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quinta-feira, 12 de julho de 2012

TERESINA ANTIGA

Nos festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós. BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda, composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos, propriedade de Pedro Tonga. A professora de música Ana Bugyja Britto mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco, dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e  a de segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS. O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar. Dia de domingo realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha. CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa, na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na Piçarra. No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS. Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada, bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro, que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o "Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas graças e atrativos.

A. Tito Filho, 04/11/1988, Jornal O Dia - p. 4

segunda-feira, 7 de maio de 2012

CIDADE SEM LEI


"Cidade sem lei" é um filme que não há muito passou no Rex. Quem assistiu ao mesmo e observa o que está se passando em Teresina no que diz respeito à ordem pública e à insegurança dos cidadãos, há de convir que a Capital piauiense é também, hoje em dia, uma cidade sem lei. Nos perímetros urbano e suburbano dão-se frequentes roubos e furtos; a jogatina mais desenfreiada campeia em todos os recantos de Teresina; legiões de mendigos - verdadeiros e falsos - invadem lares, cafés e restaurantes do centro da cidade; e até loucos, falando sozinhos e soltando pinotes, perambulam pela praça rio Branco e ruas adjacentes; das oito horas da noite em diante, a praça Rio Branco transforma-se em cabaré ao ar livre, pois na mesma se aglomeram dezenas de meretrizes; e, em pleno coração da cidade, na praça Rio Branco, quando considerável massa popular se concentrava às dez horas da manhã do dia 2, desenrolou-se a mais triste cena que se pode contemplar numa cidade civilizada, que é capital dum Estado da Federação.

José Pascoal, de espingarda em punho, acompanhado dum capanga, armado também de espingarda, dirige-se ao "Café Avenida" para atirar no negociante Antonio Couto, diretor de "A Folha", quando este estava de guarda a um cartaz do seu jornal que, na véspera, havia sido rasgado por José Pascoal.

Não entramos em detalhes sobre a questão de José Pascoal com o diretor de "A Folha".

O que nos cabe é condenar a indiferença criminosa da polícia do Sr. Rocha Furtado diante de tais fatos humilhantes e vergonhosos aos nossos foros de civilização.

O que nos cumpre dizer ao nobre povo de Teresina é que se acautele dos valentões e sicários que infestam a cidade, a sôldo do governo e de figurões da U.D.N., pois os mesmos agem com a cumplicidade da Polícia do sr. Rocha Furtado, o homem que se considera santificado em vida e vive, em Karnak, em constantes extasis infernais...

Mêses atrás, no Bar Americano, Demerval Lobão e o deputado João Carvalho agrediram covardemente o jornalista Amandino Nunes; há um mês, mais ou menos, o diretor-redator da "Resistência", jornalista Walter Miranda, recebeu inopinada e selvagem agressão de Gomez Lima, correligionário e protegido do diretor da Fazenda; e, por último, Teresina foi teatro da mais revoltante tragi-comédia, cujos protagonistas foram o José Pascoal, o seu capanga e o Couto.

A palhaçada guerreira do primeiro e o "passo de ganso" do último em direção do automovel proporcionaram agradáveis minutos de diversão a muita gente que estava na praça... Só se ouviam gargalhadas, gritos, chacotas e assobios. No momento do ataque dos bravos carabineiros, havia, na Praça, alguns policiais, que a tudo assistiram passivamente. Os agressores foram desarmados por populares.

Ambos desapareceram do local calmamente, como se nada houvesse acontecido.

Desdobrou-se, então, ali, a mais legítima cena do Far West norte-americano... Consta que a Polícia não apreendeu as armas do Pascoal e do capanga, nem tão pouco os incomodou. O Couto, ainda cansado, pálido e apreensivo, é que, uma hora depois do ocorrido, reapareceu no "Café Avenida" e la se sentado numa das bancas, a quem pediu garantias de vida, mas a resposta foi uma aspera repreensão...

E o Pascoal, horas depois, já andava na rua exibindo revolver na cinta e conduzindo um relho crú no bolso para surrar o Couto e o Mundico Santídio. Que confiança pode inspirar, portanto, ao cidadão de Teresina, sobretudo sendo adversário do governo, a Polícia do sr. rocha furtado?

Então, só a gente do governo e da U.D.N. é que tem dignidade e sensibilidade moral? Quantas ofensas e injúrias graves não teem sido atiradas contra os ilustres membros do Tribunal de Justiça do Estado, contra o Cel. Gaioso e os drs. Leônidas Melo, Pires Gaioso, Mario Batista, Claudio Pacheco, Edgar Nogueira, Santos Rocha, etc? E Eurípedes de Aguiar, João Cavalcante, Ofélio Leitão e os demais escrevedores do "O Piauí" já tiveram, por causa disto, a cabeça rachada e a costela quebrada?

Só a gente do governo, através do seu pasquim, é quem pode descompor à vontade e ofender quem quer que seja?

Logo depois da bravata do Pascoal e da fuga do Couto, o chefe de Polícia, desembargador Simplício Mendes, ao Café Avenida, completou a comédia da manhã bradando, entre arrogante e colérico, que sua autoridade não seria desrespeitada e que não admitia desordens, nem arruaças.

Ora, sr. desembargador Simplício, para que desacato maior as autoridades do que o assalto manu militari feito pelo Pascoal e o seu façanhudo capanga, na praça mais movimentada da cidade e na presença de centenas de pessoas!? Nunca houve em Teresina afronta maior à sociedade do que a praticada pelo Pascoal, no dia 2 transato. Afronta esta com a conivência ou pelo menos beneplácito da Polícia, pois os autores da tentativa de morte contra o comerciante Antonio Couto até agora nada sofreram.

No instante em que o Pascoal se afastava do "Café Avenida", o Milton Aguiar abraçou-se com ele e o acompanhou todo risonho e satisfeito. Teresina, bem como todo o Piauí, está, pois, sem governo, sem lei, em completo regime de anarquia e de falta absoluta de garantias para qualquer cidadão, principalmente para aqueles que se opõem ao governismo piauiense, cuja figura central é Rocha Furtado - lacaio mór de Eurípedes de Aguiar.


