICA E ANTARES

A editora Nórdica acaba de incorporar a Editora Antares, cujo acervo passará a constituir uma divisão especial dentro da nova casa, onde a sua comercialização se iniciará em todo o Brasil a partir do dia 27 de junho.

O acordo foi realizado entre Maura Sardinha e Maria Helena Geordane, pela Antares, e Jaime Bernardes, pela Nórdica.

A Antares foi fundada em 1978 e alcançou excelente prestigio, principalmente, através do lançamento de obras de literatura infantil e juvenil dos melhores autores nacionais. No entanto, também obteve uma posição meritória na area universitária, especialmente em fonoaudiologia, setor em que a editora, praticamente, foi pioneira no lançamento de obras de autores nacionais (antes, havia apenas alguma coisa do Dr. Pedro Bloch). Em ficção e não ficção, alguns lamentos fizeram ótima carreira no mercado e ainda permaneceram com vendas pontuais de bom nível, como é o caso, por exemplo, do clássico "Geografia da Fome", de Josué de Castro. Ao todo, serão transferidos para a Nórdica, aumentando o seu catálogo, cerca de 70 títulos, 50 dos quais na área infanto-juvenil.

Durante dez anos a Antares lançou mais de 120 títulos e realizou um esforço extraordinário a favor da cultura nacional. Os investimentos foram, relativamente grandes e a sua administração apresentou um bom resultado, traduzido por uma situação hoje controlada e saneada. A Antares poderia ter continuado, mas as dificuldades econômicas do país no momento e, sobretudo, os atuais problemas de comercialização exigiam novos e pesados investimentos que Maura Sardinha e Maria Helena Geordane acharam por bem não realizar.

A Nórdica, fundada e administrada pelo editor Jaime Bernardes, desde 1970, vem atravessando as sucessivas crises econômicas do país, seus altos e baixos, com uma atuação equilibrada e cautelosa, sem grande euforia e sem grandes pessimismos. Jaime Bernardes costuma dizer que, editar e administrar num país de alta inflação como é o Brasil se assemelha a correr uma prova de fórmula 1, à velocidade de 300 km por hora. O mínimo deslize é a morte do artista. Um pé no acelerador, outro no freio, mudanças na hora certa, atenção aos outros concorrentes, antecipar suas manobras e as do comando da corrida, ou seja, o governo que adquiriu o hábito de mudar as regras mesmo "durante" a prova, são algumas das precauções a tomar nas circunstâncias.

Em seu acordo, a Antares permanecerá como selo de prestígio dentro da Nórdica e será uma divisão que continuará dispondo da preciosa assessoria editorial de Maura Sardinha. Novos lançamentos estão em estudo, embora a prioridade seja dada às reedições. São vários os livros da Antares que estão esgotados e serão sucessivamente relançados.


A. Tito Filho, 19/07/1988, Jornal O Dia

domingo, 23 de janeiro de 2011

COMUNISMO

A Academia Piauiense de Letras editorou COPA E COZINHA, em que mestre Cunha e Silva escreve memórias políticas e sociais de Teresina, e o faz com rara fidelidade aos fatos e aos homens que neles tomaram parte. Jornalista, historiador e estudioso de temas filosóficos, o autor também leciona, com autoridade, sobre a vida e os problemas das coletividades universais. Em determinado trecho, com franqueza, narra: "Em 1935, fui apontado graciosamente como implicado em movimento subversivo que dizia a Polícia, estava se preparando no Piauí. Meteram-no no xadrez mais infecto do Quartel de Polícia".

Era o tempo da mais extraordinária imbecilidade nacional. Getúlio Vargas necessitava de pretextos para mais períodos de poder discricionário e ilegítimo, que se implantaram em 1937. A melhor maneira de permanecer dono dos destinos do país estava em propagar o perigo comunista, e o comunista, nesses anos de ignomínia, eram tidos como inimigos de Deus e da família. Feras humanas, gostavam de comer menino novo, de tenra idade.

O professor Cunha e Silva recorda essa fase de covardias permanentes da Polícia: "Naquele tempo, como hoje, prisioneiros políticos misturavam-se com sentenciados, com criminosos de toda espécie, com facínoras os mais perigosos, com ladrões e punguistas".

Acusado de chefe da conspiração em Teresina, o ilustre jornalista e educador, nascido nas terras piauienses de Amarante, enfrentou corajosamente as acusações injustas e o processo respectivo, sem provas corretas e irrefutáveis.

Esclarece o escritor noutro local: "Logo que fui preso em Teresina, o coronel Delfino Vaz já esteve em Amarante, onde procurou o meu irmão Enoch Cícero e Silva e dele recebeu a chave de minha casa, entrando nela e retirando da estante dez livros da literatura marxista-leninista".

Anos de terror. Ao menos livros que se vendiam nas livrarias de Paris e de outros centros europeus não podiam fazer parte da cultura de ninguém.

Convivi anos a fio com Cunha e Silva no magistério e nunca ouvi dele idéias de solidariedade ao comunismo. Sempre liberal, o mestre defendia, no jornalismo e na oratória, o direito de o homem pensar conforme quisesse, sem que fosse sujeito a censura ou castigo.

