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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TERESINA, CIDADE DA PERDIÇÃO

Esta é a primeira de uma longa série de reportagens, que iniciamos hoje, para denunciar à Nação e as autoridades da IIIª Republica Democrática do Brasil, instituída aos albores de 29 de outubro de 1945, trama sinistra de que se valem aventureiros despudorados, para sugar do aflito povo piauiense, o último centavo, e última gota de sangue de suas parcas economias, nesta hora sem precedentes na história social, economica e política do Piauí.

Campeia, livremente, nas ruas da Capital piauiense, o jogo de azar, num acinte à Nação inteira e às leis que nos governam, como que desafiando as autoridades e induzindo-nos a acreditar que, por traz dos bastidores políticos, há pressões interessadas e convivêntes na sua continuação criminosa.

Dentre os maiores cancros sociais que já nos afligem, como o da prostituição desenfreada; do alcoolismo, sem repressão; da mentalidade sem auxilio pratico e resoluto do Governo; da infancia abandonada e delinquente; o jogo se enfileira e se sobrepõe a qualquer outro, porque, como disse Rui Barbosa, solapa instituições, degrada consciencias e é um caminho aberto para o crime.

Quando em uma nação ou estado, os seus indivíduos procuram no vicio do jogo um motivo para a sua degradação moral, o que existe de mais puro entre êles estará perdido, e, cêdo, desmoronará a estrutura básica da sociedade que os formou. Êste é o conceito em que é tido o cancro social, que hoje, infelizmente, chega á nossas plagas, trazidos pelos vendaveis que já açoitam outros Estados irmãos.

NO COVIL DO JOGO

Terça-feira última esteve nossa reportagem em contacto com o povo das ruas de nossa Capital, auscultando os seus sofrimentos, lendo nas suas faces os dissabores por que tem passado durante o crepitar da fogueira política, que, agora, já amortecida, deixa prevê, claramente, que as suas chamas ainda não partiram da estaca zero.

A cada passo tínhamos a impressão de que a fome e a miséria invadiram tudo e atingira a todos. Uma legião de famintos pedia esmolas ás portas dos estabelecimentos comerciais. Mendigos, por toda parte: nos bares, nas praças, na vida pública. uma onda de dessassossêgo a inquietação pareceu nos invadir a cidade.

O teresinense, outrora alegre e sobranceiro, hoje, já não sabe rir. Acostumou-se a esperar pelo dia de amanhã, do amanhã melhor que não vem ...

Descobrimos, em grupo, várias pêssoas nas proximidades da “Botica do Povo”, a entrar e sair, diversas casas suspeitas, pequenos botequins onde se vendem bebidas à farta, verdadeiras espeluncas de degradação moral, ajuntamentos constantes de meretrizes e cambistas da pior espécie.

Ali se joga, bebe-se e arranjam-se mulheres. E, parece incrível que se afirme – a dez pessoas da Praça Rio Branco no coração da cidade.

O nosso objetivo era atingir o covil do jogo. Ve-lo de perto. Sentir as sensações que ele nos oferece para podermos pintar o quadro real para os nossos leitores.

Dez ou mais cambistas alí estavam localizados. De momento a momento, as poules eram arrancadas dos talões e os centavos e os cruzeiros dos incautos caiam em seus bolsos como o maná do Céu no Sermão da Montanha. Mas, não era ali o Quartel General do jogo do bicho. Não seriam, tambem, o “Bar Carvalho” e o “Restaurante Cairú”, os pontos de reuniões dos transgressores da lei! Precisávamos chegar ao nosso destino e bem informados prosseguimos na nossa marcha e atravessamos a artéria vital do Piauí – o Rio Parnaíba, em demanda da pequenina cidade de Timon, ex-Fiores, onde os pantagruelicos insaciáveis banqueiros dirigem a maquina infernal que consome o dinheiro do povo teresinense e ordenam a miséria e a orfandade de centenas e milheres de famílias nos dois Estados.

Timon, ás 17,30 horas oferece um aspecto diferente. Habitualmente calma, a cidadezinha maranhense fronteiriça á nossa Capital toma banho no nosso velho Parnaíba, muda de roupa e de cara ...