A. Tito Filho, 05/11/1949, Jornal A Resistência, página 5-6

domingo, 11 de dezembro de 2011

FALAR DE A. TITO FILHO

Falar de A. Tito Filho é uma tarefa prazerosa, mesmo nesse momento de tristeza que já foi cumprida, aqui e alhures, por autoridades literárias, como o escritor catarinense Theobaldo Jamundá em sua obra "A. Tito Filho Incomparável" (Florianópolis, Indústria Gráfica e Editora Canarinho Ltda., 1991). Falar de A. Tito Filho é abordá-lo em diversos aspectos, principalmente no do A. Tito Filho professor - de Organização Social e do Brasil, de Estudos Sociais, de Sociologia Educacional da Escola Normal de Teresina, de Língua e Literatura Portuguesa da antiga Faculdade Católica de Filosofia do Piauí, de Língua e Literatura Portuguesa do Liceu Piauiense, de Língua Vernacular Jurídica da Escola Superior de Magistratura do Piauí; Jornalista - de "Libertação", no Rio de Janeiro, do "Estado do Piauí", do "Jornal do Comércio", de "O Piauí", do "Jornal do Piauí", colaborador de "O Dia" e de "O Estado", organizador e editor da Revista da Academia Piauiense de Letras e de muitos outros jornais e revistas; escritor - escreveu, dentre outros, trinta e seis livros (deixou trabalho inédito), como historiador, cronista, poeta, filólogo, lexicólogo, biógrafo, geógrafo, humorista, pesquisador, sociólogo, jurista, crítico literário etc., o que o projetou nacionalmente e lhe permitiu, há mais de vinte anos, ingressar na Academia Piauiense de Letras, entidade que presidiu por vinte e dois longos anos; e baluarte da cultura piauiense - além das inúmeras obras e artigos que escreveu, possibilitou a ascensão de um sem número de autores jovens, organizou e revisou uma infinidade de trabalhos, revistas e jornais, incentivou autores já consagrados a continuarem escrevendo e publicando obras, o que fez a literatura piauiense crescer enormemente, dando à Academia Piauiense de Letras um lugar privilegiado no cenário cultural brasileiro, como instituição das letras das mais atuantes deste país. Como Secretário de Educação e Secretário de Cultura, lutou incansavelmente em favor da cultura e da educação do povo do Piauí, das artes e letras desta terra, destacando-se, por imprescindível, seu grande trabalho junto ao Theatro 4 de Setembro, promovendo as artes cênicas, plásticas e cinematográficas e propagando a cultura de todos os gêneros e matizes. 

Mas falar da vida de A. Tito Filho é dizer, acima de tudo, que ele era um homem que amava a vida, amava o próximo, amava Teresina, o Piauí, o Brasil... a humanidade. Amava o povo, o povo pobre e miserável, que o fazia, muitas vezes, sofrer, por não aceitar tão indignante situação, para ele facilmente resolúvel, caso a ambição e o egoísmo humanos fossem contidos.

Falar de A. Tito Filho não é somente falar de suas brilhantes qualidades de exímio orador que era, nem tampouco, de suas comendas, medalhas, títulos e inúmeros cargos que conquistou, por competência, no decorrer da vida, mas é, sobretudo, falar de uma autoridade, no conceito arendtiano, respeitada naturalmente, sem arrogância e sem violência, pelo respeito que os homens espontaneamente sentem por ela.

Falar de A. Tito Filho é ressaltar a sua simplicidade, a sua honestidade, a sua humildade, a sua bondade, o seu amor ao próximo.

Falar de A. Tito Filho é acentuar a sua capacidade trabalho, o seu amor pela Academia Piauiense de Letras, o seu gostar de escrever, que ele tanto reclamava, nos últimos instantes de vida, não poder fazer mais, mas que fez até quando não mais pôde.

Falar de A. Tito Filho é realçar a sua dignidade, que lhe dava o direito de ser amado por muita gente, e é, outrossim, realçar a sua capacidade de amar, de amar o semelhante, de nutrir por ele um profundo sentimento, sentimento reservado aos homens evoluídos, chamado de alteridade, revelado na sua grande capacidade de autosignificar-se através dos outros.

Por tudo isso, falar de A. Tito Filho é um orgulho, é alegria, é prazer; prazer de tê-lo tido conosco, de ter podido circundar o seu existir e, muito mais do que isso tudo, de termos podido autosignificar-nos através dele, que tanto amor nos deu.

OBRAS DE A. TITO FILHO

1. Combustível e Alimento - 1951

2. O Problema Social da Infância - 1952

3. Da Atualidade do Latim Vulgar - 1958

4. Estudo do Vocabulário da Lira Sertaneja - 1972 e 1988

5. Viagem ao Dicionário - 1º Volume - 1972

6. Esmaragdo de Freitas, Homens e Episódios (antologia comentada) - 1973

7. Deus e a Natureza em José Coriolano (antologia comentada) - 1973

8. Zito Batista, o Poeta e o Prosador (antologia comentada) - 1973

9. Lima Rebelo,o Homem e a Substância (antologia comentada) - 1973 e 1985 (2 edições)

10. Notas e comentários à "Cronologia Histórica do Piauí", de Pereira da Costa - 1974

11. Teresina Meu Amor - 1973, 1974 e 1991 (3 edições)

12. Governos do Piauí - 1974, 1975 e 1978 (3 edições)

13. Notas e Comentários à "Guerra de Fidié", de Abdias Neves - 1974

14. Gente e Humor - 1974, 1975 e 1978 (3 edições)

15. Praça Aquibadã, Sem Número - 1975

16. Sermões aos Peixes - 1975

17. Teresina, Ruas, Praças, Avenidas e Roteiro Turístico - 1976 e 1986 (2 edições)

18. Crônica da Cidade Amada - 1977

19. Carnavais de Teresina - 1978

20. A Igreja do Alto da Jurubeba - 1978 e 1986 (2 edições)

21. José de Freitas, Comunidade Exemplar - 1978

22. Sua Excelência o Egrégio - 1978 e 1991 (2 edições)

23. A Augusta Casa do Piauí / O Poder Legislativo do Piauí - 1978 e 1990 (2 edições)

24. Memorial da Cidade Verde - 1978

25. O Piauí no Congresso Nacional - 1980

26. Chico´s Bar a Solução (estudos de anglicismo/Anglo-Norte Americanismos no Português do Brasil - 1982 e 1986 (2 edições)