Era, porém, o tempo da caça às bruxas. Em alguns pontos do país havia sido derrotado o movimento subversivo de Luís Carlos Prestes, a 27 de novembro de 1935. Prendiam-se pessoas inocentes, em conseqüência de denuncias anônimas, feitas para o exercício de vinganças mesquinhas contra adversários.

No Piauí não houve comunistas. Houve idealistas. Homens simples, pobres e humildes que pretendiam uma pátria tranqüila e feliz, em que todos obtivessem os frutos da justiça social.

Voltarei ao assunto.


A. Tito Filho, 18/09/1988, Jornal O Dia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

VIAGEM

Joaquim Nogueira Paranaguá exerceu os mandatos de deputado e senador do Piauí. Muito lutou pela mudança da capital da República para o Planalto Central Brasileiro. Esteve à frente do governo piauiense quase três meses, como substituto eventual, em 1890, quando deu substancial contribuição para as obras do Teatro 4 de Setembro de Teresina.

Em 1892, esse conterrâneo ilustre deixou o Rio de Janeiro, capital do país, em busca dos seus pagos no Sul desta terra dita de Mafrense. Resolveu viajar pelo interior brasileiro, quando normalmente políticos e estudantes iam em busca da cidade grande e voltavam aos penates em navios mercantes até São Luís e daí viajavam para Teresina por terra, de cavalo, ou de trem de ferro.

As impressões de Paranaguá foram reunidas em livro em 1905. Faz poucos anos fiz segunda edição, que agora reli. Não perdeu a graça e a vivacidade. Para mim, tem significação especialíssima, pois na mocidade percorri esses compridos caminhos, com alguma diferença de roteiro, mas de cenários maravilhosos.

Extenso o percurso vivido e descrito nas páginas do livro. Vário o meio de transporte. Comboio ferroviário, barca, navio tipo gaiola, cavalo. Andança muitas: Estado do Rio, Minas, Bahia. Do longo roteiro, das dificuldades encontradas e vencidas, da boa bóia, da hospitalidade interiorana, das maravilhosas vistas resultou a narrativa sincera, cuja leitura entusiasma na recordação de um tempo de belezas espirituais, convivência amiga, diferente destes dias que correm, violentos e aflitivos, como se o fim do mundo se aproximasse.

Médico, político, parlamentar, educador, homem de ciência, caráter reto, hábitos severos, Paranaguá exerceu o jornalismo e cultivou as boas letras, do que dão testemunho e reportagem e o estilo leve do viajador, numa obra que convocava os brasileiros para os recursos nacionais riquíssimos e perdidos na vastidão nacional.

Desfilam no trabalho aspectos históricos e sociais, costumes comunitários, quadros naturais, comércio e indústria, riquezas minerais, bichos, aves, plantas, transportes. Muitos temas, páginas de ensinamentos, lições da vida. E mais a harmonia de idéias com o que estas representam, pela beleza, característica do modo de sentir, pela decência, que consubstancia o fundo da intenção. Em todo o modo claro de dizer e de convencer.

Joaquim Nogueira Paranaguá doou-se aos semelhantes em benefícios sem conta. Disse dele o filho Correntino Nogueira Paranaguá: "Sua presença continua e continuará a existir como um farol de altruísmo, perseverança e honradez, enquanto houver memória de sua personalidade, simultaneamente forte e suave, combativa e conciliadora, equânime na prosperidade como na adversidade, digno e simples nos elevados cargos que ocupou no meio do povo humilde que viu e chorou o seu encontro com a eternidade".

Retrato bem feito.

Leiam o livro de Joaquim Nogueira Paranaguá. Páginas agradáveis, saborosas, mostrando um Brasil pobre mas feliz, um Brasil que foi convivência leal, o que ele nunca mais será. A máquina gerou a perdição.   


A. Tito Filho, 09/07/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CHATOS

José Vieira Chaves já fez a viagem de ida sem volta. Foi dos meus melhores amigos. Tinha mal o curso primário e dava conta do recado de jornalista com desenvoltura. Sujeito inteligente, de boas idéias. Não suportava o CHATO, viesse de onde viesse. Catalogava vários tipos doutores na amolação do próximo. Um dia me mostrou comprida lista desses indivíduos que nasceram para tirar o sossego alheio. Fiz expressiva relação de CHATOS E CHATAS e estudei-lhes as maneiras de atuação. Publiquei, no jornal dirigido por Chaves, o meu estudo, nos idos de 1952, por aí assim. Anos depois o público ledor se deliciava com o livro TRATADO GERAL DOS CHATOS, de Guilherme de Figueiredo, excelente repositório de figuras da chatice universal. Muitos chatos de minha catalogação foram desconhecidos do excelente escritor citado, que, no seu turno e fonte de observância, apresentou magote desses indivíduos ausentes das minhas preocupações.