Homens, mulheres e crianças, desconhecidas na cidade, caminham a passos rápidos. Na grande avenida que nos conduz ás proximidades da Igreja Matriz, ali, está localizado

O QUARTEL GENERAL DO JOGO

Pessoas bem informadas nos disseram que Manoel Cabeleira dirige em pessoa, a maquina infernal de fazer dinheiro a seu bel prazer.

De quarenta a cincoenta individuos trabalham na Casa Maldita, como empregados.

Três tesoureiros recolhem o suor e as lagrimas do povo de Teresina. Caixões de querozene, debaixo das gavetas do recolhimento, estão abarrotados de moedas divisionárias. 140 cambistas, aproximadamente, estão chegando para prestarem contas das suas falcatruas contra o povo, são indivíduos já conhecidos da nossa Policia Civil e fichados em nosso Gabinete de Identificação Criminal.

É uma verdadeira legião de criminosos que se aproximam para render graças aos seus patrões. Ali existem todos os jogos. Desde a roleta proibida, aos das apostas nos dados. O quadro é tétrico. As urnas se movimentam. Faltam poucos minutos para correr a sorte. A multidão se comprime e se avoluma. Um grita daqui:

- “Cr$ 0,20 na milhar 3151 e cinco cruzeiros no galo”.

Outro, acolá, blasfema. Uma mulher procura refúgio entre as casa e pergunta pelo palpite, a outro jogador:

- “Qual será, ein, ‘seu’ moço, o bicho de hoje?

- “Cavalo, na 43!”

Naquela tempestade de ilusões, entre um pavoreu sedento por encontrar a felicidade entre quatro números, o Repórter vai abrindo alas, para mais perto ver e ouvir. Ouviu e viu com seus olhos que o povo está sendo miseravelmente roubado por forasteiros desconhecidos, importados da capital maranhense. Viu e ouviu bem o que aquelas urnas representam de mal para os nossos costumes e para as nossas vidas.

Viu, finalmente, que as autoridades policiais do Piauí não estão dando ouvidos aos clamores de uma população sobressaltada, que espera em cada esquina de sua Capital a morte e a deshonra, isto, porque, o jogo na sua fúria está encaminhando milhares e milhares de individuos a cometerem desatinos, a roubar e a matar, saciando o vicio maldito.

A COMPLACÊNCIA DA POLÍCIA

Não se pode afirmar, com segurança, que a nossa desorganizada Policia Civil esteja agindo em conivência com os transgressores da lei federal, que proíbe, terminantemente, a pratica de jogos de azar, classificando, entre eles, o do bicho. Mas, pelo menos, a sua complacência criminosa, deixando que se pratique, em escala aberrante, como a que aí está, constitui um atentado passado à incapacidade repressora da nossa incipiente maquina policial.

A Delegacia de Transito e Costumes está afeta a ação punitiva dos jogos de azar. Se já tomou providências e localizou os pontos de apoio dos cambistas não sabe, talvez, ou talvez não queira saber, que até policiais, investigadores, guardas civis e comissários, são cambistas, sócios de banqueiros e vivem a receber propinas para não “aborrecerem” o Quartel General.

ATENTADO AS LEIS FEDERAIS

Isto constitui, não há dúvida, um atentado e uma desmoralização às leis federais. No Piauí, o jogo é franco. Só não jogam os que habitam o cemitério “S. José”, e, assim mesmo, quem sabe se nas caladas da noite ...

A IGREJA VAI DIRIGIR FORTE CAMPANHA

Segundo colheu a nossa reportagem em fontes dignas de crédito, a Igreja Católica de Teresina vai iniciar forte campanha contra o jogo, do púlpito, apelando para as autoridades e concitando os homens de bem de nosso Estado a cerrarem as fileiras na batalha contra o terrível cancro social.   