27. Um Manicaca - Documento de uma Época - 1982 e 1985 (2 edições)

28. Matias Olimpio - Pensamento e Ação

29. Teresinando em Cordel - 1982

30. Viagem ao Dicionário - 2º volume - 1983

31. Mais sermões aos Peixes - 1984

32. Poesia e Prosa - Jônatas Batista - (antologia comentada) - 1985

33. O monumento do Jenipapo - 1989 (em co-autoria com o Pe. Joaquim Chaves)

34. Liceu Piauiense - Memória Histórica e Sentimental - 1989

35. Crônicas - 1990

36. Obra inédita, dedicada à Dona Delci Maria Tito

Raimundo Itamar Lemos Fernandes Júnior, 30/06/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 15 de março de 2011

AINDA JÂNIO

Jânio da Silva Quadros nasceu nas bandas de Mato Grosso, aí nos 1918. Fixou-se em São Paulo, acatado professor de Português e de História nos colégios secundários. Ganhou a estima da estudantada: cumpria o dever e sabia ensinar. Por influência dos meios estudantis, ingressou na política, com a pretensão de eleger-se vereador. Pobre, conquistou simpatias com a sinceridade das suas falas aos leitores.

Era 1947. Somente em alguns estados havia coincidência de eleições de governadores, senadores, deputados e cargos eletivos municipais. As presidenciais eram de cinco em cinco anos, coincidentes com alguns governadores, como o do Parnaíba, por exemplo, a quem se conferiu um qüinqüênio de mandato.

Em São Paulo eram poucas as coincidências dos diversos pleitos. Jânio, na disputa da vereança, logrou uma segunda ou terceira suplência num partido sério, mas pequeno. O presidente Dutra, porém, declamou guerra aos comunistas e, com a conivência da Justiça e do Congresso, cassou o registro do Partido Comunista e o mandato de quantos comunas estivessem no seu próprio grêmio partidário ou metidos noutras agremiações. Sobraram vagas e deu-se o aproveitamento de Jânio Quadros, para a mais fulminante carreira política feita no Brasil.

Mal chegava ao final do mandato de vereador, Jânio era conduzido à Assembléia Legislativa. Não terminou os quatro anos da legislatura, consagra-se prefeito de São Paulo, derrotando oito partidos fortes e dezenas de políticos célebres e endinheirados. Foi a luta do TOSTÃO CONTRA O MILHÃO. Nascia o FENÔMENO. Antes de findar o seu período administrativo na Prefeitura, mais uma vez vitória retumbante levava-o ao governo do estado, em que passou os quatro anos completos do mandato, embora alguns meses antes do fim já estivesse eleito deputado federal pelo Paraná.

Nas eleições de 1960, mais de seis milhões de brasileiros lhe confiaram a presidência da República. Assumiu a 3 de janeiro de 1961 e a 25 de agosto do mesmo ano renunciou ao poder, na tentativa, segundo penso, de um golpe, para fechar o Congresso e criar o regime ditatorial.

Tentou voltar ao cenário político. Derrotado na candidatura ao governo de São Paulo. Direitos políticos suspensos por dez anos. Em 1985, ganhou a eleição de Prefeito de São Paulo, assumindo a primeiro de janeiro de 1988. Administração modelar. Sofre permanente campanha de descrédito dos poderosos órgãos de comunicação da capital paulista. Leiam, porém, editorial do "Jornal do Brasil", do Rio, edição de 20-4-88, página 10: "Eleito na última safra de prefeitos, o Sr. Jânio Quadros trouxe para o cargo uma convicção que logo pôs em prática: a de que a administração pública não é feita para dar lucro nem prejuízo. A folha de pessoal, para não se tornar uma aberração, deve manter-se em torno de 50% da receita, o que permite a preservação da capacidade de investimentos. São Paulo, até recentemente, parecia entregue a sina dos loteamentos clandestinos: ocupavam-se terras e prédios a torto e a direito, em nome do SOCIAL. O Sr. Jânio Quadros passou a desocupar, em nome do interesse público, o que também é uma forma de agir num contexto SOCIAL. Com isto se tem uma cidade moderna administrada em figurino moderno. O tamanho da proeza, tratando do Brasil e de uma megalópole, granjeou para o prefeito de são Paulo o reconhecimento público. A popularidade bafejou o administrador que, ao populismo barato, opôs as idéias de eficiência e respeito às autoridades".

Jânio, magnífico Jânio.


A. Tito Filho, 27/04/1988, Jornal O Dia

SEU LAMPA

Era madrugada do dia 29 de julho de 1938. Na última quinta-feira o episodio completou cinqüenta anos. Os homens e as mulheres do bando começavam levantar-se, em gostosos espreguiçamentos, bocejantes, quando a fuzilaria teve início. Balas de inúmeras bocas de fuzil matavam os tipos naqueles confins do Estado do Sergipe. Confiou-se a façanha à polícia alagoana, em grupo chefiado pelo capitão Bezerra. No chão de Angico, o esconderijo dos cabras, se contaram onze cadáveres. Alguns da cabroeira conseguiram fugir ao cerco impiedoso e de surpresa. Tratava-se do bando de Virgulino Ferreira da Silva, pernambucano conhecido pela alcunha de Lampião, também dito SEU LAMPA, morto ao lado de Maria Bonita, com quem ele viveu em amancebamento, prodigalizando-se reciprocamente um amor romântico debaixo das árvores às vezes de boa sombra na terra sertaneja. Sexo no cangaço.

Muitos homens entraram na história do Brasil por caminhos diferentes, da mesma forma que noutros países. John Wilkies Booth não se separa do presidente norte-americano Lincoln, uma vez que o primeiro matou o segundo, nem de Chicago desaparece o nome de Al Capone, chefe de GANGSTERS, e a Alemanha e o mundo nunca esquecerão Hitler. Antes de Lampião viveu Antônio Silvino, célebre governador do sertão, cangaceiro ilustre, preso e condenado, e cuja pena mereceu comutação de Getúlio Vargas, na década de 40. Silvino visitou o presidente para agradecimento, deu entrevista a jornais, revistas e a escritores.