Os chatos farejam as vítimas. Ficam nas esquinas, nas calçadas, junto à banca dos jornais a aguardá-los munidos de infalíveis na liquidação da alegria de quem deles se aproxima. Há-os de variada espécie. Os receitadores de remédios e alguns chegam a escrever o nome da droga e enfiam o papel no bolso do pobre diabo. Os poetas recitadores em mesa de botequim. Os que contam velhas anedotas e eles mesmos gargalham felizes. Os vendedores de livros e os cobradores. Os elogiadores: "Você é quem brilha", "Não conheço talento como o seu". Os prestativos, que se dizem amigos do peito do governador, para a solução de casos. Os discursadores de festas: quando a orquestra ataca um samba do bom, o sujeito pede a palavra e solta as asnices. Os oradores fúnebres: saltam sobre o monte de terra a beira do túmulo e sapecam o verbo choramingueiro. Os chatos dos projetos de cidadania, indivíduos puxa-sacos. Existem uns que conversam dando empurrões no ombro da gente ou tapinhas em qualquer parte do corpo. São inaguentáveis. Terríveis os consertadores de objeto. Nojentos os pregadores de moral: "Você precisa deixar de jogar, o jogo é a perdição da humanidade". E os visitadores de doentes: "Minha tia, o ano passado, morreu dessa mesma doença". Há os que conversam cuspindo na orelha do infeliz sofredor. Os chatos conquistadores conhecem todas as mulheres: "Aquela ali eu conheço, é de programa". Mentem como diabo.

Os amigos cronistas sociais também cultivam infalíveis processos de chateação, com as listas DAS DEZ MAIS,  as mesmas caras todos os anos. Existem as virgens que preferem a morte na fogueira a um gesto de amor: "Soube que a Maria se deita com o namorado. Que horror, Deus que me livre". Também as palestrantes de porta de rua, na base do EU SOUBE, QUE COISA HORROROSA. AS COROAS gostam de provérbios: "Coco velho é que dá azeite".

Faz certo tempo publiquei em livrinho minha coleção de chatos, em homenagem ao homem que, em Teresina, descobriu a poderosa força da CHATICE humana, o saudoso José Vieira Chaves.

Um chato sempre evita outro.


A. Tito Filho, 08/06/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

BONS LIVROS

Conhecemos Orgmar Monteiro no velho Liceu Piauiense, educandário famoso de Teresina - e nele convivemos alguns anos, em busca do canudo das chamadas humanidades. Era de inteligência desenvolvida e bom raciocínio. Depois, no encontramos como funcionários públicos federais no Ministério da Agricultura, ainda no Piauí - cada qual no setor das suas funções: administrativas, as nossas, técnicas as dele, já preocupado com estudos e, ensinança a respeito do cajueiro.

Na década de 60 seguimos outros rumos. Perdemos de vista o companheiro. Admitimos ambos vôos mais altos. Orgmar buscou os caminhos do mundo, fez visita a brancos, amarelos e negros, enriqueceu a vida de múltiplas experiências alheias, no regalo turístico e na observação de hábitos, costumes e riquezas de povos diferentes.

Em 1985 editou-se Calendário Telúrico, que a Academia Piauiense de Letras distribuiu, trabalho por ele concebido e escrito sustentando sérios conhecimentos sobre sistemas de divisão do tempo - livro sobremodo educativo e que o colocou entre os estudiosos da cultural geral.

Contam-se nos dedos as repúblicas brasileiras. Houve a de Deodoro, Floriano e outros cidadãos. A Velha. Em seguida, a Primeira nova, que Vargas instituiu nos idos das quarteladas tenentistas de 1930. Depois a República Constitucional de Vargas, pavio curto, de 1934 a 1937. E veio mais uma do mesmo risonho feiticeiro gaúcho, que promoveu do próprio palácio presidencial, ajudado de alguns generais, de começo em 1937 e concluída aos 29 de outubro de 1945, data em que os tanques ocuparam a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e os donos desses veículos mandaram que o ditador descansasse, numa fazenda de pastoreiro do Rio Grande do Sul. Cumpriu-se o ditame da fantasiosa e forte carta constitucional do tempo, entregou-se o governo ao Supremo Tribunal, simulando-se a continuidade republicana, e deram-se eleições. No ano do Senhor de 1946 estreou mais uma República, cuja liquidação se promoveu em 1961. Quantas? A deodoriana, a 1ª Getuliana (1930), a 2ª Getuliana (1934), a 3ª Getuliana (1937), a 4ª ou pós-ditatorial (1946). E a 5ª, a República Parlamentarista, rápida, com sabor de pantomima - destruída por plebiscito em 1963. A partir de 1964, a 6ª - a República Fardada, que se finou a de março de 1985 com a posse de um poeta e prosador sobre gente e cousas maranhenses no comando da 7ª República - estudada em 3 volumes por Orgmar Monteiro, nos mais variados aspectos e angustiantes problemas. Expõe-lhe as feridas, uma a uma, oferece os pós mágicos da cura certa. Revela que o Estado do Brasil detém o monopólio da violência contra o homem roubado. É necessário que se pratiquem atos de coragem: não permitir que a inflação continue a corroer a justa distribuição da riqueza; educar para o bem; enfrentar a inatualidade cultural e econômica brasileira.

Orgmar publicou cinco volumes sobre a antiga Teresina, seu constante xodó. E depois morreu em São Paulo - o velho coração parou para sempre.