Autor: PERTINAX, Jornal A Resitência, 07/08/1949

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

BAURÉLIO

Era de Piripiri. Batizou-se como Benedito, precisamente Benedito Aurélio. Pertencia aos Freitas. Cedo perdeu os pais e passou a ser criado pelo avô fazendeiro. Novinho ainda foi confiado aos cuidados de um amigo da cidade piauiense de Barras, possuidor de farmácia - e o vendedor de remédios lhe ensinou o segredo da manipulação de drogas, ao mesmo tempo em que aprendia mais cousa na escola. Peregrinou por outras comunidades. Era prático de farmácia, até que se fixou em Teresina. Pelos cafundós das suas andanças receitava sempre, e gozava de algum conceito nas recomendações que fazia para a cura dos males físicos da clientela.

Na capital do Piauí redigia jornais. Vestia-se mal. Abandonou a profissão de farmacêutico e fundou "A Jornada". Pôs os petrechos do jornal no lombo de jumento e se tocou pelas bibocas do Estado. Órgão de imprensa ambulante, do qual ele exercia as variadas funções de redator, tipógrafo, paginador e impressor. Também desenhava caricaturas de gente pequenina e graúda e confeccionava os clichês na madeira para ilustração das notícias. Aonde chegava fazia que o periódico circulasse. Adotou vários pseudônimos, mas adquiriu fama e repercussão: Baurélio Mangabeira. E explicava-o: de Benedito, o B, conforme conta das sagradas escrituras. Aurélio traduz homenagem ao pai. Mangabeira denomina arvore dadivosa das matas piauienses, cujo látex vale ouro e o fruto é como a vida: ora tem amargores de fel, ora doçuras de mel.

Irônico, sarcástico, nunca deixou de poupar os orgulhosos, os presunçosos, os metidos a besta. Arrecadou antipatias e malquerenças. Um grandão da politica prometeu que mandaria, em data marcada, dar-lhe uma pisa de cipó. Foi ao chefe de Polícia, a quem pediu interferência, pois no dia fixado tinha compromisso de participação em festa de amigo. As cipoadas deveriam ser adiadas.

Boêmio. Dava-se sempre à boa cana. Vida irregularíssima, como dele disse Cristino Castelo Branco. Morava perto do cemitério e via passar constantemente enterros, defuntos idosos nos caixões pretos, horríveis, anjos e virgens em urnas mais suaves. Lembrou Cristino um soneto por ele escrito, no dia de completar mais um aniversário, com estes versos finais:

Tanta gente a passar pro cemitério,
E eu, caladinho, faço mais um ano.

A poesia de Baurélio assume tonalidades bucólicas, satíricas, românticas, parnasianas, folclóricas. Encantadora sensibilidade artística. Desprezou o dinheiro. Gostava de mostrar o lado feio dos adversários. Bebia, farreava, perambulava entre cidades. A exata pintura de Lima Rebelo bem o mostra por inteiro: todos o procuravam para lhe cobrar alegria, sem que nada lhe dessem. Pobre, começou a pensar nos filhos pequenos e desamparados. Era tarde. Doente, no seu entardecer chorou por não ter conseguido um ninho para os seus pintainhos.

Finou-se o grande poeta em Teresina, ano de 1937, aos 53 anos de idade.

Os piauienses lhe desconhecem a superior inteligência e o imenso talento lírico.


A. Tito Filho, 19/03/1988, Jornal O Dia

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ASSOCIAÇÃO

Vitorioso o movimento popular de 1930, o Piauí ingressou no regime das interventorias. Durante alguns anos de firmaram duas grandes expressões do jornalismo piauiense - Artur Passos, que deu nova e brilhante orientação ao Diário Oficial, e Cláudio Pacheco, fundador de "O Tempo", em que se introduziu o serviço de reportagem, pela primeira vez, na imprensa de Teresina. O órgão dos poderes públicos tinha aspecto gráfico excelente e agasalhava noticiário telegráfico nacional, noticias locais de interesse coletivo, poesia e prosa, atos do governo e luminosas sentenças e acórdãos de juizes e do Tribunal de Justiça, abrilhantado ainda por seguras apreciações literárias, sobre livros e autores. O jornal de Cláudio Pacheco tinha feição moderna, bem redigido, amplamente noticioso, sem que deixasse de lado a política partidária e o teor educacional dos seus comentários. Dois grandes jornalistas - Artur e Cláudio - mereciam admiração e aplausos. Um deles, o segundo, alcançaria triunfos constantes nas pelejas intelectuais, constitucionalista famoso, poeta, romancista, ainda hoje projeta o Piauí nas altas esferas da República. O outro, falecido, deixou rica produção literária sobre homens e fatos de nossa terra.