Domingos Jorge Velho sentou-se na história do Piauí, mas na verdade o seu extraordinário heroísmo verificou-se no genocídio do quilombo dos Palmares. O presidente da República chamado Prudente José de Morais Barros, enviou exércitos para combate a Antônio Conselheiro, no arraial de Canudos, terra baiana, o primeiro núcleo socialista da América do Sul. Uma campanha injusta, infame até, se promoveu na imprensa nacional contra o barbudo comandante dos caboclos na comunidade de que Euclides da Cunha se serviu para mostrar com segurança a miséria do interior brasileiro. Milhares de soldados da República eram repelidos e morriam às pencas. Conselheiro seria o primeiro chefe de guerra de guerrilha nas Américas, estrategista sem igual. As tropas presidenciais ao menos conseguiam aproximar-se do casario da caboclada. Conselheiro queria apenas que os latifundiários do cacau pagassem decentemente os trabalhadores explorados. Rico tem raiva de pobre.

Lampião foi vítima de um Brasil atrasado, roubado pelo coronelismo impiedoso, cujos filhinhos mimados emprenhavam as cunhazinhas amedrontadas - um país sem lei, sem alma, perverso com os humildes, espoliador dos pobres. Vigorava um aparelhamento policial embrutecido e violento, de assassinos impunes. Nesse clima, haveria de surgir o cangaço, ou o cangaceiro vingativo e cruel. Hoje os estudos de quantos se têm preocupado com o fenômeno do fora-da-lei demonstram que esses homens viviam da violência para que pudessem sobreviver.

De 1925 a 1938, Virgulino atormentou vários Estados. Não andou no Piauí. Matava e pilhava, para vingar as barbaridades policiais contra a sua família. Foi traído por um coiteiro, tipo que prestava serviços aos cangaceiros. A polícia cortou as cabeças dos onze cadáveres no esconderijo de Angico. Arrumou-as num caminhão e com elas percorreu alguns trechos do território nacional, sob aplausos da plebe ignara e dos coronéis interioranos. Em Salvador da Bahia terminou a exibição macabra. As cabeças se incorporaram a um museu e muitos anos depois encontraram o descanso do sepulcro.


A. Tito Filho, 31/07/1988, Jornal O Dia

OS SÓCIOS

Em artiguete anterior, vimos que o trabalho objetivo de Cláudio Pacheco e outros jornalistas criaram a primeira entidade jornalística do Piauí, a Associação Piauiense de Imprensa, noite de 31 de janeiro de 1933. Elegeu-se a diretoria provisória que divulgamos. Ainda por sugestão de Cláudio verificou-se o primeiro Congresso de Imprensa do Piauí, cuja sessão preparatória teve lugar a 22 de julho na sede da Associação Comercial Piauiense. Publicamos nesta coluna os nomes dos jornais e jornalistas presentes. No dia seguinte, instalação solene do Cinema Olímpia, praça Rio Branco. Houve sessões ordinárias em número de cinco, inclusive a de encerramento, entre 24 e 28 de julho, inscreveram-se quatro teses:

1) Criação e desenvolvimento da imprensa no Piauí (feição moral, compreendendo o histórico das campanhas jornalísticas ocorridas no Estado), de Higino Cunha.

2) Criação e desenvolvimento da imprensa no Piauí (feição material, compreendendo o aparecimento do primeiro jornal e o histórico do desenvolvimento das artes tipográficas no Estado), de Joel Oliveira.

3) Liberdade de imprensa (compreendendo censura e ética jornalística), de Cláudio Pacheco.

A quarta tese - o jornalista (estudo de sua figura em relação ao meio), de Pedro Conde, a pedido do autor foi suprimida do programa estabelecido.

O Congresso aprovou os Estatutos da Associação Piauiense de Imprensa e elegeu a primeira diretoria da entidade: presidente, Cláudio Pacheco; vice-presidente, Heráclito Sousa; 1º secretário, Antônio Neves; 2º secretário, Álvaro Ferreira; e tesoureiro, Joel Oliveira.

Conselho Fiscal: Benedito Pestana, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e B. Lemos.

Comissão de Sindicância: Heráclito Sousa, Leopoldo Cunha e José Messias Cavalcanti.

Departamento de Publicidade: Antônio Neves, Benedito Pestana e Osíres Melo.

Posse a 6 de agosto de 1933, com mandato até 31 de maio de 1934.

Eis a relação geral dos primeiros sócios da Associação Piauiense de Imprensa:

Teresina: Cláudio Pacheco, Heráclito Sousa, Antônio Neves, B. Lemos, Álvaro Ferreira, Frederico Schmidt, Leopoldo Cunha, Martins Napoleão, Baurélio Mangabeira, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Cronwell de Carvalho, Luiz Lopez Sobrinho, Antonino Freire, Vaz da Costa, Higino Cunha, Esmaragdo de Freitas, Joel Oliveira, José Severiano da Costa Andrade, João de Oliveira e Sousa, Joel de Andrade Sérvio, Celso Albuquerque, Adolfo Alencar, padre Helvídio Mata, Raimundo de Brito Melo, Elias Martins, José Fonseca Ferreira, Cristino Castelo Branco, Pedro Borges, Antônio Costa, Pedro Brito, Almerinda Vieira Nunes, Benedito Pestana, Heitor Castelo Branco, Antônio Chaves, Osíris Melo, João Pinheiro, Leão Marinho, Mário Batista, Martins Vieira, Epifânio de Carvalho, Nelson Cruz, Vitor Martins, Domingos Monteiro, José de Arimathéa Tito, padre Israel Souza, Augusto Ewerton e Silva, José Messias Cavalcanti, Odilon Nunes, Mário Bento, Oliveira e Ferres, Moura Rêgo e Helvécio Coelho Rodrigues.

Parnaíba: Epaminondas Castelo Branco, Elias Magalhães, Alarico da Cunha, padre Roberto Lopes, Édison Cunha, Daniel Paz, Adolfo Santos, Humberto Fonseca, João Pinto, Raul Primo e Lima Rebelo.