A. Tito Filho, 07/09/1988, Jornal O Dia.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

CRÍTICA - I

Patrícia O'Connor escreveu livro GREGÓRIO Y MARIA MARTINEZ SIERRA e sobre o livro Teresinha Pereira me mandou estes comentários, intitulados TEATRO ESPANHOL DO PRINCÍPIO DO SÉCULO. A comentarista pertence à Moorhead State University, USA:

Mais fascinante é a biografia destes dois escritores e dramaturgos espanhóis, um casal chamado Maria e Gregório Martinez Sierra! Eles escreveram juntos de 1897 a 1922 mais ou menos e foram também contemporâneos da geração imediatamente posterior à famosa "Generación del 98", convivendo com os mais jovens e mais accessíveis desta geração. Entre os famosos escritores espanhóis desta geração que participavam de suas tertúlias estavam: Benavente, Juan Ramón Jiménez, Ramón Pérez de Ayala, Pedro González Blanco, los hermanos Quintero, Emília Pardo Bazán, Juan Valera, etc., os quais colaboravam também na revista Helios, sob sua direção.

O principal trabalho deste casal consiste na sua produção teatral. Foram casados e juntos publicaram: Teatro de Ensueño, Motivos, La humilde verdad, Tú eres la paz, La sombra del padre, El ama de la casa, El amor catedrático, Canción de cuna, Lírio entre espinas, El palacio triste, Primavera em otoño, Amanecer, El reino de Dios, El amor bruio. (1)

Separando-se por causa da relação amorosa entre Gregório e a atriz cubana Catalina Bárcena, com a qual teve uma filha, Maria levou então suas atividades e esforços à política e ao movimento de emancipação da mulher. Foi eleita deputada socialista em 1933 e foi adida cultural na Suíça em 1936. Entre seus escritos feministas estão: Carta a las mujeres; Feminismo, feminidad, españolismo; e em 1953 publica no México o livro Gregório y yo.

Gregório morreu de câncer em Madrid, 1947 e Maria morreu em Buenos Aires em 1974.

É muito interessante a interpretação feminista da autora Patrícia O'Connor e também suas pesquisas valiosas e profundas sobre a produção teatral do casal. Estas pesquisas vêm esclarecer muitas dúvidas sobre quem era verdadeiramente o autor das peças teatrais, já que parece ter sido Gregório quem mais recebeu crédito e fama por elas.


A. Tito Filho, 05/10/1988, Jornal O Dia.

Notas:
1. A lista de suas obras é imensa e está quase toda assinada por Gregório Martinez Sierra somente.

CRÍTICA - II

Baseando-se nas cartas e documentos deixados por Gregório, isto é, utilizando suas próprias palavras sobre a colaboração de Maria, Patrícia O'Connor diz, no capítulo VII, intitulada LA CONFESION DE GREGÓRIO:

"Ao ler as cartas de Gregório fiquei surpreendida pela delicadeza e experta manipulação que fazia de Maria. Estava perfeitamente claro que (oh! ironia!), era ela quem havia escrito muito daquilo a que deu vida a esplendida interpretação de Catalina! Estas duas mulheres foram, com efeito, os verdadeiros pilares da fama e fortuna de Gregório, que orquestrou - se não explorou - o talento de ambas e se revelou como um gênio para conseguir que atingissem a máxima eficiência". (P. 56) (2)

Este livro é uma tradução de Gregório and Maria Martinez Sierra, publicado anteriormente pela Editora Twayne's - Tawas - 412. O tradutor ao espanhol, da edição que resenhamos, foi Juan Garcia-Puente. A ele devemos certamente uma palavra de louvor pela fidelidade ao original e pelo estilo claro, direto e lógico de sua linguagem castelhana. (3)

A doutora Patrícia O'Connor é professora na Universidade de Cincinnati (USA) desde 1962, especialista em Teatro Espanhol Contemporâneo. Escreveu além deste, outro livro sobre os Martinez Sierra: Women in the Theater of Gregorio Martinez Sierra. Entre outras de suas publicações sobre o teatro estão: Plays of Protest from the Franco Era e Contemporary Spanish Theater: The Social Comedies of the Sixties. Em co-autoria com Anthony M. Pasquariello publicou uma edição de El Tragaluz de Antônio Buero Vallejo e Contemporary Spanish Theater: Seven One - Act Plays.

Notas:
2. A tradução deste parágrafo foi feita pela autora desta resenha.

3. Não seria fora de mão comentar que este livro tem tanto interesse para os leitores de língua espanhola quanto para os de língua inglesa. Embora as obras do casal tenham sido montadas pelos teatros de Londres, Hollywood e Broadway, foram também muito conhecidas por todo o mundo hispânico.


A. Tito Filho, 06/10/1988, Jornal O Dia.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

JULGAMENTO

No "Jornal de Brasília", edição de 14 de outubro de 1988, Aluízio Napoleão publicou este seguro comentário, com o título CARTAS QUE SÃO FARPAS:

Acabo de receber o livro do professor Acrísio Torres, intitulado Cátedra e Política, que reúne cartas escritas durante o regime autoritário, que combateu, revelando seu espírito de oposição ao que julgou prejudicial ao País durante aquela fase difícil da vida brasileira. O gênero foi adotado por Ramalho Ortigão, embora em estilo diferente, num outro país, o Portugal de sua época, ao qual nem o Imperador do Brasil, D. Pedro II, escapou.