Cláudio idealizou a primeira entidade "destinada a promover a união e estreitar os laços de solidariedade entre todos os jornalistas piauienses". A 31 de janeiro de 1933, em Teresina, de noite, reuniu-se ele a Frederico Schimitd, Leopoldo Cunha, Heráclito Sousa, Benedito Lemos, Álvaro Ferreira, Baurélio Mangabeira, Antônio Neves e Antônio Freitas, representando-se Ribeiro Gonçalves e Martins Napoleão – e deliberaram fundar uma sociedade de imprensa destinada à defesa dos que militavam na imprensa. Iniciava-se o jornalismo profissional, pois alguns repórteres e redatores já recebiam paga minúscula pelo trabalho desenvolvido, numa época em que ainda ao menos se sonhava com a legislação trabalhista.

O grêmio fundado teve o nome de Associação Piauiense de Imprensa, de que se aclamou diretoria provisória, constituída de Cláudio Pacheco (presidente), Heráclito Sousa (vice), Antônio Neves (1º secretário), B. Lemos (2º secretário) e Álvaro Ferreira (tesoureiro). Vivo, apenas o primeiro.

A prestigiosa API empolgou os jornalistas dessa brilhante fase da imprensa piauiense, sob liderança de Cláudio Pacheco, que a 18 de junho desse ano de 1993 propôs que se convocasse um congresso de jornalistas, "a fim de melhor intensificar o movimento associativo iniciado pela API e tornar mais eficiente a sua atuação como órgão defensor dos direitos e dos interesses e aspirações dos militares na imprensa".

Duradoura a atividade da Associação Piauiense de Imprensa, a que se filiaram os mais destacados jornalistas do Estado, da capital como do interior. Terminou os seus dias de triunfo com o retorno do Piauí às peiticas do partidarismo enervante e mais perverso do que nas épocas antigas.


A. Tito Filho, 13/04/1988, Jornal O Dia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

IMPRENSA

Já escrevi sobre a imprensa de Teresina do século passado e as suas diversas fases. Os jornais de noticiário oficial e de registros de aniversários, óbitos, casamentos, nascimentos, noivados, viagens e viajantes. Surgiria a publicidade de escravinhas e escravos fugidos, passeios a cavalo, mercadorias parisienses, restaurantes. A politica passional, de ódios e malquerensas, iniciou dentro de pouco tempo o processo da xingação. Os correligionários não tinham defeito, os adversários padeciam toda sorte de acusações. Ao lado dos artigalhões desrespeitosos, publicavam-se produções de poetas e prosadores. No começo do século, polêmicas animadas de erudição constituíam a principal matéria para um público ainda pequeno de leitores. De modo geral as batalhas jornalísticas se travavam entre católicos, numa trincheira, e na outra os livre-pensadores, materialistas, ateus consumados, maçons. A imprensa cada vez mais melhorava de aspecto gráfico, mas a violência da linguagem politica persistia. As primeiras grandes reportagens se publicaram sobre a morte do professor Jarrinha, do motorista Gregório e do juiz Lucrécio Dantas Abelino, assassinados. Na década de 30, Cláudio Pacheco com o primeiro jornal de feição moderna, sobretudo caracterizado por uma linguagem nova, sem as costumeiras verrinas contra adversários. Campanhas políticas vibrantes se faziam por candidaturas à constituinte nacional e estadual entre 1934 e 1935. O oficial dos poderes públicos melhorava os processos de confecção, adotando linotipos. Tornou-se também noticioso, com a publicação de fatos da vida politica e social do Estado e todo o Brasil, transmitidos por via telegráfica. Chegaria 1937, com a feroz ditadura de Getulio Vargas e arrolhamento da imprensa até 1945, quando José Américo de Almeida rompeu a severa censura imposta a jornais e jornalistas e desencadeou-se a luta pela presidência da República e por assento na assembléia constituinte inaugurada em 1946. O Piauí participaria dessa luta de políticos dos vários partidos criados, e entre dois deles se repartiam as preferências dos piauienses - o governista, também chamado Partido Social Democrático e o oposicionista de nome União Democrática Nacional. Em Teresina vieram a tona dois jornais, que abrigavam artigos severos, fortes, apaixonados contra os homens da facção contrária. Voltava-se aos velhos tempos. Não se poupavam as lideranças partidárias. Esses caminhos vigoraram a partir de 1945 e persistiram durante umas duas décadas ou mais. Desde a fundação de jornais em Teresina até a década de 60, jornalista não recebia vintém pelo que escrevia.