Floriano: Alceu Brandão, Veras de Holanda, Hosternes Brandão, José Pires Ferreira e Osvaldo da Costa e Silva.

Amarante: Pedro Conde e Cunha e Silva.

Picos: Joaquim Leitão.

Campo Maior: Mário da Costa Araújo.

Simplício Mendes: Isaías Coelho.

José de Freitas: Antônio Freitas.

Altos: Gonçalo Cavalcanti.


A. Tito Filho, 29/04/1988, Jornal O Dia

segunda-feira, 14 de março de 2011

MENTIROSOS

As estórias fiadas dos grandes mentirosos estão incorporadas ao folclore das coletividades. Ouvi muitas dessas narrativas no interior e li-as depois em livros de estudiosos dessas interessantes e curiosas manifestações populares.

Em Teresina meu querido e inesquecível Mário José Baptista contou o episodio de um macaco que ele ensinou a pular com extraordinária perícia. Se o bicho saltava de um galho para outro e no meio se arrependia, o referido esperto animal fazia finca-pé no ar e facilmente retornava ao local de origem.

É comprida a coleção das lorotas humanas. Homens e mulheres têm imaginação fértil, sobretudo estas quando ajudam os maridos nas cabeludas mentiras.

Tornou-se vulgaríssima em Minas a conversa de Joaquim Bentinho com os dois amigos que o visitavam e aos quais ele contou que um dia, quase boquinha da noite, sentado à porta da casinha tosca daqueles perdidos do interior mineiro, viu no descampado, ao longe, um vultozinho. Coçou os olhos, reparou direito era um veado. Agarrou a espingarda, carregada só com um cartucho. Fez pontaria segura, e houve o papouco. O bicho deu salto, bateu no chão e imobilizou-se. Bentinho buscou a caça, estava morta, rasgo de bala no casco e na orelha. Os ouvintes admiraram-se: uma bala só, dois buracos? A mulher por perto não deixou que o marido mentisse:

- Tu não se alembra que o animá tava coçando a orêia?

Gustavo Barroso encontrou essa rabuda mentira entre os campônios de França e do folclore de outras gentes anotou invencionice que os nossos matutos também contam.

Lembrou-me do bom Capivara, caboclo que tomava conta de um sítio de meu pai nos arredores de Barras, neste Piauí famoso. Bebedor permanente de cachaça, calmo, tranqüilo, Capivara nunca deixou de deliciar as pessoas, na choupana modesta onde morava como caseiro, encarregado do cajual, das mangueiras e outros pés de frutas, com mentiras bem contadas.

Ouvi uma delas, certa vez, e a encontrei como estória matuta do sertão brasileiro em Gustavo Barroso.

Capivara contava-a como cousa acontecida, verdadeira, segundo dizia, como Deus no céu. Ele gostava de criar papagaios. Conseguiu onze dessas aves faladoras. Nas novenas ouvia o padre rezar a ladainha com as beatas na ajuda, vozes fanhosas. Achou que os papagaios deveriam aprender esse hino religioso e tratou logo de efetuar a ensinança. O mais velho dos papagaios cantava o verso do cântico bonito em louvor da Virgem Maria, e os dez papagaios mais novos respondiam o ORA PRO NOBIS. Uma maravilha.

Há mentirosos de todo tipo.


A. Tito Filho, 31/12/1988, Jornal O Dia - p. 4

MEMÓRIA

Recebi do culto conterrâneo Anízio Cavalcanti o seguinte sobre o saudoso Alarico José da Cunha:

"A década dos anos 20 (1921-1930) foi a época em que o cronista saía da adolescência e se expendia no meio exterior à família. Foi o tempo em que entrou no âmbito ainda crepuscular dos primeiros contactos com os mais velhos. O sair do adolescente para um relacionamento mais dilatado fez que ele, com a memória fresca, retivesse, pela vida inteira, fatos, coisas e reminiscências que se abeirassem de sua vida familiar. E, dentro dessa perspectiva do seu viver, já matizado das primeiras aproximações com os demais seres humanos - ele fixou inconscientemente alguns deles, cuja efígie, nos gestos e atitudes, lhe ficou na memória como um retrato subjetivo.

Anos de 1926 a 1928... Fim das tardes calmas, ensolaradas. Pessoas já voltam do trabalho. Parnaíba, a terra de céus claros e vento brando que vem lá do mar... Dois intelectuais piauienses caminham pelo espaço amplo da Praça da Graça, caminho freqüente de quem vai para o trabalho. Encontram-se mais uma vez. Saúdam-se, no abraço fraterno do costume da terra. E, depois das primeiras palavras, um assunto vem à tona o destino da alma humana, o karma, cerne das crenças das vidas. Um, é Gonçalo Cavalcanti, o outro é Alarico Cunha. Naquela época, os círculos intelectuais de Parnaíba voltavam-se para obras de feição espiritualista, sobre religião, hinduismo, budismo, esoterismo.

Nos meus ouvidos de adolescente, ressoavam os nomes de Helena Blavatski, Jinarajadasa, Vivekananda, Annie Besant, Leadbeater, Olcott e outros vários, ingleses, estudiosos de religião da Índia. Na conversação, eu de quando em quando ouvia referencias aos vedas, ao Bhagavad - Gitá e aos Upinashiads... Meu pai Gonçalo e Alarico pareciam por vezes desprender-se do solo da praça e viajar até as longinquas montanhas dos Himalaias (o nome é plural) em busca dos caminhos - dos iogas - que levam o homem ao bem-estar (Hatha-Ioga), ao conhecimento (Gnani-Ioga), à mente iluminada (Raja) e ao cume supremo da ascensão mística, a Bhakti-Ioga. A noite vinha surpreendê-los na conversa embevecida. E era nessas ocasiões que meus olhos se fixaram em Alarico, homem estudioso, bondoso, cultíssimo, de elevada espiritualidade. Por influência da lembrança de seu vulto, minha pequena estante de livros abriga dois volumes de Yogi Ramacharaka, divulgador hindú da filosofia religiosa dos VEDAS e da VEDANTA. Vez por outra, para rever conceitos da filosofia oriental, meu braço se alonga e minha mão apanha o 'Curso Adiantando de Filosofia Yogi', desse autor; e, ao compulsar o livro, minha memória atravessa o tempo passado e eu vejo diante de mim dois piauienses intelectuais a conversar sobre um tema que lhes era tão grato: Gonçalo Cavalcanti, pai deste cronista, e Alarico José da Cunha, figura rara do homem culto.