As farpas do professor Acrísio Torres são diretas, exteriorizando, sem rebuços, seu pensamento e sua opinião sobre um regime que detestava. Há momentos, porém, em que sua pena, refletidamente, passa a critica alta, ganha em força e persuasão, como, por exemplo, ao dizer, com penetração e, sobretudo, com razão: "O progresso social consiste, sobretudo, no desenvolvimento da inteligência. Isso não se dá neste país de jovens. E se falta esse desenvolvimento da inteligência, não se terá o apuro dos sentimentos altruísticos, únicos que permitem a cordialidade, a solidariedade entre os homens. E se falta o desenvolvimento da inteligência, circunstancia ideal das ditaduras, faltará interesse maior pelo bem-estar comum, e pior, morrerá pouco a pouco até o horror às injustiças, às iniqüidades".

Em outro trecho, o autor mostra-se um pedagogo, ao expor seu pensamento com transparência: "Há natural vocação dos jovens para a politica, mas como realizar essa vocação pelas vias normais, as dos partidos, dominados, estes, pelos velhos sobas, de mentalidade retrógrada? Essa circunstância, decorrente de estruturas arcaicas, continua a impedir o liame entre a formação política dos jovens, papel da universidade, e a participação deles no processo político nacional. Nesse elementar raciocínio, natural a ilação de que a participação política dos jovens deverá implicar alternativas capazes de unir interesses e aspirações dos jovens aos reclamos maiores da nacionalidade".

João Emílio Falcão, em magistral prefácio, disse bem o que deveria ser dito sobre Cátedra e Política: "A sua atuação contra os governos militares, quer na UnB, que nas cartas, lembra a lenda de Selma Lagerlof sobre a ave que asperge a água em grande incêndio de grande floresta. Não lhe importava o resultado, mas a consciência de haver cumprido o seu dever".


A. Tito Filho, 25/10/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

LITERATURA INFANTIL

A Editora Nórdica, do Rio, dirigida pelo bom amigo Jaime Bernardes, tem publicado obras de projeção nacional, e consta dos seus grandes serviços à literatura brasileira os trabalhos dedicados ao mundo da criança, bem orientados e assinados por escritores que dispensam apresentação.

Os dinossauros e os gatos são bichos que vão dominar a programação editorial da Nórdica, na área infanto-juvenil, neste ano da graça de 1988.

O responsável pela introdução desses bichos na Nórdica é o professor Arnaldo Niskier, um dos grandes nomes da educação no Brasil, homem que desempenhou sempre com êxito importantes cargos na área pública e de valor literário reconhecidamente elevado.

O livro "A Misteriosa volta do Dinossauro" será lançado já em junho e conta a estória de Dino, um dinossauro que acorda nos nossos dias, com vontade de fazer tudo aquilo que também as crianças fazem, até dançar um tremendo "reggae". O livro tem ilustrações primorosas dos conhecidos Ivan e Marcelo.

Mais tarde, em outubro, teremos novamente Arnaldo Niskier contando a estória de "O Gato Siamês", com ilustrações de Célio César.

Entretanto, virá ao Brasil a maior escritora portuguesa de livros infanto-juvenis, Alice Vieira. Ela estará presente na Bienal de São Paulo para o lançamento do seu grande sucesso "Rosa, minha irmã Rosa". Este é um livro que a Nórdica insere na coleção dos grandes escritores de literatura infanto-juvenil mundial.

Diga-se de passagem que a editora irmã da Nórdica em Portugal, a Caravela, vai publicar em Portugal a obra "Corda Bamba", da grande escritora brasileira Lygia Bojunga Nunes. Portanto temos aqui um verdadeiro intercambio cultural entre Brasil e Portugal.

Ainda este ano teremos obras de Werner Zotz ("Apenas um Curumim" vai ser publicado na Alemanha Ocidental) e de Álvaro Ottoni de Menezes.

Mas, tem mais: para completar, a Nórdica publicará "Os Gatos" de T. S. Elliot, uma obra que serviu de argumento para um grande musical que virá ao Brasil ainda este ano. Um livro-poema delicioso que fala, entre outras coisas, da grande dificuldade de "dar nome aos gatos"...


A. Tito Filho, 16/06/1988, Jornal O Dia.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

BENEDICTA

Faleceu Edson Pacheco, o que muito me consternou, aquele que escreveu o romance "Banedicta", de muita fidelidade a hábitos e costumes interioranos, e a velhas normas provincianas de uma Teresina que só existe na lembrança da gente que está ficando ou ficou velha. Depois, os fatos se desenrolam em Caxias, onde a personagem central se encontra com os males de uma sociedade casuística, omissa com os desafortunados, como também se familiariza com caracteres perversos e exploradores. Daí foi para a capital maranhense, em que conheceu novas faces da vida, umas humanizadas, outras indignificantes.

Posteriormente vemos Benedicta num Rio de Janeiro em evidencia de grande centro populoso, convocador de emoções e alegrias, ao lado de graves problemas sociais.