A. Tito Filho, 11/09/1988, Jornal O Dia.

domingo, 21 de novembro de 2010

A TESE DE HIGINO

No 1º Congresso de Imprensa do Piauí, a irrecusável autoridade de Higino Cunha se assentou sobre o estudo social e político do Piauí para dividir a história da imprensa entre nós em três períodos. Inicia os comentários a respeito de Oeiras, e na antiga capital os jornais se limitavam a publicação dos atos do governo e a baixos xingamentos nas pessoas. Não defendiam planos administrativos. Abdias Neves referiu-se aos repulsivos pasquins metidos pelas portas e janelas alta noite. Higino sustentou que a imprensa não podia medrar nesse ambiente, pois não formava opinião, mas apenas gerava ódios e despeitos. Contra o Visconde da Parnaíba houve panfletos violentos.

Abdias Neves disse que os jornais desses primeiros tempos viveram pouco. Eram plenos de ofensas pessoais e não respeitavam ao menos a vida privada dos cidadãos.

Com a transferência da capital para Teresina, surgiu na cidade fundada por José Antonio Saraiva "A Ordem", de vida breve.

O autor da tese acha que nos últimos tempos do Império e primeiros da República, a imprensa avançou, progrediu. Deu-se o esforço para o jornal diário. Cultivaram-se idéias mais nobres, criou-se o serviço telegráfico e deu-se o uso de clichês. Diminuiu a virulência de linguagem. Este seria o segundo período, em que aparecem Davi Caldas, Deolindo Mendes da Silva Moura, Coelho Rodrigues, Agesilau Pereira da Silva, José Manuel de Freitas e outras altas expressões. A imprensa já obrigava que os governos se defendessem das censuras que lhes eram dirigidas.

Higino admite que o terceiro período começa por volta de 1910. Surgiram em Teresina intelectuais que alcançariam triunfos merecidos: Antonino Freire, Abdias Neves, Miguel Rosa, João Pinheiro, seguidos de Valdivino Tito e Matias Olímpio, que iniciaram a luta contra a mentalidade do meio. Fundaram "A Pátria", que chegou a ser diário, audacioso e de idéias originais. "Memoráveis as campanhas que eles sustentaram, na imprensa local, em prol dos interesses materiais, morais e intelectuais do Piauí". Dessa época é a Academia Piauiense de Letras, com a sua revista espalhando boa prosa e boa poesia. Clodoaldo Freitas e o próprio Higino Cunha formavam a retaguarda desses revolucionários, entre os quais Luis Mendes Ribeiro Gonçalves e Lucidio Freitas.

Nessa fase nova da imprensa travou-se a séria luta entre os maçons e os padres católicos.

Estudando a imprensa do Piauí, nessas três fases em que procura definir-lhe aspectos desde Oeiras até as festas dos centenários da Independência do Piauí (1922/1923) conclui o mestre: "Os jornais diários que aqui vão aparecendo, quase sempre nas vésperas de lutas eleitorais, têm tido todos existência precária e instável. Só o governo conseguiu fixar definitivamente o Diário Oficial".