Em verdade a conversação cultural daqueles dois intelectuais se vincula à sabedoria do Cristo, que, naqueles recuados tempos, às margens de Yám Kirenet, mar de Galiléia, encerrava o Sermão da Mantanha e recomendava: 'Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo' (MATEUS, 6,33).”

ANÍSIO DE A. CAVALCANTI, Niterói.


A. Tito Filho, 28/05/1988, Jornal O Dia

NOVA CONSTITUIÇÃO

Durante mais de um ano e meio esteve reunida mais uma assembléia constituinte. Deputados e senadores debateram assuntos diversos e aprovou-se novos princípios constitucionais, ao cabo de cartas promulgadas a 5 de outubro. Novo pacto passaria a reger o Estado brasileiro, depois da vigência de seis, a exemplo do que se outorgou no Império (1824), o primeiro republicano (1891), o pós-golpe militar de 1930 (1934), o decretado por Getúlio Vargas na manhã de 10 de novembro de 1937, outro em 1964, o de Humberto Castelo Branco em 1967, fora as emendas constitucionais de 1926 e 1969. Cada uma dessas leis magnas acenava com novos processos de vida para as populações do campo e da cidade, sem que até hoje se conhecessem mudanças, salvo as que afligem a imensa maioria das classes populares cada vez mais empobrecidas, enganadas e abandonadas, sem terra e famintas. Bem salientou o finado Getúlio Vargas, que voto não enche barriga. E sempre que surge nova constituição, os seus títulos, artigos, parágrafos e alíneas mais acenam com novas fórmulas salvadoras. Decreta-se a liberdade em todos os sentidos, o amparo dos direitos individuais e sociais, a proteção da família, da cultura, e a família desagrega-se e poucos, raros, conhecem e interpretam os aspectos culturais do Brasil. Ninguém pode viver com os salários de fome da classe média e do operariado - os salários decretados pelo próprio governo. Não é possível crer em constituição, enquanto reduzido número de banqueiros e magnatas exploram o trabalho dos humildes e dos pequenos, sugados até a alma pela ambição do dinheiro e do poder. Constituição institui direitos e deveres, pelo menos dela se esperam normas de garantia da liberdade de não passar fome, de ter acesso à instrução e à educação, de morar dignamente e jamais em habitações desumanas distribuídas pela falsa benemerência oficial. As megalópoles exibem no dia-a-dia da vida milhares de párias nas filas da inexistente resistência social. E a saúde moral e espiritual dos jovens de hoje? A mocidade está rica de maus exemplos, em protestos freqüentes contra a alta sociedade doente que a criou a seu modo e fisionomia. A violência espalha-se por todos os cantos, nascida quase sempre dos desníveis sociais e da afronta da riqueza mal adquirida. Há frustrações econômicas e sexuais nos espancamentos e nos assassinatos. Bem escreveu Paulo César Coutinho, em lúcido exame, sobre a confraternização alcoólica nos botecos e sobre o homossexualismo reprimido, e conclui que a violência se tornou a única conquista democrática neste país. Já os jovens não se miram nos exemplos dos mais velhos, decepcionados com os planos cruzados e os políticos maus. Há o culto das noitadas irresponsáveis. O ato sexual - disse o jornalista - está desacompanhado do amor. Liquidou-se quase a mocidade e desaparecem os valores autênticos. Chegou a hora de dar novos caminhos à juventude, que reclama e merece afeto e amor. Ou se mudam comportamentos ou a deterioração será total. Faliu a sociedade. Que se esperaria da nova constituição republicana? Justiça Social, antes de tudo, a fim de que haja uma equilibrada distribuição de rendas e que poucos não adotem o deboche como norma de educação coletiva. Ninguém esqueça os milhões de brasileiros que apenas assinam o nome, sem capacidade da leitura e interpretação do emaranhado de diretrizes que não vigoram. De 1824 a 1988 nunca se cumpriu uma Constituição do Brasil.


A. Tito Filho, 27/11/1988, Jornal O Dia

NAPOLEÃO

Nasceu em União (PI) a 17-3-1903, na Casa Grande do "Sítio", pertencente a seu bisavô Antônio Martins Viana, sede do patriarca rural em decadência. De família pobre.  Aos dez anos seguiu para Belém (PA), onde cursou o antigo Ginásio Pais de Carvalho e iniciou vida literária, colaborando em jornais e revistas. Auxiliar de telegrafista em Salvador (BA). De 1919 a 1924 residiu no Rio de Janeiro. Passou dificuldades. Operário no antigo Museu Nacional da Quinta da Boavista. Trabalhou no Serviço de Seleção de Sementes do Ministério da Agricultura. Regressando ao Piauí, exerceu os seguintes cargos: Oficial de Gabinete e Secretário do Governador do Estado, Redator do jornal "O Piauí", catedrático do antigo Liceu Piauiense (hoje Colégio Zacarias de Góis), lecionando gramática histórica e filosofia; professor do ginásio São Francisco de Sales, Colégio Coração de Jesus, Escola Normal (línguas); Diretor do Liceu Piauiense, Diretor Geral da Instrução Pública, correspondente a Secretário de Educação e Cultura (duas vezes); Professor de Direito Constitucional da antiga Faculdade de Direito do Piauí; Consultor Jurídico do Departamento das Municipalidades; Secretário Geral do Estado e Interventor Federal. Elaborou a reforma orgânica do ensino estadual em moldes de alto nível pedagógico. Pioneiro da instituição de plano de escolas de iniciação agrícola. Membro do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Educação, do Pen Clube, da Academia de Ciências Políticas da Universidade de Colúmbia e da Associação Piauiense de Imprensa. Voltou ao Rio em 1946, como advogado. Integrou o Serviço Jurídico da antiga Superintendência da Moeda e do Crédito. Pertenceu à Consultoria Jurídica do Banco do Brasil, como Chefe-Adjunto do Departamento Jurídico da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial. Consultor Jurídico do Banco do Brasil. Labor intelectual extraordinário: professor, ensaísta, conferencista, jornalista, tradutor, advogado, prosador e dos maiores poetas da literatura nacional.