O romance desperta interesse e pede meditação. Nele há tipos humanos de retratos psicológicos bem feitos. O cenário é sincero. As paisagens se mostram vivas, espelhadas de modo correto. Existe harmonia com o tempo em que o enredo se passa e se desenvolve. Realizam-se dramas de vidas simples de consciência como de miséria. Narra-se plenitude de preconceitos de toda ordem. E mais: desfilam almas rudes, gente de critério vário na prática do bem e do mal. No término, o processo educativo modifica caracteres.

O autor teve muito senso de observação, como convém aos que concebem a obra para realizá-la bem dotada de realidade, escoimada dos defeitos de fantasia.

Foram fieis os traços fisionômicos das pessoas, das coisas, das angustias, das aflições e dos instantes felizes em que os seres se realizaram para a paz interior e para a beleza do afeto.


A. Tito Filho, 21/12/1988, Jornal O Dia.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TEMPO DE LEITURA

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto, gente idosa, parentas velhas, caboclos da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos - e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exercito Nacional. Momentos felizes e alegres, dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos dez anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de vária mercadoria, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo - "Tristeza a Beira-Mar", de Pinheiro Machado. Vendia-se também a Coleção SIP, constituída, de romances "de aventura e de amor", que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escritura MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis - e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos, apreciei "A patrulha da madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda. Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem a lua. Li quase tudo admirável do francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs - e pratiquei-a de fio a pavio, como se houvesse ditame de um pacto governamental da era politica cujo inicio se deu em 1964.


A. Tito Filho, 13/12/1988, Jornal O Dia.

sábado, 21 de agosto de 2010

FREI HELIODORO

Brevemente a Academia Piauiense de Letras estará lançando ao público piauiense a primeira biografia pormenorizada de Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, de imensos serviços prestados a Teresina. A história desse frade-santo, nascido em Inzago, na Itália, está bem contada por Frei Memória, tão amigo dos teresinenses.

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 a 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus, enquanto aos poucos praticavam estrionices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Neste livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho que ora se lê, existem as lições e os exemplos de fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida.


A. Tito Filho, 12/01/1990, Jornal O Dia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O LIVRO NO FUTURO GOVERNO

No tempo do Piauí-Província, quando faleceu José Coriolano, os amigos do poeta quiseram homenagear-lhe a memória, publicando as suas poesias românticas, cujo conjunto recebeu o nome de IMPRESSÕES E GEMIDOS. Não sei se o governo participou das despesas. No Piauí-República, o governador Anísio de Abreu faz a edição da CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ. Leônidas Melo mandou publicar, na Imprensa Oficial, obras de João Pinheiro, Higino Cunha, Celso Pinheiro, moura Rego, Martins Napoleão e de outros intelectuais piauienses de renome, numa das mais brilhantes fases da vida literária da terra. Adiante, Pedro Freitas mandou que as oficinas do Estado editassem o interessante trabalho que o engenheiro Sampaio escreveu sobre as nossas possibilidades econômicas. Outro governante, Helvídio Nunes, patrocinou a publicação de algumas obras aplaudidas.

Chegaria o primeiro tempo de Alberto Silva, época em que o setor da comunicação se confiou a um sujeito de valor, apaixonado pelas cousas do Piauí, chamado Armando Basto, que idealizou o PLANO EDITORIAL, convocando-se uma plêiade de prosadores ilustres. Era o ano de 1972. Um dia recebi chamado de Armando, que autorizava nova edição de LIRA SERTANEJA, e o trabalho, feito na Companhia Editora do Piauí, saíra com imperfeições, por engano do organizador da obra de Hermínio Castelo Branco. Inutilizaram-se os mil exemplares confeccionados. Recebi a tarefa de preparar edição segura, e o fiz, confiada a Deoclécio Dantas; que superintendeu a valiosa publicação, à qual juntei humildes ensinamentos sobre o vocabulário sertanejo empregado pelo autor.

Armando Basto me determinou que preparasse outras obras. Aceitei a incumbência com a condição de me ocupar somente de autores mortos, ou de trabalhos sérios a respeito de assuntos históricos e sociais da terra piauiense.

Entreguei os originais a Deoclécio, que dirigia, com raro devotamento, a Companhia Editora do Piauí, e os livros foram publicados, com primorosa revisão, reunindo as concepções de autores notáveis como José Coriolano (reedição), Esmaragdo de Freitas, Zito Batista, José Lima Pires Rebelo.

Armando pretendeu que mais livros se fizessem, e assim se confiaram novas edições a empresa editora do Rio de Janeiro, de cujas oficinas saiu outra vez a famosa CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ, de Francisco Augusto Pereira da Costa. Orientamos, Armando da Costa, Deoclécio Dantas e eu, a publicação de umas quarenta obras, admirável esforço para divulgar os autores piauienses, entre os quais Odilon Nunes, nas PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ.

Interessante ressaltar que as obras dessa fase administrativa do Piauí confiaram-se ao público e as instituições GRATUITAMENTE, dentro como fora do Estado.

Torna-se necessário que se acabe no Piauí com a triste e viciosa praxe de o governo pagar a edição e o autor vender os exemplares da obra publicada ao próprio governo.

O assunto merece mais considerações. O nosso intuito está em oferecer ao futuro governador subsídios que sirvam à administração para incentivar corretamente a cultura no Estado.