Higino reconhece que a tese está incompleta. Falta-lhe a fixação de vários aspectos, com os atentados sofridos - espancamentos, crimes, prisões violentas praticadas contra jornalistas.

Depois tocaremos no assunto.


A. Tito Filho, 20/05/1988, Jornal O Dia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O SEMANA

Antônio Lemos foi das maiores vocações de lutador da imprensa piauiense, de coragem exemplar no ardor das campanhas que empreendia. Antônio Lemos, o Semana, como era conhecido, gozou de grande admiração e respeito, pela firmeza com que defendia convicções e pela inabalável posição de defesa dos ideais de liberdade do jornalismo. Nada receava, nem jamais desertou da tribuna de luta.

Colheu-o a morte aos 78 anos incompletos, pois nasceu no dia 24 de novembro de 1889.

Foi, durante alguns anos, guarda-livros de várias firmas desta capital, transferindo-se em 1917, para Floriano, onde fundou o jornal "Cidade de Floriano". Regressou a Teresina em 1921, retornando às atividades contábeis.

Em 1930 criou "A Liberdade", com Leão Marinho e Nonato Marinho, jornal que sustentou luta até a queda do governo de Humberto de Areia Leão. Residiu na antiga Flores, hoje Timon, fundando a "Gazeta de Flores", com os filhos Alberoni e Alborina. Ao tempo da revolução de São Paulo, 1932, foi preso pela policia do interventor Landri Salis, readquirindo a liberdade após 19 dias de encarceramento. Em 1935, ainda com Leão Marinho, fez circular "O Libertador". Surgiu em 1937, sob sua orientação, o "Almanaque Piauiense". Posteriormente, com Alberoni e o irmão Prof. B. Lemos, transformou o semanário "Gazeta" em órgão diário, fechado em 1944, durante o período ditatorial do presidente Vargas. Foi um dos fundadores de "O Pirralho". Passou a residir no Rio de Janeiro a partir de 1949, sempre escrevendo na imprensa de sua terra como correspondente do jornal "A Luta", fundado por Tito Filho, Alberoni Lemos e Fabrício de Areia Leão.

Com a morte de "velho Semana" - o admirável e corajoso Antônio Lemos - perdeu o Piauí uma notável figura de sua imprensa, criador de jornais, fazedor de jornais, conhecedor de todos os segredos das oficinas e da redação jornalísticas.

Ao tempo do 1º Centenário de Teresina, brindou a nossa História com este notável estudo sobre o vigário Mamede, o primeiro sacerdote que celebrou missa na Chapada do Corisco e depois quando da inauguração da igreja do Amparo.


A. Tito Filho, 04/09/1988, Jornal O Dia. 

domingo, 29 de agosto de 2010

JORNALISTAS

Breno Pinheiro nasceu em Barras (PI), 1899, e faleceu no Rio, 1957. Integrou-se de começo na capital paulista, como jornalista. Criou o primeiro sindicato da classe. Trabalhou em "O Estado de São Paulo". Passou ao Rio de Janeiro como redator do "Jornal do Brasil". Tinha a frase leve, elegante e atraente.

Álvaro Alves Ferreira era de Piripiri (PI), onde nasceu em 1893. Morreu em Teresina, 1963. Dentista, profissão que trocou pelo magistério. Viveu muitos anos na capital piauiense. Professor de francês e geografia. Diretor do antigo Liceu Piauiense. Mestre acatado. Destacou-se mais como jornalista combativo. Redator de vários órgãos de imprensa. Linguagem brilhante. Também fez crítica literária e escreveu crônicas de estilo claro. Publicou "Da Terra Simples", de estudos do meio piauiense.

Honório Portela Parentes nasce em Colônia de São Pedro de Alcântara, hoje Floriano (PI), 1882, e faleceu em Caxias (MA), 1909. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia. Trabalhou no antigo Asilo dos Alienados de Teresina. Tinha grande capacidade de defender as próprias idéias. Jornalista de grande cultura, tomou parte da luta politico-religiosa que se travou na capital piauiense. Incorreu no desagrado de muitos. Polemista e critico. Exímio cultor da língua vernácula, tinha estilo elegante. Publicou a tese chamada "Vacina e Vacinação contra a Varíola", em que defende a descoberta de Jenner.