OBRA:

- "Do Latim Castrense ao Romance"

- "Influência Dantesca na Obra de Camões"

- "O Sentimento Brasileiro na Poesia de Bilac"

- "A Criança Problema Básico"

- "O Nordeste e as Grandes diretrizes da Educação Popular"

- "Caderno de Ação Católica"

- "O Piauí e o Nordeste"

- "Aceite Condicional da Duplicata"

- "Dívida dos Pecuaristas"

- "Copa de Ébano" (poesia)

- "Poemas da Terra Selvagem"

- "Caminhos da Vida e da Morte" (poesia)

- "Poemas Humanos e Divinos"

- "O Prisioneiro do Mundo" (poesia)

- "Opus 7" (poesia)

- "O Oleiro Cego" (poesia)

- "Três Cantos do Paraíso"

- "Pequena Antologia de Poemas Alheios"

- "Tema, Coral e Fuga" (poesia)

- "Três Cantos do Purgatório" e

- "Epopéia Camoniana" (conferência).

Martins Napoleão participou do movimento de renovação da poesia brasileira. Alguns dos seus poemas foram vertidos para o espanhol por Gastón Figuera (Uruguai) e Juan Felipe Toruno (El Salvador). É glória das letras piauienses.

Toda a sua obra poética foi reunida por ele em dois volumes, intitulados "Cancioneiro Geral". A prosa literária está num só volume, "Folhas Soltas ao Vento".

Benedito Martins Napoleão do Rego faleceu no Rio de Janeiro, a 30-4-1981, e sepultou-se em Teresina, no dia seguinte.


A. Tito Filho, 28/07/1988, Jornal O Dia

quinta-feira, 10 de março de 2011

FERNANDO

Nasceu na cidade de União (PI) a 26-8-1896. Pais: Augusto Everton e Silva (magistrado) e Eva Gaspar Tobler e Silva, filha de João Gaspar Tobler, de nacionalidade suíça, residente em Amarante (PI).

Estudos primários com o pai, em Colônia, hoje Floriano (PI), que alí mantinha uma escola noturna - a escola São Vicente de Paula. Depois, aluno do Colégio Diocesano e do Liceu Piauiense, em Teresina. Em 1920, prestou concurso para telegrafista. Classificado em 2º lugar e nomeado, passou a exercer as funções em Fortaleza e aí se matriculou na Faculdade de Direito, formando-se a 11-8-1927 - Turma do Centenário da Fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil (11-8-1827). Já casado com Maria do Carmo Ribeiro e Silva, de ilustre e tradicional família cearense, deixou a carreira telegráfica, passando ao exercício da promotoria pública de Cascavel, depois de Russas, ambas do Ceará. Em 1929, juiz municipal na comarca de Massapê (CE). Juiz de Limoeiro (hoje Limoeiro do Norte), onde fundou colégio com aulas matutinas (para o sexo feminino), vespertinas (rapazes) e noturnas (comerciantes e lavradores).

Ano de 1931, atendendo a apelo do pai desembargador Augusto Everton e Silva, voltou ao Piauí. Nomeado juiz de direito de Jaicós, aí fundou o colégio Padre Marcos. Foi juiz também nas seguintes comarcas piauienses: Piripiri, Uruçuí, Castelo (hoje Castelo do Piauí), Jaicós (segunda vez) e Floriano - e nesta última exerceu o magistério no Colégio Santa Teresinha. Princípio de 1954, aceitou o juizado da 1ª vara cível de Teresina. Em 1956, subia ao mais alto posto da magistratura estadual, como desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí, cargo em que se aposentou, em 1966, ao atingir a idade-limite de 70 anos.

Na capital do Piauí foi acatado mestre, nos seguintes educandários: Ginásio Leão XIII, Colégio Sagrado Coração de Jesus, Escola Normal, Colégio Estadual do Piauí, Ginásio Demóstenes Avelino e, de 1959 a 1966, da Faculdade de Direito do Piauí, como catedrático de Introdução a Ciência do Direito.

Atividades jornalísticas: fundador e redator-chefe do "O Município", na cidade de Cascavel (CE), ano de 1928. Em Fortaleza, ainda acadêmico, colaborou na Revista da Faculdade de Direito do Ceará e nos jornais "Gazeta de Notícias" e "O Nordeste"; em Floriano, quando juiz, no órgão "Cidade de Floriano"; em Teresina, em "Jornal do Piauí". Durante 13 anos presta colaboração ao "Estado do Piauí", da capital piauiense.

Logo depois de aposentado, transferiu residência para Fortaleza - e na capital cearense, entre 1968 e 1971, com artigos de crítica literária, colaborou nos jornais "O Povo", "Unitário" e "Correio do Ceará".

As revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí agasalham brilhantes produções de Fernando Lopes Sobrinho.

Obras publicadas: "Padre Marcos, um Missionário do Bem" e "O Direito e a Equidade" (Tese).

Jurista, jornalista, poeta, ingressou na Academia Piauiense de Letras em 1967; deu ao jornalismo uma fórmula nova, jovial de criticar e de julgar, e mostrou que o jornalismo é, antes de tudo, arte essencial, que reclama dons divinatórios do espírito. No seu jornalismo, há um permanente clima de humor - o humor dos ingleses - assim à moda de um Conteline. É que o sal do humor tem um substrato fisiológico, o sal das lágrimas, como acentuou Afrânio Peixoto.

Ao jornalismo uniu a atividade do professor. E educou os moços com fulgurante e acreditada cultura, baseando o ensinamento, sobretudo na compreensão da alma dos jovens, sempre sequiosos de ternura, de alegria, de liberdade. Sentiu que o amor é a base da educação - e destruiu todos os diques que separam mestres e discípulos.

Praticou a justiça que nasceu da cultura e da meditação, talvez do estudo e do sofrimento. A justiça de que todos os direitos vivem em função da sociedade.

Publicou "Enquanto as Trevas não chegam", [de] crônicas e crítica.