A. Tito Filho, 24/01/1991, Jornal O Dia. 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

OS LIVROS DE MATIAS (OLÍMPIO)

Teresina inaugurou biblioteca pública ainda no tempo do regime imperial. Como tudo que presta, nesta terra, esse beneficio coletivo logo se sumia talvez por falta de leitores, numa época em que era pouco o interesse por cousas de literatura. No tempo da sua melhor atividade, Anísio Brito organizou a biblioteca estadual, instalada justamente com o arquivo e o museu no prédio cujo nome homenageia esse admirável historiador e homem público. Dava gosto que a gente estudasse nas salas das estantes cheias de livros bem catalogados. Muito li nesse ambiente convidativo. Com o correr dos anos, os livros se transportaram para outro local, o antigo Grupo Abdias Neves, onde funcionaram o Liceu Piauiense e a extinta Faculdade de Direito do Piauí, e nele se instalou a Biblioteca Cronwell de Carvalho, mantida pelo governo estadual.

Desconheço os rumos que tomaram as obras pertencentes a Simplício Mendes, a Esmaragdo de Freitas, a Higino Cunha, a Martins Napoleão e muitas outras nobres figuras da vida cultural desta terra. Salvei as obras jurídicas e literárias de meu pai. Parece-me que me evaporou a rica biblioteca da antiga Escola Normal, especializada em assuntos educacionais.

Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves manteve comigo, desde os idos de 1974 até perto de morrer, correspondência de grande mérito. Em 1983, manifestou-me a vontade de doar os seus livros técnicos à Universidade Federal do Piauí e os livros de ciências sociais e literatura a Academia Piauiense de Letras. Fiquei satisfeito com a atitude do grande confrade. Faleceu em 1984. Só uns dois anos depois os livros chegaram. Estragados pela umidade. Sujos. Encontravam-se sob cruel desprezo em dependência de apartamento no Rio. Uma tristeza. Ainda assim aproveitei pelo menos um terço dos exemplares.

Os livros de Odilon Nunes, preciosos, doados à casa de Odilon Nunes de Amarante causam dó, segundo me contou o insigne mestre.

Recentemente distinta jornalista me deu a notícia desoladora: os livros de Matias Olímpio, ex-governador, ex-senador do Piauí, jazem num recanto da Biblioteca Cronwell Carvalho, sem cuidado, sob caloroso desprezo.

Assim, não. A Academia os recebe, encaderna-os e lhe dá agasalho condigno. Caso queiram.


A. Tito Filho, 18/03/1989, Jornal O Dia.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

GENTE CORAJOSA

Padre Joaquim Chaves escreveu que em 1875 só existia um a livraria em Teresina - a Livraria Econômica, na rua Paissandu, que vendia gravatas, leques, botinas, chapéus, lãs, chitas, vinhos, doces, biscoitos, queijos, inclusive livros, papel, pastas e objetos de fantasia. Assenta o bom historiador da cidade que nesse tempo as lojas eram verdadeiros bazares, de sortimento variadíssimo. No ano de 1917, quando se criou na Chapada do Corisco o jogo do bicho e se fundou a Academia Piauiense de Letras, vendiam livros quatro firmas: A. Carvalho e Companhia, Gomes Ferreira, João de Castro Lima, Leocádio Santos Irmão e Companhia. No estabelecimento de João de Castro Lima, que o povo chamava de Juca Feitosa, comprei, aos dez anos de idade, exemplares de Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Bernardo Guimarães, Joaquim Manoel de Macedo, Alencar e outros, brochuras empoeiradas, que se atiravam a velhas prateleiras de uma sala mal iluminada, escondida por trás do salão de vendas. Livro era objeto de categoria inferior, adquirido por gente sem que fazeres, desocupada, segundo se comentava. Na década de 30, M. A. Tote tinha loja na rua Coelho Rodrigues com venda de revistas do Rio de Janeiro, frequentadíssima. Vendiam-se também a coleção Terramarear, de muito agrado, narrativas de aventuras em terras misteriosas, as peripécias do Tarzan na selva africana, romances policiais de Edgar Wallace e a ficção científica de Julio Verne. Bons tempos, leitura proveitosa, suculenta, alimento de inteligência. Deixei Teresina para estudos noutras paisagens. Percorri novas pátrias, como a cearense e a carioca. Um dia regressei aos penates, à casa paterna, à terrinha onde a própria dor dói menos, como assentou o Juca Mulato.

Mais livreiros abnegados, corajosos, foram surgindo na cidade raquítica de leires, em que, ainda hoje, o empresário derrama pelo gogó escocês legitimo de custo acima do salário mínimo, mas se recusa a comprar um livro de autor piauiense. Surgiram o aplaudido Nilo Marinho, de dedicação exclusiva a esse mister cívico de distribuir idéias; o inteligente Nobre, descrente do poder público, perseverante, sincero, muito sortido de obras célebres e populares; o inquieto Cineas Santos, estudioso da vida e do homem que nela se agita, principalmente o teresinense; o incansável Pacheco, teimoso na arte de vender, solicito, rabo na rapadura de propagador de coleções ricas e úteis desde moço. Quem mais? Perdão pelas falhas de memória a respeito de gente do passado e do presente. Ao correr da pena, na pressa jornalística que atormenta, não se pode demorar à cata de registros da história dos livreiros de Teresina. Este rascunho tem o objetivo cujo gesto Clidenor Freitas Santos elogiou, o de dotar a cidade com elegante livraria, edifício de três pavimentos - Gilberto Mendes Farias, a quem, numa manhã de justiça, a Academia Piauiense de Letras fez louvação, estendendo a todos os que dedicaram aos teresinenses o carinho e a nobreza do trabalho pelo desenvolvimento intelectual da cidade.

