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domingo, 23 de janeiro de 2011

COMUNISMO

A Academia Piauiense de Letras editorou COPA E COZINHA, em que mestre Cunha e Silva escreve memórias políticas e sociais de Teresina, e o faz com rara fidelidade aos fatos e aos homens que neles tomaram parte. Jornalista, historiador e estudioso de temas filosóficos, o autor também leciona, com autoridade, sobre a vida e os problemas das coletividades universais. Em determinado trecho, com franqueza, narra: "Em 1935, fui apontado graciosamente como implicado em movimento subversivo que dizia a Polícia, estava se preparando no Piauí. Meteram-no no xadrez mais infecto do Quartel de Polícia".

Era o tempo da mais extraordinária imbecilidade nacional. Getúlio Vargas necessitava de pretextos para mais períodos de poder discricionário e ilegítimo, que se implantaram em 1937. A melhor maneira de permanecer dono dos destinos do país estava em propagar o perigo comunista, e o comunista, nesses anos de ignomínia, eram tidos como inimigos de Deus e da família. Feras humanas, gostavam de comer menino novo, de tenra idade.

O professor Cunha e Silva recorda essa fase de covardias permanentes da Polícia: "Naquele tempo, como hoje, prisioneiros políticos misturavam-se com sentenciados, com criminosos de toda espécie, com facínoras os mais perigosos, com ladrões e punguistas".

Acusado de chefe da conspiração em Teresina, o ilustre jornalista e educador, nascido nas terras piauienses de Amarante, enfrentou corajosamente as acusações injustas e o processo respectivo, sem provas corretas e irrefutáveis.

Esclarece o escritor noutro local: "Logo que fui preso em Teresina, o coronel Delfino Vaz já esteve em Amarante, onde procurou o meu irmão Enoch Cícero e Silva e dele recebeu a chave de minha casa, entrando nela e retirando da estante dez livros da literatura marxista-leninista".

Anos de terror. Ao menos livros que se vendiam nas livrarias de Paris e de outros centros europeus não podiam fazer parte da cultura de ninguém.

Convivi anos a fio com Cunha e Silva no magistério e nunca ouvi dele idéias de solidariedade ao comunismo. Sempre liberal, o mestre defendia, no jornalismo e na oratória, o direito de o homem pensar conforme quisesse, sem que fosse sujeito a censura ou castigo.

Era, porém, o tempo da caça às bruxas. Em alguns pontos do país havia sido derrotado o movimento subversivo de Luís Carlos Prestes, a 27 de novembro de 1935. Prendiam-se pessoas inocentes, em conseqüência de denuncias anônimas, feitas para o exercício de vinganças mesquinhas contra adversários.

No Piauí não houve comunistas. Houve idealistas. Homens simples, pobres e humildes que pretendiam uma pátria tranqüila e feliz, em que todos obtivessem os frutos da justiça social.

Voltarei ao assunto.


A. Tito Filho, 18/09/1988, Jornal O Dia

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