Chamou-se Fernando Lopes e Silva Sobrinho. Faleceu em Fortaleza, 1981.


A. Tito Filho, 30/06/1988, Jornal O Dia

GAIOLAS

Este jornal está circulando neste dia 27 de maio de 1988 e até ontem não havia sobrado tempo para uma visita minha à nova coqueluche teresinense, o vapor construído em Parnaíba, batizado Comandante Fausto Silva, agora na capital piauiense, na distância de cento e vinte e nove anos do primeiro GAIOLA, o vapor URUÇUÍ, que se fabricou no Rio de Janeiro.

Esses vaporzinhos antigos eram de excelente viajar. Num deles, em 1942, embarquei em Juazeiro da Bahia, para subir o São Francisco até Pirapora, em minas, e daí alcançar o Rio de Janeiro, por terra. Viagem gostosa. Rapazola, deliciei-me com muita cabloca de beira d'água, nas cidadezinhas da época. Estive na gruta de Bom Jesus da Lapa, espaçosa e clara, na terra baiana. Muita pobreza. Mendigos às pencas, feridentos, doentes, maltrapilhos.

Gostei da cidade de Barra do Rio Grande, margem esquerda da grande corrente fluvial, onde foi aldeia de índios e fez parte do célebre Sertão de Rodelas - que pertenceu à Bahia, passou a Pernambuco, a Minas e voltou ao domínio baiano.

Estive doze dias subindo o rio. Manhãs e tarde monótonas. Noites agradabilíssimas. Dormida ao ar livre, na rede do cheiro da gente. Refeições de bom peixe. O comandante apreciava a boa pinga.

Fiz outra viagem nos GAIOLAS, saindo do Rio de Janeiro em 26-12-1946. Percorremos o São Francisco de Pirapora e a Remanso e entramos no Piauí de caminhão, por São Raimundo Nonato. Alegres companheiros no percurso: Tibério Nunes, Fenelon Silva, Mariano Mendes, Álvaro Ferreira Filho. Atingimos Floriano no dia 18 de janeiro de 1947. Nessa antiga Colônia de são Pedro de Alcântara tomamos passagem noutro GAIOLA, rumo de Teresina. Embarque pelas 11 da manhã e chegada ao ponto final às 7 da manhã de 19, um domingo, quando o eleitorado já buscava os locais competentes para eleger o primeiro governador do Piauí depois das trevas da ditadura de Getúlio Vargas, o médico José da Rocha Furtado, artista do bisturi.

Os naviozinhos que o povo chamava VAPOR desapareceram da paisagem do Rio Parnaíba, faz uns trintas anos. Os do rio São Francisco estão transformados em PALÁCIOS de turismo, com orquestras, AMERICAN BAR, mulheres de aluguel, para milionários em férias, PLEIBÓIS de pais latifundiários, artistas de roquenrol e outras maluquices. Contam que nestes passeios, subindo e descendo o rio, gasta-se muito dinheiro mas goza-se um bocado a vida.

Jorge Amado, num dos seus melhores livros, narra viagem nesses barcos ao tempo do transporte a serviço das populações ribeirinhas. Comovente drama de dezenas de pobres e humildes na segunda classe, amontoados, em severa promiscuidade, e as delícias da primeira classe, no segundo andar do vaporzinho. Uma reportagem forte, vida real, da forma que contou o romancista baiano.

Ainda não sei se o Piauí voltará ao transporte pelo seu Rio Parnaíba, quase sem condições de navegabilidade. Será possível?


A. Tito Filho, 27/05/1988, Jornal O Dia

quarta-feira, 9 de março de 2011

SOCIEDADE DOENTE

Por toda parte, li o anúncio do SHOW MISSE GAY DO PIAUÍ, no Hotel Rio Poty, dedicado à sociedade. Veadagem de luxo esteve presente. O soçaite ganhou uma das suas grandes noites de futilidade, aplaudindo o espetáculo de despudoramento. Do Rio de Janeiro veio, sob contrato, em veadão famoso, milionário muitas vezes à custa desse exibicionismo de perversões sexuais. Pobre Teresina, pobre família teresinense, pobre memória de nossos mortos sagrados, como Dom Severino Vieira de Melo, e tantas mulheres e homens decentes, afrontados na sua compostura por festas assim, em que jovens demonstravam anormalidade do sexo debaixo de palmas e aplausos, seios de silicone, calcinhas, brincos, lábios embatonados e nádegas obtidas com hormônios femininos. A platéia, frenética, deu vivas ao espetáculo. Que espetáculo!

Mestre Raimundo Portella sempre quis dotar Teresina de um hotel confortável e sobre modo decente. Saudoso amigo, homem de bem, deve ter, corado de vergonha ao ver o sultado dos seus sonhos como palco de demonstração de sexo invertido. Dessa forma o soçaite educa a infância, a adolescência e a juventude? Para ser vitorioso na vida, ter dinheiro e fama, conseguir incentivo e aplausos, há necessidade de o ser humano masculino exibir deformações sexuais verdadeiras ou falsas? Quanto se gastou nessa festa em que se divertiu a alta-roda, esbanjando-se dinheiro, para o espetáculo deprimente? Infelizes os que urram e se entusiasma com as perversões sexuais certas ou imitadas. Os veados são doentes, merecedores de tratamento e compreensão, nunca objetos de espetáculos públicos, e os imitadores por dinheiro merecem compaixão. Teresina reproduz agora os bacanais de Sodoma e Gamorra. Ainda virá o terrível castigo aos pecadores.

Crianças, adolescentes e jovens do sexo masculino devem aprender o que o soçaite lhes ensina: a vitória na vida depende das perversões sexuais falsas ou verdadeiras, homenageadas com festas, músicas, aplausos, num momento em que quase todo o povo brasileiro passa fome. A Rússia dos czares era assim, a começar da depravada imperatriz. Havana semelhava um lupanar ao ar livre. Comunizaram-se.

Crianças, adolescentes e jovens abandonem os livros. Devem repudiar as lições dos mestres. Ponham brincos, calcinhas, rebolem as nádegas e ganhem dinheiro à custa do exibicionismo.


A. Tito Filho, 26/10/1988, Jornal O Dia