A. Tito Filho, 28/11/1987, Jornal O Dia. 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ROTEIRO DE PEDRO SILVA

Pedro José da Silva era o nome todo. No Rio, onde residia, organizou os dois volumes de "O Piauí no Folclore", a que ele dedicou boa parte da velhice, - trabalhando em cinco partes, os tipos, as cenas, os costumes; a religiosidade, as festas de São João; o ciclo do natal; e por fim as danças típicas e gêneros musicais. Um dos volumes constava de numerosos fonogramas, ou sons gravados correspondentes às letras das cantigas folclóricas.

Nasceu Pedro Silva em Teresina, ano de 1892. Morreu em 1974, na antiga capital da República. Recebi os dois volumes referidos no princípio de 1975, ao tempo dos últimos dias de Secretário da Cultura - e os deixei para publicação na própria Secretaria e só agora, neste 1987, localizou-se a obra de Pedro Silva, mas sem os fonogramas, que se sumiram. Confiada a mim, pela viúva, entreguei-a à Academia Piauiense de Letras. Para atendimento de atencioso pedido de Eugênia Maria Ferraz, nobre mulher que vem norteando a Fundação Monsenhor Chaves para a destinação cultural da entidade, a ela cedi à coletânea de Pedro Silva para publicação e divulgação.

Pouca gente se lembra de Pedro Silva, músico e maestro, organizador, harmonizador e regente da Banda de Música do 25º Batalhão de Caçadores, de Teresina, que tanto animou a praça Rio Branco dos velhos tempos românticos nas retretas do coretinho central. Muito novo, no começo do século, criou, com Jônatas Batista, o Clube Recreio Teresinense, que levou a cena, no respeitável Theatro 4 de Setembro, as peças "Natal de Jesus" e "Jovita".

Esse dois piauienses - Jônatas e Pedro - tornaram-se as duas principais figuras da vida teatral da capital piauiense durante anos.

Pedro foi também fundador da sociedade teatral "Amigos do Palco", de amadores inteligentes.

Entre 1917 e 1925, o 4 de Setembro viveu grandes temporadas com as revistas de Jônatas musicadas por Pedro: "O Bicho", sátira ao popular jogo criado pelo barão de Drummond, no Rio; "Frutos e Frutas", "O Coronel Pagante", entre outras.

O ativo maestro ainda fundou o Pálace, na praça Rio Branco, animada casa de diversões de muita freqüência, e posteriormente arrendou o Theatro 4 de Setembro, instituindo a empresa Silva e Companhia, quando trouxe a Teresina célebres companhias teatrais de outras terras.

Passando a residir no Rio de Janeiro, trabalhou em estações de rádio como a Mayrink Veiga e a do Ministério da Educação, época em que muito difundiu o folclore do seu Piauí.

A. Tito Filho, 10/12/1987, Jornal O Dia.    

domingo, 9 de maio de 2010

LIVRO

Há uma idéia generalizada, formativa e gravada de que o vácuo entre os países ricos e pobres se deve à exploração dos segundos pelos primeiros. Antes foi o colonialismo, depois, o neocolonialismo e, mais recentemente, através da dependência econômica. O patrulhamento ideológico não deixa nem que se analise, nem repense, o problema, quanto mais contestar o que se repete até nos areópagos internacionais, ditos neutros e sábios, como a ONU.

Mais uma vez, porém, a exceção confirma a regra. E hoje apresentamos aqui um contestador, Carlos Rangel, que rejeita terminantemente essa idéia, traçando o nascimento e a ascenção da "Ideologia Terceiro-Mundista" como uma espécie de socialismo de última geração, tornado necessário pela falência da profecia marxista original, a de que estaria iminente o colapso do capitalismo. A nova ideologia insiste que a salvação só virá através da revolução (sic).

Rangel explica a inconsistência do apelo emocional e, por isso, a erosão, provocada pela nova ideologia, não apenas no Terceiro Mundo, mas também entre os membros alienados de todo a sociedade ocidental.

De maneira equilibrada, justificada a cada passo, Rangel vai "digerindo" a propaganda neo-socialista e populista, angariadora de votos através de falsas promessas e mentiras.

O atraso do Terceiro Mundo tem razões mais profundas. Não basta reclamar. É preciso ter criatividade e firmeza para encontrar as melhores soluções para crescer.

Carlos Rangel é jornalista venezuelano, colaborador das maiores revistas internacionais dos Estados Unidos e da Europa. Seu livro mais famoso é "Latino-americanos: seu relacionamento de amor e ódio com os Estados Unidos". Também publicou "Marx Y Los Socialismos Reales".

A. Tito Filho, 01 de julho de 1989, Jornal O Dia.