Deolindo Mendes da Silva Moura nasceu em Oeiras (PI), 1855. Faleceu em Teresina, 1872. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. Fixou-se na capital piauiense. Orador eloqüente. Advogado famoso. Foi, sobretudo, jornalista. Redigiu e criou jornais, gastando a fortuna herdada em campanhas eleitorais. Três vezes deputado provincial. Padeceu perseguições que o mataram ainda jovem. Não publicou nenhum livro. Seus artigos notáveis talvez tenham desaparecido nos jornais. Esbanjava talento.

Heitor Castelo Branco nasceu em Teresina, 1875, e faleceu no Rio de Janeiro, 1952. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife. Professor. Procurador da República no Piauí, fundando e dirigindo jornais na capital piauiense. Em 1910, fixou-se no Pará. Chefe da Segurança de Belém. Diretor do Liceu Paraense. Professor da Faculdade de Direito do Pará. Deputado estadual. Fundador de "O Diário". Deputado Federal. Regressando ao Piauí, elegeu-se deputado federal. Procurador geral do Estado. Novamente no Pará, presidente do Departamento Administrativo dessa unidade federativa. Jurista, orador, dominava o vernáculo. Recusou o governo dos dois Estados por motivos de lealdade. Exerceu com nobreza as funções que lhe foram confiadas. Praticou mais do que tudo um jornalismo culto e corajoso.

OBSERVAÇÃO. Último domingo, escrevi aqui neste meu lado de esquerda que mataram Lampião na madrugadinha de 28 de julho. Mas saiu 29. Coleguinhas da revisão, o troço se deu a 28, dezena do carneiro no jogo do bicho.


A. Tito Filho, 02/08/1989, Jornal O Dia.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O DIA: história e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examina-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia.            

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DONDON DE SEMPRE

Teresina na década de 20 contava com um jornal crítico por excelência, chamado O DENUNCIANTE, dirigido por Dondon Castelo Branco.

Antigamente, em Teresina, o defunto era conduzido ao cemitério por amigos, a pé. Não havia ainda carro funerário. Atrás do caixão, iam os familiares e os conhecidos e admiradores. Dondon muito se preocupava com o acompanhamento. Em 1928, escreveu no jornal:

"Na hora do enterro apresenta-se um aluvião de pessoas para acompanhar o defunto, porém logo no sair da porta começa a debandada de um, dois, aqui, ali, e acolá, e quando chega do meio do caminho em diante é que a debandada é grande, chegando ao cemitério quase sem acompanhamento, quando não deviam fazer assim, pois se o cemitério é longe ou se a pessoa é velha e não resiste a viagem ou se está doente ou se tem muito trabalho a fazer em casa, ou seja por qualquer motivo, nestes casos será melhor que lá não vá, e não ir somente aparentar, que fica muito feio e se não hão de fazer assim é melhor que peçam desculpas ao dono do defunto, alegando os seus motivos e não voltarem do caminho, como tem acontecido nestes últimos enterros, nos quais, do que menos voltaram foi no enterro do dr. Collect, e no que mais voltaram foi no do dr. Francisco Parentes. Se assim a moda pegar, chegará o dia em que os próprios carregadores também deixarão o defunto no meio da rua até que os donos tomem qualquer providencia em obter com a policia que mande presos conduzirem o defunto a fim de não espocar no meio do tempo".

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Noutra edição do jornal, escreveu:

"No dia 6 morreu nesta capital e enterrou-se no dia 7, Dona Delmira lobão Veras, mãe do médico Dr. Anfrísio Lobão, a quem o dono deste jornal apresenta pêsames extensivos aos demais parentes. Acompanharam o enterro 42 pessoas e voltaram do caminho 21. No outro número serão publicados apenas os nomes das pessoas que chegaram ao cemitério".


A. Tito Filho, 19/02/1989, Jornal O Dia.